segunda-feira, 4 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

Nietzsche e Schopenhauer no MSN




Nietzsche diz:
huahauahau
Ser artista tem valor metafísico, sabe...
Schopenhauer diz:
aham
Nietzsche diz:
E ser inventor, cientista, conquistador, tem valor artístico...
No fim, nós só queremos ser imortais, não é?
Schopenhauer diz:
CAARA
só temos filhos e escrevemos livros e criamos coisas porque não aceitamos nossa finitude
carai
to foi no ponto certo
tu
carai
que mente a sua, cara
é exatamente isso
heeeheh
Nietzsche diz:
hauahauhaau Ter filho também, não é...
huahauahauahau Morrer por completo deve ser ruim...
Schopenhauer diz:
ah, mas muita gente pensa que ter filho é uma forma de vencer a morte
o que vc pensa sobre esse assunto "filial"
?
ehhehe
Vc quer dizer que os que morrem ser ter filhos acabam morrendo por completo?
Nietzsche diz:
Ter filhos é isso... acho que o instinto de preservação da espécie quando é sublimado é que eu acho que surge a nossa vontade de ser grandes, de sermos memoráveis: "preservar a nossa espécie" no plano imaginário das pessoas...
Sim... assimo como os não artistas...
Schopenhauer diz:
cara...
Nietzsche diz:
Mas artistas pra mim abrange muito mais do que os pintores escritores e músicos...
Schopenhauer diz:
então acho que vou morrer por completo
huhhauhuaua
cara
eu acabando prezando principalmente os músicos, pintores e escritores
Nietzsche diz:
Segundo a minha lógica vc não vai morrer por completo...
cara!
Acabei de conceber um novo raciocínio sobre as vontades vitais do ser humano!
hauhauahauahauahau
Schopenhauer diz:
hehehe
e por que não morrerei por completo?
Nietzsche diz:
Você é escritor...
Schopenhauer diz:

Nietzsche diz:
hueheue acho que vc não entendeu direito a minha idéia...
Schopenhauer diz:
sim sim entendi
ahuahuah
tah, mas suponha q tenha um infarto agora, morra, sem minhas obras serem publicadas
meus livros e músicas ficarem apenas no HD no computador
aí sim, morrerei por completo
ahuhauah
Nietzsche diz:
É um risco que todos enfrentamos...
hauahauahauahau Tem que ter a senha pra entrar no meu diretório, então ninguém acharai vestígios do que eu escrevo...
*acharia
Schopenhauer diz:
Mas pra fim tanto faz morrer por completo ou não
hauhauhuahuha
Nietzsche diz:
Na prática não faz diferença alguma...
Schopenhauer diz:
aham
Nietzsche diz:
Hein, a idéia que eu concebi agora era o seguinte...
Schopenhauer diz:
fala
Nietzsche diz:
As pessoas mais comuns vivem com o desejo secreto ou declarado de serem artistas, alguns em entrar na TV, outros em fazer uma dupla sertaneja...
TODA pessoa que se destacar de alguma forma...
Toda pessoa quer garantir que será lembrada depois da morte...
Schopenhauer diz:
sim
mas poucas conseguem
Nietzsche diz:
Um cara quer inventar um chip novo de computador, eu e vc queremos escrever obras primas...
Schopenhauer diz:
mas sinceramente, pra mim tanto faz ser lebrado ou não depois da morte
e por falar em morte...
vc acredita que temos uma alma que irá se desprender de nosso corpo quando de nossa morte?
Nietzsche diz:
Acredito não...
Schopenhauer diz:
então é o que digo sempre
assim como Camus dizia
viver é um absurdo incomensurável
não tem sentido viver
tipo
somos carne e ossos ambulantes
hauahuah
Nietzsche diz:
Eu compreendo...
Não há mesmo sentido...
Nenhum
Schopenhauer diz:
então conjeturo que o suicídio não é nem anormalidade, é apenas a interrupção de um ciclo sem sentido algum
O suicídio, então, passa a ter mais sentido que a própria vida
Nietzsche diz:
Não... eu não acho que a vida seja sem sentido.... mas acho que a vida tem um sentido nulo... e explico o porque...
De onde vem a vontade de ter um sentido pra viver, e o que ter um sentido pra viver compreende?
Se tivéssemos um sentido pra viver, ao menos como eu pude imaginar, seriamos escravos do sentido.... deus, por exemplo, se existisse...
Schopenhauer diz:
vc quer dizer que o sentido da vida é buscar um sentido para viver?

