segunda-feira, 4 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

Nietzsche e Schopenhauer no MSN




Nietzsche diz:
huahauahau
Ser artista tem valor metafísico, sabe...
Schopenhauer diz:
aham
Nietzsche diz:
E ser inventor, cientista, conquistador, tem valor artístico...
No fim, nós só queremos ser imortais, não é?
Schopenhauer diz:
CAARA
só temos filhos e escrevemos livros e criamos coisas porque não aceitamos nossa finitude
carai
to foi no ponto certo
tu
carai
que mente a sua, cara
é exatamente isso
heeeheh
Nietzsche diz:
hauahauhaau Ter filho também, não é...
huahauahauahau Morrer por completo deve ser ruim...
Schopenhauer diz:
ah, mas muita gente pensa que ter filho é uma forma de vencer a morte
o que vc pensa sobre esse assunto "filial"
?
ehhehe
Vc quer dizer que os que morrem ser ter filhos acabam morrendo por completo?
Nietzsche diz:
Ter filhos é isso... acho que o instinto de preservação da espécie quando é sublimado é que eu acho que surge a nossa vontade de ser grandes, de sermos memoráveis: "preservar a nossa espécie" no plano imaginário das pessoas...
Sim... assimo como os não artistas...
Schopenhauer diz:
cara...
Nietzsche diz:
Mas artistas pra mim abrange muito mais do que os pintores escritores e músicos...
Schopenhauer diz:
então acho que vou morrer por completo
huhhauhuaua
cara
eu acabando prezando principalmente os músicos, pintores e escritores
Nietzsche diz:
Segundo a minha lógica vc não vai morrer por completo...
cara!
Acabei de conceber um novo raciocínio sobre as vontades vitais do ser humano!
hauhauahauahauahau
Schopenhauer diz:
hehehe
e por que não morrerei por completo?
Nietzsche diz:
Você é escritor...
Schopenhauer diz:

Nietzsche diz:
hueheue acho que vc não entendeu direito a minha idéia...
Schopenhauer diz:
sim sim entendi
ahuahuah
tah, mas suponha q tenha um infarto agora, morra, sem minhas obras serem publicadas
meus livros e músicas ficarem apenas no HD no computador
aí sim, morrerei por completo
ahuhauah
Nietzsche diz:
É um risco que todos enfrentamos...
hauahauahauahau Tem que ter a senha pra entrar no meu diretório, então ninguém acharai vestígios do que eu escrevo...
*acharia
Schopenhauer diz:
Mas pra fim tanto faz morrer por completo ou não
hauhauhuahuha
Nietzsche diz:
Na prática não faz diferença alguma...
Schopenhauer diz:
aham
Nietzsche diz:
Hein, a idéia que eu concebi agora era o seguinte...
Schopenhauer diz:
fala
Nietzsche diz:
As pessoas mais comuns vivem com o desejo secreto ou declarado de serem artistas, alguns em entrar na TV, outros em fazer uma dupla sertaneja...
TODA pessoa que se destacar de alguma forma...
Toda pessoa quer garantir que será lembrada depois da morte...
Schopenhauer diz:
sim
mas poucas conseguem
Nietzsche diz:
Um cara quer inventar um chip novo de computador, eu e vc queremos escrever obras primas...
Schopenhauer diz:
mas sinceramente, pra mim tanto faz ser lebrado ou não depois da morte
e por falar em morte...
vc acredita que temos uma alma que irá se desprender de nosso corpo quando de nossa morte?
Nietzsche diz:
Acredito não...
Schopenhauer diz:
então é o que digo sempre
assim como Camus dizia
viver é um absurdo incomensurável
não tem sentido viver
tipo
somos carne e ossos ambulantes
hauahuah
Nietzsche diz:
Eu compreendo...
Não há mesmo sentido...
Nenhum
Schopenhauer diz:
então conjeturo que o suicídio não é nem anormalidade, é apenas a interrupção de um ciclo sem sentido algum
O suicídio, então, passa a ter mais sentido que a própria vida
Nietzsche diz:
Não... eu não acho que a vida seja sem sentido.... mas acho que a vida tem um sentido nulo... e explico o porque...
De onde vem a vontade de ter um sentido pra viver, e o que ter um sentido pra viver compreende?
Se tivéssemos um sentido pra viver, ao menos como eu pude imaginar, seriamos escravos do sentido.... deus, por exemplo, se existisse...
Schopenhauer diz:
vc quer dizer que o sentido da vida é buscar um sentido para viver?