Nietzsche diz:
É a única coisa que se encaixa no conceito de "sentido de vida", coisa que nós mesmos inventamos...
Schopenhauer diz:
hmmmm
Nietzsche diz:
E acredito que inventamos isso por não sabermos lidar com a liberdade de não haver nenhum prop´´osito preescrito sobro as missões que devemos cumprir, as rainhas que devemos salvar, etc...
*sobre
Schopenhauer diz:
entendo
agora fiquei assim, meio
meio
meio
pensativo
hehehe
Nietzsche diz:
hehehehe
Schopenhauer diz:
hmmm
então não faz sentido se matar?
Nietzsche diz:
Não ter sentido na vida, faz tão pouco sentido como ter um, do qual se é escravo...
Schopenhauer diz:
o suicídio então perde o seu sentido?
Nietzsche diz:
Hmm... vou pensar um pouco sobre o valor do suicídio...
Schopenhauer diz:
para mim, o valor do suicídio é a libertação definitiva, e a liberdade deve ser a vida propriamente dita, destarte, a morte é a liberdade que a vida deveria estar incrustada nos seres
cara, como eu sou prolixo hauhauhahu
to pior que o Proust jaahuah
para mim, é preciso ter mais coragem para se matar do que para viver
Nietzsche diz:
Se existisse um sentido, o suicídio poderia representar algumas coisas, como, a desistência do propósito, ou a suprema objeção contra esse propósito...
Schopenhauer diz:
mas é exatamente o fato de a vida não ter sentido que o suicídio possui um sentido
meu deus
que papo mais iluminista
hauhauhuah
Nietzsche diz:
hauahuahauahaua
Foi um papo interessante...
Foiu fértil...
*foi
porra....
Schopenhauer diz:
hauhauha
mas se a vida não tem sentido, o suicídio tem o sentido de tornar o homem livre de uma vida sem sentido, assim, o suicídio ganha sentido sobre a nulidade, o vão da vacuidade que é a vida
Nietzsche diz:
Cara, conjeturei aqui o seguinte, se para voce o suicídio tem um valor, é porque vc criou um sentido, uma valoração a vida... seja ruim seja bom, vc criou alguma coisa além de uma vida vazia...
Schopenhauer diz:
se eu criasse uma valoração para a vida eu não precisaria substanciar o suicídio, compreende?
Nietzsche diz:
Hmm... na verdade não compreendo não... compreendo poucas frases que tem a palavra "substância" como chave, é uma deficiência minha...huahueheuehe
Schopenhauer diz:
hauhauh
substanciar, tornar algo vazio em algo "cheio"
tornar como substancia, dar valor
ehhe
Nietzsche diz:
Mas então vc substanciou o suicídio como liberdade, iconizou-o como algo a que se pode escolher...
Schopenhauer diz:
exato
a liberdade seria a morte,
a vida seria a prisão, pois algo sem sentido nos aprisiona a buscar um sentido
Nietzsche diz:
Cara, Nietzsche dizia que por fim, o homem vai preferir escolher o nada, do que nada escolher.
Schopenhauer diz:
é
Nietzsche diz:
O nada escolher, eu diria que é o niilismo absoluto... o qual é impossível na prática...
Schopenhauer diz:
ele tinha razão
cara
o niilista de verdade é o que está morto
hauhauhauhuah
o niilismo é uma utopia sem precedentes
Nietzsche diz:
Concordo!
huahauahauahaua
Schopenhauer diz:
eheh
e cara
tudo isso que pensamos, que criamos, que sofremos, que choramos, que nos humilha, que humilhamos, comemos, bebemos, para no fim de tudo... MORRERMOS
HAUHAUHAUHAUHUAHAUHUAHAUHUAHUAHUAHUHA
digo
viver é como dar murro em ponto de faca
entende?
e o camarada que tem filho é o mais idiota
cara
a cada filho que o homem tem ele apenas o vão na vacuidade da vida dele
Nietzsche diz:
Vc sem dúvida "substanciou" a vida, a existência, não apenas como o vazio, mas como algo maligo...
Schopenhauer diz:
aumenta o vão
sim
sim
mas para ser maligno
ela teria que possuir um sentido
com a existência da morte em nosso percalço, não há como substanciar a vida
a vida sem a morte teria um sentido ínfimo
mas a morte nos mostra que a vida não tem sentido
pois se tivesse sentido não existiria morte
é complicado ehhe
Nietzsche diz:
"mas para ser maligno
ela teria que possuir um sentido" Eu discordo... concordamos no ponto de que a vida não tem por si só sentido. Então o que leva as pessoas a se moverem, a continuarem vivendo? A criação do sentido...
Schopenhauer diz:
Discordo
ahuah
Nietzsche diz:
Todos criamos um sentido, e eu creio que é o que vc também fez...
hauhauaahasu
Schopenhauer diz:
ahuhauha
Nietzsche diz:
Vc tem objeções contra a vida...
Schopenhauer diz:
as pessoas só se movem e vivem por que são OBRIGADAS a isso
não tem escapatória
hahauhuahuahah
sim
tenho VÁRIAS objeções contra a vida
VÁRIAS
huahuahua
Nietzsche diz:
Então vc não é indiferente a vida...
Então vc não considera que ela seja completamente desprovida de propriedades...
Schopenhauer diz:
ela é que é indiferente a mim
hauahuhauha
Nietzsche diz:
hauahauahauahu Eu sei como é isso...
Schopenhauer diz:
o que vc quer dizer com "propriedades"
???
Nietzsche diz:
Propriedades, características, conteúdos...
Se a vida representa algo contra a qual se vai contra, é por que ela tem algo a que atacar...
Se ela tem algo, ela tem propriedades, ao menos as que atribui quem objeta contra ela...
*noss... tira um contra ali...hauahauahau
Schopenhauer diz:
hauhauhuahahu
caracolis
hauhauhau
mano
tipo
faça essa mesma pergunta ao Sílvio Santos
depois faça a uma criança do Haiti
a relativização das respostas tira todo o sentido da vida
Nietzsche diz:
Pro silvio santos a vida é boa, pra criança do haiti, suponho que a vida seja ruim. O que há em comun nos dois? Para os dois a vida representa algo.
Schopenhauer diz:
não
´para a criança do Haiti não há de representativo na vida
Nietzsche diz:
Então, se for assim, eis o nosso arquétipo de Niilista, que é praticamente um vegetal.
Schopenhauer diz:
dor e miséria não é representação, é pura e simplesmente um determinismo biológico e geográfico
Nietzsche diz:
E o prazer não é?
Schopenhauer diz:
nossa, como to prolixo hoje
hauhauhauh
Nietzsche diz:
É tudo a mesmo coisa, mano...
Schopenhauer diz:
não é
cara
prazer e dor são apenas respostas que provém do estímulo do ambiente em que vivemos
Nietzsche diz:
Vc crê então que o valor das coisas ruins é genuíno, e que o das coisas boas é ilusão?
Schopenhauer diz:
EXATAMENTE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Nietzsche diz:
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK
Schopenhauer diz:
hauhauhauha
Nietzsche diz:
Pois é, você é um pessimista.
Schopenhauer diz:
sou
huahauhauau