Nietzsche diz:
É a única coisa que se encaixa no conceito de "sentido de vida", coisa que nós mesmos inventamos...
Schopenhauer diz:
hmmmm
Nietzsche diz:
E acredito que inventamos isso por não sabermos lidar com a liberdade de não haver nenhum prop´´osito preescrito sobro as missões que devemos cumprir, as rainhas que devemos salvar, etc...
*sobre
Schopenhauer diz:
entendo
agora fiquei assim, meio
meio
meio
pensativo
hehehe
Nietzsche diz:
hehehehe
Schopenhauer diz:
hmmm
então não faz sentido se matar?
Nietzsche diz:
Não ter sentido na vida, faz tão pouco sentido como ter um, do qual se é escravo...
Schopenhauer diz:
o suicídio então perde o seu sentido?
Nietzsche diz:
Hmm... vou pensar um pouco sobre o valor do suicídio...
Schopenhauer diz:
para mim, o valor do suicídio é a libertação definitiva, e a liberdade deve ser a vida propriamente dita, destarte, a morte é a liberdade que a vida deveria estar incrustada nos seres
cara, como eu sou prolixo hauhauhahu
to pior que o Proust jaahuah
para mim, é preciso ter mais coragem para se matar do que para viver
Nietzsche diz:
Se existisse um sentido, o suicídio poderia representar algumas coisas, como, a desistência do propósito, ou a suprema objeção contra esse propósito...
Schopenhauer diz:
mas é exatamente o fato de a vida não ter sentido que o suicídio possui um sentido
meu deus
que papo mais iluminista
hauhauhuah
Nietzsche diz:
hauahuahauahaua
Foi um papo interessante...
Foiu fértil...
*foi
porra....
Schopenhauer diz:
hauhauha
mas se a vida não tem sentido, o suicídio tem o sentido de tornar o homem livre de uma vida sem sentido, assim, o suicídio ganha sentido sobre a nulidade, o vão da vacuidade que é a vida
Nietzsche diz:
Cara, conjeturei aqui o seguinte, se para voce o suicídio tem um valor, é porque vc criou um sentido, uma valoração a vida... seja ruim seja bom, vc criou alguma coisa além de uma vida vazia...
Schopenhauer diz:
se eu criasse uma valoração para a vida eu não precisaria substanciar o suicídio, compreende?
Nietzsche diz:
Hmm... na verdade não compreendo não... compreendo poucas frases que tem a palavra "substância" como chave, é uma deficiência minha...huahueheuehe
Schopenhauer diz:
hauhauh
substanciar, tornar algo vazio em algo "cheio"
tornar como substancia, dar valor
ehhe
Nietzsche diz:
Mas então vc substanciou o suicídio como liberdade, iconizou-o como algo a que se pode escolher...
Schopenhauer diz:
exato
a liberdade seria a morte,
a vida seria a prisão, pois algo sem sentido nos aprisiona a buscar um sentido
Nietzsche diz:
Cara, Nietzsche dizia que por fim, o homem vai preferir escolher o nada, do que nada escolher.
Schopenhauer diz:
é
Nietzsche diz:
O nada escolher, eu diria que é o niilismo absoluto... o qual é impossível na prática...
Schopenhauer diz:
ele tinha razão
cara
o niilista de verdade é o que está morto
hauhauhauhuah
o niilismo é uma utopia sem precedentes
Nietzsche diz:
Concordo!
huahauahauahaua
Schopenhauer diz:
eheh
e cara
tudo isso que pensamos, que criamos, que sofremos, que choramos, que nos humilha, que humilhamos, comemos, bebemos, para no fim de tudo... MORRERMOS