sábado, 2 de outubro de 2010

Corra, coelho, cave um buraco, esqueça o sol


Ele precisava de férias, e enfim, estava desfrutando-as. Foi à praia relembrar um pouco da infância. A última vez que se deleitou no mar foi aos onze anos, e catorze anos depois, retornou ao único lugar que lhe proporcionou (etéreas) alegrias na tenra idade. Prometeu a si mesmo esquecer o resto do passado, o que era um tanto difícil, mesmo diante das águas dançantes do mar e do fulgor do pôr-do-sol. Às seis horas da manhã ele já caminhava nas calçadas da cidade, e às dez, tomava banho de mar. O maldito vulcão de desgraças, que estava dormindo em sua mente por alguns dias, ameaçava entrar em erupção. A família desunida, os fracassos profissionais, as drogas, enfim. Resolveu viajar sozinho, por opção e porque também não tinha a quem convidar. Na realidade, ele adorava ficar sozinho, e não entendia o motivo de as pessoas confundirem paz com solidão. Não era um solitário, era apenas uma peça errante de um jogo de xadrez; uma peça que decidiu não fazer parte de um jogo onde os peões são postos à frente para proteger as peças mais abjetas, como bispos, rei, rainha . Ele era simplesmente o ser humano que queria construir uma nova vida. Construir, aliás, é o mais prudente a se fazer: é necessário derrubar a casa já decrépita e erigir outra. Reconstruir implica em conservar cicatrizes.
Sentado num quiosque, bebendo cerveja e ouvindo Pink Floyd através do fone do Mp4, avistou uma criança que aparentava ter seis anos de idade. Ela chorava, como se quisesse conseguir algo através das lágrimas. A mãe simplesmente a ignorava. Pediu mais uma cerveja dentre as várias que pediria, e pensou: “Sempre achei que os pais, com raríssimas exceções, nunca existiram; o que existem são apenas reprodutores.” A criança, ainda ignorada, afastou-se da mãe negligente, que ajeitava o corpo para se bronzear. A genitora, possuída pela vaidade e pelo desejo de ter a pele bronzeada, preferiu o sol a ter que agir como mãe.
Ao meio-dia, quando já estava completamente bêbado, decidiu pedir a última garrafa de cerveja. Ao passo que bebia, olhava a criança se afastando da mãe desnaturada. Ela enfiou os pezinhos inocentes na beira do mar. Ele, sabendo que as crianças, por natureza, fazem o que querem por falta de noção do perigo e por uma pérfida curiosidade, previu que ela, se não fosse tirada dali, avançaria e acabaria sendo levada pelo mar. Na verdade, ele poderia se levantar e tirá-la daquelas águas traiçoeiras, mas preferiu terminar de beber a cerveja. A letargia causada pelo álcool não é pior que a causada pela imprudência. A indolência dos adultos poderia ser um pré-requisito para castrá-los.
Ele chamou o dono do quiosque e vaticinou:
— Aquele rapazinho será tragado pelo mar.
— E aonde estão os pais dele?
— Eu acho que apenas a mãe dele está na praia.
— Eu irei tirá-lo de lá.
— Não precisa se preocupar, traga mais uma cerveja, porque o pequenino já se afogou — diferente de Narciso, temos aqui um ser que se afogou por causa da vaidade de outrem.
A forma fleumática com que anunciou a morte do menino assustou o dono do quiosque, que perguntou:
— Por que será que ninguém o tirou de lá antes?
— Porque são reprodutores! — algumas pessoas à sua volta, que escutaram a conversa, olharam-no inquisitoriamente; as mesmas pessoas que também não se levantaram para resgatar a criança. A sociedade se escarnece inconscientemente.
— E por que você está sorrindo, mesmo diante dessa tragédia?
— Que futuro teria uma criança trocada pelo sol? Que estrada seguiria uma ser trocado pela vaidade?
— Desculpe, amigo, mas não o compreendo.
— O que quero dizer é que o mar deu mais atenção a ele do que sua própria mãe. Às vezes são tangíveis a nós apenas as pessoas ou coisas que nos fazem mal. Ao menos, o pequenino não será atormentado por um passado funesto, como acontece comigo constantemente. O pequeno, ao invés de correr do mar, preferiu correr da negligência materna. É o que fazemos constantemente, corremos daquilo que não nos apetece. Eu não corri, por isso carrego um passado que me deixará livre apenas quando eu morrer. Quem sabe, se eu tivesse corrido...
De súbito, começou a cantar um trecho da música que estava ouvindo no Mp4: Run, rabbit run/ Dig that hole, forget the sun...

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O que realmente importa


Um rico comerciante entrou num bar modesto. Tinha pressa, pouco importava, naquele momento, a reputação do local. Acomodou-se numa mesa e pediu cerveja, trazida rapidamente. Sorveu o primeiro gole. Em seguida, observou que, na mesa ao lado, havia um homem de cabelo desgrenhado e barba por fazer. Era um filósofo. O comerciante, fitando-lhe curiosamente, disse-lhe:
— Desculpe-me, mas vejo que você não anda tão preocupado com a vida. Vejo isso pela sua paciência e pelo seu modo de se vestir.
— E vejo que você se preocupa muito, não é mesmo? Vejo isso pelo seu modo de se vestir e pelo seu olhar um tanto capitalista — disse o filósofo, cofiando a barba e bebendo cerveja.
—Olhar capitalista? — estranhou o comerciante.
— Sim, um olhar perdido como o de um cego.
— Diga-me, por que você não tem preocupações? Você é rico?
— Não sou rico, não me preocupo porque não há nada com o que me preocupar.
— Como assim?
— A vida é tão breve que não tenho de me preocupar, não tenho tempo para ser triste ou alegre — para o comerciante, essa resposta teve o mesmo impacto de um soco no estômago.
— Então você vive por viver?
— Sim, enquanto você, creio eu, vive para morrer.
O comerciante assentiu com a cabeça e, civilmente, fez um convite ao filósofo:
— Sente-se aqui, vou lhe pagar algumas cervejas.
— Eu aceito, mas da próxima vez, eu pago. Eu tenho muito dinheiro.
— Mas você acabou de me dizer que não é rico.
— E não sou: para juntar o dinheiro que tenho hoje, perdi muito tempo me matando de trabalhar quando eu era engenheiro, perdi a riqueza de viver plenamente. Posteriormente, decidi estudar filosofia. Enxergaste que não sou rico por ter me matado de tanto trabalhar? — o filósofo sorriu mostrando os dentes amarelos: ele havia parado de fumar, mas ainda carregava os estigmas deixados pelo cigarro.
O comerciante apoiou o cotovelo na mesa e o queixo entre o polegar e o dedo indicador. Pôs-se a pensar profundamente, apertando os olhos. Há momentos na vida em que a verdade irrompe tão bruscamente quanto a morte de uma borboleta; momentos em que lágrimas fazem os olhos pulsarem, tremerem até tornarem líquidas as angústias do ser humano. Prender o choro pode gerar uma dor que lateja na fronte. No deserto repleto de sentimentos agonizantes da mente há sempre um oásis. Esconder um prazer entre culpas torna a vida ainda mais insuportável; é como recusar água quando se está morrendo de sede. Com os olhos úmidos de súbitas lágrimas que persistiam em se esconder, o comerciante disse:
— Se a riqueza da vida está nela, ou seja, está no fato de a gente viver plenamente, então creio que você está bebendo com um morto.
O que seria viver plenamente? Viver ultrapassa o âmbito de simplesmente respirar, de ter um coração batendo, enfim, de estar vivo. O filósofo poderia, profusamente, dar vários conceitos sobre a vida — conceitos que sempre geram perguntas sem respostas —, mas preferiu apenas parafrasear Oscar Wilde: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” Em seguida, completou:
— Não se preocupe, nada é para sempre. O importante é que a cerveja está gelada...

domingo, 4 de julho de 2010

Conforme-se!


Jamais veja as coisas do lado de fora
Você tem sede e quer vinho
Mas só tem água
Então não olhe para fora
Apenas beba a maldita água
Talvez não possas alcançar o que queres
Então feche os olhos
E pegue apenas os objetos tangíveis
Você quer vinho, mas só tem água!
Você quer vinho, mas só tem água!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

21 de Março - Dia Internacional da Luta Contra a Discriminação Racial



Política de cotas para negros é questionada por universitários

No dia 21 de março de 1960 a ONU instituiu o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial. Apesar da data, universitários não enxergam motivos para comemoração. Com o advento das cotas a partir de 2001, houve significativo aumento no número de estudantes negros nas universidades federais, mas muitos universitários afirmam que esse sistema aumenta a discriminação. O critério para a criação do sistema de cotas, segundo o governo, é a dificuldade do negro entrar no mercado devido à humilhação histórica sofrida durante séculos de preconceito.

Polêmica

Para Luciana de Deus Souto, estudante de Jornalismo, o sistema de cotas é uma das várias formas de discriminação racial: “por que a cor da pele deve privilegiar uma pessoa? A questão em si já é preconceituosa.” Muitos indivíduos do meio acadêmico detêm um pensamento igualitário entre etnias, e afirmam que a criação desse sistema agrava ainda mais a questão do preconceito. A universitária Anaterra Oliveira é a favor de um sistema de cotas que possua outra realidade: “não precisamos de cotas para negros e sim para estudantes de escolas públicas. Devemos competir igualmente, o que precisa ser avaliado é a questão da educação pública no Brasil, ela sim deve ser melhorada para que os alunos possam competir de igual para igual nas universidades federais, pois o ensino particular acaba qualificando mais seus alunos.”
A universitária Pâmela Luciene tratou o assunto com maior profundidade: “eu acho a questão de cotas para negros algo falho. Quem não se recorda do caso dos irmãos gêmeos onde um foi aprovado e o outro não?” Pâmela refere-se ao caso dos gêmeos univitelinos Alan e Alex Teixeira da Cunha. Em 2007, os irmãos se inscreveram para o sistema de cotas, mas apenas Alan passou pela seleção da Universidade de Brasília (UnB).

Diferente Ponto de Vista

André Luiz Fernandes da Cunha, Mestre em História Cultural, contraria o pensamento de grande parte dos universitários. André prefere manter o foco nos pontos positivos proporcionados pelo sistema de cotas: “sou a favor porque quase não vejo negros em profissões como médico, engenheiro ou cientista. Ironicamente, os negros, apesar de serem mais pobres, pagam mais para estudar, pois poucos conseguem entrar em cursos concorridos de universidades públicas e acabam em faculdades particulares. É curioso que, no Brasil, a maioria das pessoas que estudam de graça são justamente aquelas que podem pagar, ou seja, os que estudaram em colégios bons e caros, e se prepararam para o vestibular. A sociedade brasileira é complexa e tem várias idiossincrasias.”
O professor admite que a adoção do sistema de cotas estimula a discriminação, mas afirma que esse sistema tem o importante papel de fazer uma reparação histórica: “durante séculos o Brasil viveu sob o jugo da escravidão, e essa cicatriz ainda não se fechou, pois qualquer pesquisa indica que os negros são mais pobres que os brancos. Se ela estimula o preconceito, também estimula o debate e motiva a sociedade e encarar seus problemas de frente. Se quisermos que os negros se insiram pra valer no mercado de trabalho, precisamos criar mecanismos. A ‘cota’ é um deles.”

sábado, 12 de junho de 2010

Lúgubre Dicotomia

Quão verdes eram as folhas
Mas tornaram-se marrons com o passar do tempo
Quão belo era o passado
Que se tornou onírico com o a passar do tempo
O tempo passa e tudo fica claro
Percebo então algo interessante
A medida da força é Newton
E a medida da dor é Deus — auspiciosa ingenuidade
Que faço eu com o tempo?
Espero ele passar?
Ou acabo com ele de uma vez por todas?
Vivo por viver e isso já é bem sabido
Eflúvios pensamentos de não-vida
Percebo que viver ou não
É uma mera questão vetorial

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Jardim Psicodélico


Vermelho é a cor do nosso suor
Cheio de sangue
E negro é o passado que nos marca
Mas não faz mal
Sangrar se for em prol da liberdade
Pois do prisma extrairei apenas
Cores quentes e belas
E do arco-íris da vida
Farei o meu caminho errante
Uma flor vermelha
Pode ser tudo menos vermelha
Assim como o destino
A aparência é apenas a cor não absorvida
Muita luz no caminho
Acaba nos cegando
É sempre bom o equilíbrio
Entre a luz e a escuridão
Sinto-me atormentado
Pelo branco da vida
O branco que não é a paz
Mas o vazio de cada dia
Então que fique tudo verde
Como as plantas do meu jardim psicodélico
Onde estou deslizando no meu arco-íris
Sempre viajando
Sempre viajando

domingo, 30 de maio de 2010

Percepção (Albert)

Caros leitores, desprendam-se da inanidade do cérebro e abram suas mentes para apreciarem o psicológico-filosófico poema de Albert, poeta do blog "Os Devoradores de Letras". Devoradores, uni-vos.

Vemos o amanhã, com os olhos de ontem
Ouvimos o que um dia não ouviremos mais
Provamos o gosto da vitória
Sentimos o cheiro da derrota
E por fim tocamos o infinito.

Nem sempre percebemos
o que podemos sentir.
Mas as vezes sentimos
o que os outros não percebem.

Pesadelo (Erik Luthor)

Com a força e o lirismo rimbaudiano, Erik Luthor, poeta e escritor do blog "Os Devoradores de Letras", expõe no maravilhoso poema a seguir todo o torpor e devaneio que há no pesadelo. Leiam e sintam a força da dor! Devoradores, uni-vos.

Venha sinta a força de minha morte
estupre minha alma e violente meu espírito
Não deixe meu grito cair no esquecimento
esfole seus joelhos implorando que eu renasça

Mas não faça dos meus sonhos realidade
não caminhe em brasas com sandalhas de gelo
não se olhe no espelho do banheiro da escola

É hora de ir embora
Adeus imagem! Adeus súplicas! Adeus vitória! Adeus mundo!
Adeus vida!

Sobre a estrada de espinhos reluzentes
feitas do ouro roubado dos Incas
caminhei com coragem e força
mas os demónios incompreensíveis
do silêncio das noites de inverno
me fizeram hibernar em sangue

E agora o teto tem flores
dores, cores e muitos amores
Numa inércia sem tamanho e forma

Venha sinta a força de minha dor!

Paradoxo da Incógnita Vivida (Jeff Araújo)

A única certeza que temos em vida é que um dia ouviremos a canção da morte. Jeff Araúfo, escritor e poeta do blog "Os Devoradores de Letras", discorre sobre nossa finitude de maneira magistral. Devoradores, uni-vos.

A morte quando decide nos abraçar,
faz com nossas esperanças
como se tivesse em mãos
eu torrão de areia,
deixando dissipar-se no ar
as pequenas partículas quase que invisíveis
que se esfarelam entre os dedos.

Um contra-peso nos é presenteado
pela graça do universo
num destino maravilhoso
que ainda nos lembra de estarmos vivos,
nos lembra de bons amigos
de amores passados e vitórias conquistadas,
servindo de alívio
para que possamos partir,
sem o manto melancólico da desgraça iminente.