HAUHAUHAUHAUHUAHAUHUAHAUHUAHUAHUAHUHA
digo
viver é como dar murro em ponto de faca
entende?
e o camarada que tem filho é o mais idiota
cara
a cada filho que o homem tem ele apenas o vão na vacuidade da vida dele
Nietzsche diz:
Vc sem dúvida "substanciou" a vida, a existência, não apenas como o vazio, mas como algo maligo...
Schopenhauer diz:
aumenta o vão
sim
sim
mas para ser maligno
ela teria que possuir um sentido
com a existência da morte em nosso percalço, não há como substanciar a vida
a vida sem a morte teria um sentido ínfimo
mas a morte nos mostra que a vida não tem sentido
pois se tivesse sentido não existiria morte
é complicado ehhe
Nietzsche diz:
"mas para ser maligno
ela teria que possuir um sentido" Eu discordo... concordamos no ponto de que a vida não tem por si só sentido. Então o que leva as pessoas a se moverem, a continuarem vivendo? A criação do sentido...
Schopenhauer diz:
Discordo
ahuah
Nietzsche diz:
Todos criamos um sentido, e eu creio que é o que vc também fez...
hauhauaahasu
Schopenhauer diz:
ahuhauha
Nietzsche diz:
Vc tem objeções contra a vida...
Schopenhauer diz:
as pessoas só se movem e vivem por que são OBRIGADAS a isso
não tem escapatória
hahauhuahuahah
sim
tenho VÁRIAS objeções contra a vida
VÁRIAS
huahuahua
Nietzsche diz:
Então vc não é indiferente a vida...
Então vc não considera que ela seja completamente desprovida de propriedades...
Schopenhauer diz:
ela é que é indiferente a mim
hauahuhauha
Nietzsche diz:
hauahauahauahu Eu sei como é isso...
Schopenhauer diz:
o que vc quer dizer com "propriedades"
???
Nietzsche diz:
Propriedades, características, conteúdos...
Se a vida representa algo contra a qual se vai contra, é por que ela tem algo a que atacar...
Se ela tem algo, ela tem propriedades, ao menos as que atribui quem objeta contra ela...
*noss... tira um contra ali...hauahauahau
Schopenhauer diz:
hauhauhuahahu
caracolis
hauhauhau
mano
tipo
faça essa mesma pergunta ao Sílvio Santos
depois faça a uma criança do Haiti
a relativização das respostas tira todo o sentido da vida
Nietzsche diz:
Pro silvio santos a vida é boa, pra criança do haiti, suponho que a vida seja ruim. O que há em comun nos dois? Para os dois a vida representa algo.
Schopenhauer diz:
não
´para a criança do Haiti não há de representativo na vida
Nietzsche diz:
Então, se for assim, eis o nosso arquétipo de Niilista, que é praticamente um vegetal.
Schopenhauer diz:
dor e miséria não é representação, é pura e simplesmente um determinismo biológico e geográfico
Nietzsche diz:
E o prazer não é?
Schopenhauer diz:
nossa, como to prolixo hoje
hauhauhauh
Nietzsche diz:
É tudo a mesmo coisa, mano...
Schopenhauer diz:
não é
cara
prazer e dor são apenas respostas que provém do estímulo do ambiente em que vivemos
Nietzsche diz:
Vc crê então que o valor das coisas ruins é genuíno, e que o das coisas boas é ilusão?
Schopenhauer diz:
EXATAMENTE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Nietzsche diz:
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Schopenhauer diz:
hauhauhauha
Nietzsche diz:
Pois é, você é um pessimista.
Schopenhauer diz:
sou
huahauhauau

sábado, 2 de outubro de 2010

Corra, coelho, cave um buraco, esqueça o sol


Ele precisava de férias, e enfim, estava desfrutando-as. Foi à praia relembrar um pouco da infância. A última vez que se deleitou no mar foi aos onze anos, e catorze anos depois, retornou ao único lugar que lhe proporcionou (etéreas) alegrias na tenra idade. Prometeu a si mesmo esquecer o resto do passado, o que era um tanto difícil, mesmo diante das águas dançantes do mar e do fulgor do pôr-do-sol. Às seis horas da manhã ele já caminhava nas calçadas da cidade, e às dez, tomava banho de mar. O maldito vulcão de desgraças, que estava dormindo em sua mente por alguns dias, ameaçava entrar em erupção. A família desunida, os fracassos profissionais, as drogas, enfim. Resolveu viajar sozinho, por opção e porque também não tinha a quem convidar. Na realidade, ele adorava ficar sozinho, e não entendia o motivo de as pessoas confundirem paz com solidão. Não era um solitário, era apenas uma peça errante de um jogo de xadrez; uma peça que decidiu não fazer parte de um jogo onde os peões são postos à frente para proteger as peças mais abjetas, como bispos, rei, rainha . Ele era simplesmente o ser humano que queria construir uma nova vida. Construir, aliás, é o mais prudente a se fazer: é necessário derrubar a casa já decrépita e erigir outra. Reconstruir implica em conservar cicatrizes.
Sentado num quiosque, bebendo cerveja e ouvindo Pink Floyd através do fone do Mp4, avistou uma criança que aparentava ter seis anos de idade. Ela chorava, como se quisesse conseguir algo através das lágrimas. A mãe simplesmente a ignorava. Pediu mais uma cerveja dentre as várias que pediria, e pensou: “Sempre achei que os pais, com raríssimas exceções, nunca existiram; o que existem são apenas reprodutores.” A criança, ainda ignorada, afastou-se da mãe negligente, que ajeitava o corpo para se bronzear. A genitora, possuída pela vaidade e pelo desejo de ter a pele bronzeada, preferiu o sol a ter que agir como mãe.
Ao meio-dia, quando já estava completamente bêbado, decidiu pedir a última garrafa de cerveja. Ao passo que bebia, olhava a criança se afastando da mãe desnaturada. Ela enfiou os pezinhos inocentes na beira do mar. Ele, sabendo que as crianças, por natureza, fazem o que querem por falta de noção do perigo e por uma pérfida curiosidade, previu que ela, se não fosse tirada dali, avançaria e acabaria sendo levada pelo mar. Na verdade, ele poderia se levantar e tirá-la daquelas águas traiçoeiras, mas preferiu terminar de beber a cerveja. A letargia causada pelo álcool não é pior que a causada pela imprudência. A indolência dos adultos poderia ser um pré-requisito para castrá-los.
Ele chamou o dono do quiosque e vaticinou:
— Aquele rapazinho será tragado pelo mar.
— E aonde estão os pais dele?
— Eu acho que apenas a mãe dele está na praia.
— Eu irei tirá-lo de lá.
— Não precisa se preocupar, traga mais uma cerveja, porque o pequenino já se afogou — diferente de Narciso, temos aqui um ser que se afogou por causa da vaidade de outrem.
A forma fleumática com que anunciou a morte do menino assustou o dono do quiosque, que perguntou:
— Por que será que ninguém o tirou de lá antes?
— Porque são reprodutores! — algumas pessoas à sua volta, que escutaram a conversa, olharam-no inquisitoriamente; as mesmas pessoas que também não se levantaram para resgatar a criança. A sociedade se escarnece inconscientemente.
— E por que você está sorrindo, mesmo diante dessa tragédia?
— Que futuro teria uma criança trocada pelo sol? Que estrada seguiria uma ser trocado pela vaidade?
— Desculpe, amigo, mas não o compreendo.
— O que quero dizer é que o mar deu mais atenção a ele do que sua própria mãe. Às vezes são tangíveis a nós apenas as pessoas ou coisas que nos fazem mal. Ao menos, o pequenino não será atormentado por um passado funesto, como acontece comigo constantemente. O pequeno, ao invés de correr do mar, preferiu correr da negligência materna. É o que fazemos constantemente, corremos daquilo que não nos apetece. Eu não corri, por isso carrego um passado que me deixará livre apenas quando eu morrer. Quem sabe, se eu tivesse corrido...
De súbito, começou a cantar um trecho da música que estava ouvindo no Mp4: Run, rabbit run/ Dig that hole, forget the sun...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O que realmente importa