Porém,
os poucos que percebem o intuito da graça,
caem na verdadeira desgraça,
sabendo que só são agraciados
para amenizar a dor da partida.

E a dor passa a se tornar
uma alegre vontade de viver,
só pra sentir vontade de morrer de novo
e largar para trás a tristeza
de uma vida vazia,
morrendo cada vez mais contente
a cada suicídio.

Atlântida (Leonardo "Hammerheart")

Neste onírico e feérico poema, Leonardo "Hammerheart", mais um grande poeta e escritor do blog "Os Devoradores de Letras", desbrava de forma sensacional a mítica Atlântida. Devoradores, uni-vos.

Guiado pelos ventos da ilusão
Eu velejei num barco de ironia
Banhado pelo sol do esquecimento
Procurei pela ilha da sabedoria

Mas uma tempestade de razão
Rasgou as velas da fé
E me afundou num mar de dúvidas
Onde fui levado pela maré

Com os olhos ainda fechados
Tentei me agarrar as rochas da mentira
Mas elas se desfaziam
Como areia enquanto subia

Durante incontáveis eras afundei
na dor, no desespero,
na agonia

Até que finalmente o solo encontrei

Alguém a mão me estendeu
“Abra seus olhos desbravador,
Pois na escuridão da verdade podes enxergar
E no frio da certeza podes caminhar.
Eu sou o ultimo dos sábios
E em minha casa conforto encontrará.”

Então, com olhos abertos,
O impossível vislumbrei
Uma cidade dourada reluzia
onde só água existia

“Que visão magnífica de um lugar surreal
Aos olhos de um mortal.
Seria isto Atlântida a cidade perdida?”

“De Atlântida alguns a chamam,
E de incontáveis outros nomes.”

“Mas insisto em indagar, oh ultimo dos sábios.
Atlântida não existe e nunca existiu
Como posso aqui estar?”

“Percebo que abre os olhos, mas
Reluta em enxergar, oh desbravador.
Estás a me indagar e não percebe onde estás.”

Então, com olhos abertos,
O impossível vislumbrei outra vez
Ao perceber a fauna medonha e abstrata
Que representava traços esquecidos
De minha sensatez.

O conhecimento então foi me revelado
Conhecimento que já possuía,
Mas havia a muito abandonado

“Então, quem és tu e
por que me acolhe,
Oh ultimo sábio?”

“Sou teu melhor amigo, teu irmão
E não faço por que quero ou
Por que devo.
Faço por que assim sou.

Agora chegou a hora de para teu caminho voltar.
Neste oceano não te perderás jamais
Porém nem vento, nem barco e nem vela terás.
Pois na verdade caminhará de olhos abertos
E nem mesmo o sol te iluminará.”

E assim voltei a superfície
Para ver o caos da ignorância reinar
Onde a felicidade dos tolos iludidos
Não conseguem a realidade observar.

Gravidez de Risco (Marcos Antonio)

A mente do ser humano é poderosa, e engendra-nos incomensuráveis quimeras. Devorem este psicológico e bem trabalhado texto de Marcos Antonio, parceiro do blog "Os Devoradores de Letras". Devoradores, uni-vos.

O QUE SERIA O NONO MÊS

No enterro de Marisa Miguel chorava bastante, chorava pela filha ou filho que perdeu e pela mulher que tanto pediu que ele fica-se com ela, sentia-se muito mal e nem uma palavra de amigos ou parentes podia fazer Miguel se sentir melhor, quando o caixão da jovem desceu na fenda aberta na terra ele sentiu-se pequeno demais para dizer qualquer coisa, olhou a mãe de Marisa e sentiu no olhar dela algo estranho, que não era raiva por ser ele a causa da morte da filha, era algo como pena, seus olhos diziam que não era sua culpa se Marisa tinha morrido com complicações no parto, os olhos da mãe dela diziam para ele não se senti-se assim por que a culpa não era sua, mais porque? A barriga e o neném que mexia constantemente, o amor de Marisa por ele e como ela sonhava em viver junto com ele, era culpa sua a morte dela, então porque os olhos de sua senhora mãe diziam que não?

OITAVO MÊS

- Como ela esta doutor? Miguel foi pela primeira vez ao hospital, estava tentando não se envolver com Marisa, tinha tido sérios problemas com ela durante o namoro, crises de ciumes, não só com amigas mais com primas suas também e agora se sentia mal por ela esta no hospital.
- Mal meu amigo, esta sangrando muito, sente contrações horríveis, só que tem um problema, é Miguel não é?
- Sim, me conte tudo doutor ontem ela brigou comigo por causa de uma namorada nova minha e sinto que a culpa e minha... o doutor interrompeu ele bruscamente segurando seu braço
- Um pouco é assim meu amigo mais não do jeito que você imagina tenho que te falar que....
- Doutor. - gritou uma mulher no fim do corredor. - E a Paciente 35. - Era a marisa e Miguel já sabia disso. - Ela esta tendo convulsões. O medico correu e Miguel correr atrás do medico ate Chegou a ver Marisa em cima da cama segurando a barriga enorme, suava e chorava os lençóis de sua cama molhados de sangue, ele ia entrar no quarto mais foi impedido por dois enfermeiros, muitas pessoas correram pelo corredor para o quarto de Marisa, depois gritos e mais gritos, e logo uma maca para levar ela para a UTI, ao sair ela olhou para ele com olhos de tristeza de que Miguel se lembraria para sempre, sempre que tentasse dormir, sempre que ouvisse uma criança chorar.

ANTES
- Quem e esta vagabunda Miguel? - gritou com Miguel que estava sentando perto de uma lanchonete comendo lanche com uma mulher alta e morena. - Eu sofrendo com este filho seu e você saindo por ai com estas piranhas. - Miguel levantou.
- Marisa tenha calma pode prejudicar o bebe, esta e minha namorada.
- Namorada. - gritou Marisa. - Você tem que ficar comigo eu sou sua mulher seu porco eu posso te amar ela não. - as pessoas na lanchonete começara a olhar para a cena.
- Amor. - disse a outra mulher.
- Amor a pulta que te pariu. - cuspiu Marisa começando a chorar.
- Eu vou esperar em casa depois você me liga.
- Vai ligar para dizer que acabou tudo. - gritou outra vez e quando a mulher já estava longe se virou para o ex-namorado. - Miguel, por favor eu te amo, você nunca vai ser feliz com este zinha ae, pelo amor de Deus pense nisso eu.... chorava muito e neste momento levou a mão a barriga e começou a gemer.
- O que foi Marisa? - tentou segurar a mulher que gemia de dor.
- O nené esta mexendo muito, estou sentindo muita dor, acho que estou sangrando. -olhou nos olhos de Miguel. - Acho que vou perder o bebe.
- Fique aqui eu vou buscar um carro.

ANTES
- O caso esta ficando grave. - disse o medico para o parceiro enquanto Marisa estava na sala ao lado. - Esta sentindo dores e contrações.
- Estaria com Nove meses? Perguntou o outro.
- Não oito, fizemos varias ultrassons que ela não quer vê, acho que sua mãe vem buscar ela hoje depois que eu der alta então vou conversar com ela, o caso desta garota me preocupa muito, muitas complicações
- A você como medico, eu como um psicologo
- Oi filha. - disse sua mãe entrando no quarto enquanto a filha com a barriga enorme estava deitada. - Vamos embora que os médicos lhe deram alta, o que foi filha parece triste?
- Miguel não veio me visitar nem uma vez mãe.- sentou-se na cama.
- Não veio mais ia e ligava lá em casa para saber de você e de seu bebe.
- Dona Marta. - A mãe de Marisa se virou e viu o medico que cuidava Da mulher. - Posso falar com a senhora um pouco. A mãe de Marisa saiu do quarto E ficou do lado de fora conversando com o medico por muito tempo, Marisa chegou a ver lagrimas no rosto da mãe e não sabia o porque só percebeu que quando voltou estava diferente de quando chegou mais cedo, Marisa teve medo por seu bebe mais nada falou ou perguntou para a mãe.

FINAL DO SETIMO MÊS

- Mais eu achei que estávamos nos acertando, ainda a hoje conversamos sobre o Bebe. - disse Marisa olhando nos olhos de Miguel que parecia um pouco desapontado.
- Não Marisa não vamos ficar juntos mais eu quero que entenda isso, não digo que não fomos felizes mais eu... eu não te amo.
- Mais eu te amo Miguel eu posso amar por nois dois.
- Não Marisa isso não existe, já te disse, já conversamos sobre isso por favor esquesa, eu vou sim te ajudar com o bebe, e vou comprar o berço semana que vem mais não. - enfatizou a frase. - Não vamos ficar juntos mais.
- Quando vamos ter outra ultrassom? Perguntou tentando mudar de assunto.
- Não sei, eles fazem uma por semana eu não aguento mais ir nestes vários médicos incluindo este psicologo que fica peguntando sobre minha vida.
- Mais e melhor você ir complicações na gravidez são perigosas. - percebeu que falar de complicações e riscos não era bom e mudou de assunto outra vez depois de uma longa pausa - Já escolheu um nome?
- Sim tenho algumas..... - sorriu e bateu com a mão na perna procurando as palavras certas.
- Opções?
- Isso o que você acha de...?


SETIMO MÊS

- Você conseguiu descobrir se nosso filho e homem ou mulher Marisa? Miguel perguntou encostado no portão da casa de Marisa.
- Não meu querido, já fiz ultrassom trés vezes e não conseguem ver o sexo. - A barriga já começava a ficar pontuda. - Minha mãe acha que e um menino ela quer ir nas consultas mais eu acho melhor eu ir sozinha, acho que este e um momento só meu.
- Eu queria poder ir mais trabalho tanto, eu vou comprar algumas coisas Marisa, roupas calçados para a crianças, e queria que você fosse comigo.
Marisa sorriu com vontade, achando que aquele era um sinal que Miguel voltaria para ela, neste instante o nené mexeu dentro dela e ela sorriu.
- Esta mexendo Miguel, poe a mão.
- Eu ponho Marisa mais o bebe nunca mexe para mim.


QUINTO MÊS

- Qual o problema doutor? Marisa olhava para o medico com um pouco de medo.
- Sua barriga esta crescendo. - Disse ele com um tom carrancudo na voz. -Você sente seu bebe mexer?
- Sim eu sinto, mais não e sempre, só quando eu como o neném se mexe mais, o miguel foi la em casa ontem daí o neném mexeu. - Marisa sorriu. - Ele quase saltou doutor.
O medico olhava para a barriga e para a fita métrica a mulher deitada sorria tocando a barriga que crescia.
- E tem esta veias surgindo, são estrias meu deus que estranho isso, você se sente bem?
- Sim, e com muita fome doutor. - sorriu um pouco. - O Senhor esta preocupado doutor o que e que esta havendo?
- Acho que não e nada mais vamos fazer um ultrassom ta bem?
- Sim, o senhor acha que da para ver o sexo já doutor? A pergunta ficou souta no ar.

TERCEIRO MÊS

- Doutor ontem eu senti o bebe mexer pela primeiras vez, eu não acho que seja necessária esta consulta, estou tão bem com meu filho.
O outro homem careca com uma prancheta na mão ouvia e perguntava eventualmente.
- Sabe eu penso no futuro com meu marido. - disse ela. - eu sei que Miguel vai voltar para mim e que vamos ficar juntos para a vida toda, sabe como eu conheci ele? Eu estudava na mesma escola que ele e me apaixonei, e um homem lindo, sincero e foi o primeiro homem da minha vida, eu o amo tanto e este filho vai nos dar muitas alegrias.
- Me diga Marisa. - o medico falou. - A que horas seu bebe mexeu ontem?
- Foi quando liguei para Miguel para falar que sentia saudades. Sabe doutor eu me sinto sozinho, tem minha mãe que me da carinho, tem meus irmãos mais eu quero mesmo e Miguel, me apaixonei por ele a dois anos e não sei viver sem ele.

SEGUNDO MÊS

- Oi Miguel, eu achei que você iria me visitar ontem a noite. - disse ela sentando-se ao lado dele em um banco da praça perto da casa dos dois.
- Desculpe Marisa mais eu não podia ir ver você, estava muito ocupado na funilaria e você sabe como e que ficamos quando tem muita encomenda.
- Mais e nosso filho Miguel. - o sol estava muito quente e o grande Miguel suava e as vezes tocava a camisa para desgrudar ela do corpo. - Nois vamos ser pais temos que cuidar desta criança, temos que ficar juntos sabe e melhor para as crianças que o pais fiquem...
- Olha só Marisa, eu não vou deixar você na mão, e este filho vai ter um pai isso eu te garanto mais não vamos ficar juntos, eu penso que e melhor você não me procurar mais a não ser que tenha algum problema com a criança, para falar sobre a criança - Miguel se levantou e saiu andando sem olhar para trás.
- Nois vamos ficar juntos. - disse tocando a barriga. - Quando nosso bebe nascer ele vai se comover e voltar para mim.