Um rico comerciante entrou num bar modesto. Tinha pressa, pouco importava, naquele momento, a reputação do local. Acomodou-se numa mesa e pediu cerveja, trazida rapidamente. Sorveu o primeiro gole. Em seguida, observou que, na mesa ao lado, havia um homem de cabelo desgrenhado e barba por fazer. Era um filósofo. O comerciante, fitando-lhe curiosamente, disse-lhe:
— Desculpe-me, mas vejo que você não anda tão preocupado com a vida. Vejo isso pela sua paciência e pelo seu modo de se vestir.
— E vejo que você se preocupa muito, não é mesmo? Vejo isso pelo seu modo de se vestir e pelo seu olhar um tanto capitalista — disse o filósofo, cofiando a barba e bebendo cerveja.
—Olhar capitalista? — estranhou o comerciante.
— Sim, um olhar perdido como o de um cego.
— Diga-me, por que você não tem preocupações? Você é rico?
— Não sou rico, não me preocupo porque não há nada com o que me preocupar.
— Como assim?
— A vida é tão breve que não tenho de me preocupar, não tenho tempo para ser triste ou alegre — para o comerciante, essa resposta teve o mesmo impacto de um soco no estômago.
— Então você vive por viver?
— Sim, enquanto você, creio eu, vive para morrer.
O comerciante assentiu com a cabeça e, civilmente, fez um convite ao filósofo:
— Sente-se aqui, vou lhe pagar algumas cervejas.
— Eu aceito, mas da próxima vez, eu pago. Eu tenho muito dinheiro.
— Mas você acabou de me dizer que não é rico.
— E não sou: para juntar o dinheiro que tenho hoje, perdi muito tempo me matando de trabalhar quando eu era engenheiro, perdi a riqueza de viver plenamente. Posteriormente, decidi estudar filosofia. Enxergaste que não sou rico por ter me matado de tanto trabalhar? — o filósofo sorriu mostrando os dentes amarelos: ele havia parado de fumar, mas ainda carregava os estigmas deixados pelo cigarro.
O comerciante apoiou o cotovelo na mesa e o queixo entre o polegar e o dedo indicador. Pôs-se a pensar profundamente, apertando os olhos. Há momentos na vida em que a verdade irrompe tão bruscamente quanto a morte de uma borboleta; momentos em que lágrimas fazem os olhos pulsarem, tremerem até tornarem líquidas as angústias do ser humano. Prender o choro pode gerar uma dor que lateja na fronte. No deserto repleto de sentimentos agonizantes da mente há sempre um oásis. Esconder um prazer entre culpas torna a vida ainda mais insuportável; é como recusar água quando se está morrendo de sede. Com os olhos úmidos de súbitas lágrimas que persistiam em se esconder, o comerciante disse:
— Se a riqueza da vida está nela, ou seja, está no fato de a gente viver plenamente, então creio que você está bebendo com um morto.
O que seria viver plenamente? Viver ultrapassa o âmbito de simplesmente respirar, de ter um coração batendo, enfim, de estar vivo. O filósofo poderia, profusamente, dar vários conceitos sobre a vida — conceitos que sempre geram perguntas sem respostas —, mas preferiu apenas parafrasear Oscar Wilde: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” Em seguida, completou:
— Não se preocupe, nada é para sempre. O importante é que a cerveja está gelada...

domingo, 4 de julho de 2010

Conforme-se!


Jamais veja as coisas do lado de fora
Você tem sede e quer vinho
Mas só tem água
Então não olhe para fora
Apenas beba a maldita água
Talvez não possas alcançar o que queres
Então feche os olhos
E pegue apenas os objetos tangíveis
Você quer vinho, mas só tem água!
Você quer vinho, mas só tem água!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

21 de Março - Dia Internacional da Luta Contra a Discriminação Racial



Política de cotas para negros é questionada por universitários

No dia 21 de março de 1960 a ONU instituiu o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Apesar da data, universitários não enxergam motivos para comemoração. Com o advento das cotas a partir de 2001, houve significativo aumento no número de estudantes negros nas universidades federais, mas muitos universitários afirmam que esse sistema aumenta a discriminação. O critério para a criação do sistema de cotas, segundo o governo, é a dificuldade do negro entrar no mercado devido à humilhação histórica sofrida durante séculos de preconceito.

Polêmica

Para Luciana de Deus Souto, estudante de Jornalismo, o sistema de cotas é uma das várias formas de discriminação racial: “por que a cor da pele deve privilegiar uma pessoa? A questão em si já é preconceituosa.” Muitos indivíduos do meio acadêmico detêm um pensamento igualitário entre etnias, e afirmam que a criação desse sistema agrava ainda mais a questão do preconceito. A universitária Anaterra Oliveira é a favor de um sistema de cotas que possua outra realidade: “não precisamos de cotas para negros e sim para estudantes de escolas públicas. Devemos competir igualmente, o que precisa ser avaliado é a questão da educação pública no Brasil, ela sim deve ser melhorada para que os alunos possam competir de igual para igual nas universidades federais, pois o ensino particular acaba qualificando mais seus alunos.”
A universitária Pâmela Luciene tratou o assunto com maior profundidade: “eu acho a questão de cotas para negros algo falho. Quem não se recorda do caso dos irmãos gêmeos onde um foi aprovado e o outro não?” Pâmela refere-se ao caso dos gêmeos univitelinos Alan e Alex Teixeira da Cunha. Em 2007, os irmãos se inscreveram para o sistema de cotas, mas apenas Alan passou pela seleção da Universidade de Brasília (UnB).

Diferente Ponto de Vista

André Luiz Fernandes da Cunha, Mestre em História Cultural, contraria o pensamento de grande parte dos universitários. André prefere manter o foco nos pontos positivos proporcionados pelo sistema de cotas: “sou a favor porque quase não vejo negros em profissões como médico, engenheiro ou cientista. Ironicamente, os negros, apesar de serem mais pobres, pagam mais para estudar, pois poucos conseguem entrar em cursos concorridos de universidades públicas e acabam em faculdades particulares. É curioso que, no Brasil, a maioria das pessoas que estudam de graça são justamente aquelas que podem pagar, ou seja, os que estudaram em colégios bons e caros, e se prepararam para o vestibular. A sociedade brasileira é complexa e tem várias idiossincrasias.”
O professor admite que a adoção do sistema de cotas estimula a discriminação, mas afirma que esse sistema tem o importante papel de fazer uma reparação histórica: “durante séculos o Brasil viveu sob o jugo da escravidão, e essa cicatriz ainda não se fechou, pois qualquer pesquisa indica que os negros são mais pobres que os brancos. Se ela estimula o preconceito, também estimula o debate e motiva a sociedade e encarar seus problemas de frente. Se quisermos que os negros se insiram pra valer no mercado de trabalho, precisamos criar mecanismos. A ‘cota’ é um deles.”

sábado, 12 de junho de 2010

Lúgubre Dicotomia

Quão verdes eram as folhas
Mas tornaram-se marrons com o passar do tempo
Quão belo era o passado
Que se tornou onírico com o a passar do tempo
O tempo passa e tudo fica claro
Percebo então algo interessante
A medida da força é Newton
E a medida da dor é Deus — auspiciosa ingenuidade
Que faço eu com o tempo?
Espero ele passar?
Ou acabo com ele de uma vez por todas?
Vivo por viver e isso já é bem sabido
Eflúvios pensamentos de não-vida
Percebo que viver ou não
É uma mera questão vetorial