PRIMEIRO MÊS

- Nossa marisa e quando você contou para ele que estava gravida como ele reagiu? Perguntou uma amiga intima ao saber da gravidez de Marisa. - Vocês terminaram faz duas semanas e agora descobriu que esta gravida, me diga como se sente?
- Bem. - estavam sentados na cama no quarto de Marisa. - Mais ainda não sinto mudar nada no meu corpo ainda estou menstruando mais minha mãe disse que isso acontece mesmo as vezes, fiz o teste da farmácia ontem a noite e deu positivo, fui ao medico e deu positivo.
- E porque você esta indo no psicologo?
- E para cuidar da gravidez afinal de contas eu sou de menor e os médicos acham que agente não tem nada na cabeça. - as duas sorriram.
- Mais me diga uma coisa Marisa. - Silêncio lá fora uma chuva fina começava. - Você engravidou só para ficar com Miguel, só para ele casar com você não foi? Achou que a resposta não viria mais veio calmamente.
- Sim, eu percebi que nosso namoro estava decaindo, então comecei a sumir com as camisinhas, a agir de forma a nunca conseguimos uma, e nada, nada ate que ele terminou comigo, eu sabia com minha mãe foi assim, meu pai ficou com ela só porque meu irmão ia nascer e vejam isso estão casados a vinte anos, então senti que estava gravida.
- Como?
- Não sei eu simplesmente sabia que estava, fiz o teste de farmácia e deu positivo, e o medico confirmou.
- E o teste?
- Joguei fora. - do lado de fora um trovão cortou o céu assustando a amiga de Marisa que choraria em seu enterro alguns meses depois culpando Miguel como tantos outros pela morte da garota.

ANTES
A mulher baixa entrou no consultório enquanto o homem olhava seu prontuario, franziu a testa quando leu tudo sobre a mulher, fez sinal para que ela sentasse e começou a falar.
- Me chamo Ronaldo, o seu ginecologista esta de férias e eu vou cuidar de você hoje você fez um exame não é e eu tenho aqui o resultado, eu devo dizer que você, Marisa esta...
- Não precisa me dizer doutor eu já sei que estou gravida, alias conversei com a enfermeira e ela confirmou minha ideia, o exame de farmácia que fiz ontem deu certo e de hoje também, nossa quando meu amor souber. - disse ela apoiando o queijo na mão.
- A enfermeira disse que a senhora esta gravida? O medico ficou olhando um pouco para a mulher, e falou mais um pouco com ela, contou-lhe tudo sobre seu quadro clinico e falou-lhe a verdade mais ela pareceu não ouvir, falou mais ainda para ver se chamava atenção dela mais nada.
- Eu vou receitar alguns para você, também vai passar por um psicologo, eu fiquei sabendo que sua vida amorosa não esta tão boa assim. Olhou nos olhos dela.
- Não estava mesmo, eu e o Miguel estávamos brigando muito mais agora com o nené vamos parar de brigar, eu e ele nascemos um para o outro sabe? e vamos viver felizes com nosso filinho ou filinha. Tocou a barriga com carinho.
- Muito bem vamos cuidar de você, não se esqueça destas consultas e você vai ficar boa.
- Mais eu não estou doente doutor só estou gravida. E sorriu um risso que contagiou o medico.
- Marisa eu vou falar outra vez, você vai passar por um psicologo porque você não esta gravida tudo isso e coisa de sua cabeça, talvez por você achar que um filho possa segurar seu ex-namorado Miguel. Ela olhou dentro dos olhos do medico e por um minuto pareceu acordar daquele sonho, em fim disse.
- Acha que eu vou ter problemas de pressão ou algum tipo de problema causada pela gravidez doutor? O medico respirou fundo e anotou em seu prontuario a situação da jovem de problemas mentais, e fez o encaminhamento para o colega psicologo

Mais Alto Que a Raiva (Paulo Tobias)

É com enorme prazer que trago para este humilde blog um poema visceral que nos leva à mais profunda reflexão social, e, nas entrelinhas, à reflexão existencialista. O texto foi escrito por Paulo Tobias, grande parceiro do blog "Os Devoradores de Letras". Caríssimos leitores, sentem-se nesta farta e suntuosa mesa poética e devorem os inebriantes versos a seguir. Devoradores, uni-vos.

Hei, nós nos vendemos para o crime
alimentamos a burrice
reelejemos os devastos
mais traiçoeiros do que ratos

Hei, corrupção e a maldade
o crescimentoda cidade
a hierarquia sob o poder
entre lucifer

O caos no dominio
trocando ouro por filho
um paraiso embargado
o sangue jovem corrompido
pelo poder

Hei, mais outro dia pela sorte
a moradia na mesma ponte
desabrigados na avenida
as limosines em brasilia

Hei, os nossos filhos sem futuro
os traficantes tem o mundo
as prostitutas condenadas
o homen santo vem a caça

O caos no dominio
trocando ouro por filho
um paraiso embargado
o sangue jovem corrompido
pelo poder

Mais vultos na historia
a paz passou da hora
o sol ficou mais lento
a raiva chegou mais cedo

Hei, sobrecaidos na estrada
a pátria amada não é nada
seus deputados moribundos
a maldição do nosso mundo

Hei, mais uma fila nas esquinas
homens se matam por bebidas
os homens tolos no poder
entre lucifer

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Piratas do Vale do Silício



O Homem é o Lobo do Homem

O filme “Piratas do Vale do Silício” mostra um lado execrável e sujo dos homens: a coragem em vilipendiarem uns aos outros. Não é um mau sem um motivo aparente, é pura competição; busca por dinheiro. Steve Jobs, criador da Apple, empresa de informática, se distanciou dos conceitos moralistas ao copiar os modelos da Xerox para criar o primeiro Mac OS. Jobs sempre foi muito humano, devido aos seus defeitos. Sua genialidade, que era um dom, também era sua dor. Ele fazia o estereótipo do gênio incompreendido, devido às suas idéias avançadas para a época. Steve era seu próprio lobo, além de Bill Gates, é claro.
Gates, que hoje é um dos homens mais rico do mundo, conseguiu essa fortuna ao copiar os protótipos da Apple. O homem é o lobo do homem. A Apple roubou o projeto da Xerox, e a Microsoft roubou a Apple. A evolução no mundo da informática se deu através de roubos. A matilha humana evolui as idéias e involui a moral e a ética. Desde jovem, Jobs queria desbancar a tão poderosa IBM, pois a considerava ultrapassada. No começo da Apple, Steve tinha uma maneira particular de incentivar seus funcionários: humilhava-os. Ele possuía uma ganância muito grande de chegar ao topo, e por isso condenava seus funcionários menos eficazes, e chegava a fazer isso em voz alta, com as piores ofensas possíveis. Era o lobo uivando mais uma vez.

Apple e Microsoft

O filme retrata a trajetória da Microsoft e da Apple, o surgimento do DOS de Bill Gates (ele inventara que tinha um DOS para a IBM, quando na realidade queria ganhar tempo para tentar comprar um já elaborado e modificá-lo) e a história de duas forças propulsoras da informática: Steve Jobs e Bill Gates. Mas o filme dá ênfase no sentimento de vingança, de desespero, de fraqueza humana e de ganância. Gates se alia à IBM para tentar desbancar o império de Jobs, que se torna uma celebridade arrogante e sem escrúpulos da noite pro dia. Engraçado é que foi Bill Gates quem elaborou a linguagem de programação para Jobs. Gates foi simplesmente ignorado por Jobs, o que aumentou em muito o seu desejo de vingança. Gates rouba o projeto do primeiro computador pessoal elaborado pela Apple: o Macintosh.
Ao final do filme, a Microsoft compra parte da Apple, e Bill Gates desbanca Jobs, concluindo assim sua vingança. Mas eles aliam-se em prol da tecnologia e formam uma poderosa aliança. Os lobos unem-se em prol de uma causa. A Apple demite seu criador. Porém, por ironia do destino, Jobs é contratado pela Apple como consultor para salvá-la da falência. E ele consegue. Enquanto isso Gates desenvolve o Windows e revoluciona o mercado.
Regenerado, Gates hoje movimenta projetos filantrópicos, em especial nas pesquisas sobre a AIDS e outras doenças que atingem o terceiro mundo. Em suma, O homem é o lobo do homem, mas se todos se unirem, o homem pode ser a formiga do homem, pois a formiga, apesar de pequena, tem uma das sociedades mais organizadas e justas do reino animal, enquanto que na sociedade humana temos lobos e escorpiões também. Escorpiões são canibais, ou seja, comem de sua própria espécie. O homem não é tão diferente dos escorpiões. Infelizmente.

A Genialidade (Sempre) Tem Seu Preço


Algumas mentes inquietas como Vincent Van Gogh, Virginia Woolf, Isaac Newton e Fernando Pessoa eram bipolares, ou seja, possuíam transtorno bipolar do humor. Esse distúrbio psicológico é caracterizado pela acentuação extrema do humor: o bipolar vive em constante euforia e depressão. Interessante notar que muitos bipolares possuem elevada imaginação e criatividade. Foi pensando nisso que escrevi a crônica "A Genialidade (Sempre) Tem Seu Preço". Ei-lo:

Dois irmãos decidiram se tornar escritores. Eram tão unidos que o pai, um famoso intelectual, apelidou o mais velho, que tinha 14 anos, de Prometeu, e o mais novo, de 12 anos, de Epimeteu, aludindo aos irmãos da mitologia grega. Saídos da adolescência e recém-chegados à fase adulta, resolveram discutir sobre o desenvolvimento que tiveram como escritores.
Logo no início do colóquio, Prometeu mostrou-se indignado:
— Não entendo, eu escrevo tanto quanto você, Epimeteu, e papai disse, sem eufemismo, que você é um prolífico gênio literário e eu sou um escritor mediano.
— Eu tenho transtorno bipolar do humor - disse Epimeteu, com uma calma que beirava à lassidão.
Prometeu franziu o cenho:
— Epimeteu, assim não vale, você está jogando sujo, trapaceiro, celerado! Vou contar pro papai...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Perda de Sentido


Não entendo a hemorragia cerebral
De pensarem que somos seres especiais
Caixa craniana
Pulmões
Carne maleável
A complacência senil
O impulso adolescente
Órgãos escravos das circunstâncias
Escritor arraigado em fluxos de consciência
Desejos animais, vulgo sexuais
Centelhas de esperança
Frêmitos de desespero
Olhos latentes de alcoolismo
Corpo cansado
Vista cansada
O barulho do bar
O marulho do mar
A vida esquecida
Humanidade empedernida
O sono como prefácio da morte
Má-fé confundida com sorte
O empirismo
A metafísica
Epistemologia
Onde está o sentido?
Não há sentido
Quando procuramos um sentido para a vida
Ela perde o sentido...

domingo, 25 de abril de 2010

O Pessimismo Como Forma de Enxergar o Mundo


Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão influenciado por Arthur Schopenhauer, era tão pessimista quanto.

Arthur Schopenhauer (1778-1860), filósofo alemão conhecido pelo extremo pessimismo.

É certo que vivemos num mundo onde, cada dia, fica mais difícil (para não dizer impossível) acreditar que tudo dará certo. Muitos corroboram que o otimista é nada mais que um pessimista mal informado. Schopenhauer e Nietzsche são símbolos do pensamento pessimista. Esses dois filósofos alcançavam o cerne do mal-estar que afligia (e ainda aflige) a humanidade. Schopenhauer era conhecido, sobretudo, pelo seu pessimismo em relação às mulheres. Tinha grande dificuldade em relacionar-se com elas. Quando, em um passeio num barco com uma jovem, deu-lha uma maçã, ela jogou no lago onde estavam. Consta dos arquivos sobre a vida do filósofo que a moça pensara: "Fingi que guardei no bolso, mas joguei a maçã no lago, pois não comeria algo que viesse das mãos nojentas do velho Schopenhauer". Daí, muitos estudiosos afirmarem que o pessimismo dele em relação às mulheres provinha de suas frustrações. Já Nietzsche era o verdadeiro "anticristo" (não a imagem da besta, mas o anticristo, que na Alemanha significa "anticristão"). Ele disse: "Deus está morto". Solitário, intropesctivo e com uma língua ferina, Nietzsche estava distante de ser humilde (vide sua autobiografia "Ecce Homo"). Tentou suicídio por várias vezes e no final de sua vida, enlouqueceu, esvaido-se na ilusão de que ora era Cristo ora era Dionísio (o deus do vinho e dos excessos). Quando comparados, nota-se algo em comum nesses homens: infelicidade. Muitas dizem que o pessimismo é nada mais que uma carapaça ou uma desculpa de homens incapazes de alçarem vôo aos seus sonhos. Outros conferem ao pessimismo o pensamento contíguo ao pensamento realista. Mas ao analisar o mundo como um todo, uma processo contínuo de desgraças (doenças, guerras, fome, depressão) não é possível tirar os créditos do pessimista. Certas coisas sempre darão erradas, nunca mudarão para melhor. Pois então, sendo frustrados ou não, os dois filósofos alemães tinham razão. Ou melhor: eles ainda têm.

domingo, 18 de abril de 2010

O Homem Já Foi o Centro do Universo


A transição da Idade Média para a Idade Moderna deu-se através do esforço dos humanistas que difundiram os ideais renascentistas. Homens ligados à filosofia, ciência e literatura acenderam as luzes antes apagadas pelo período que reinou mil anos na Europa: a "Idade das Trevas". Antes, Deus, venerado desmedidamente, era o centro do universo. Com o Renascimento, o homem passou a ocupar o cerne das preocupações. Para Nicolau Maquiavel, o homem do Renascimento deveria trazer para si a Virtù, expressão que confere o gosto pela liberdade e abandona as amarras provindas da afirmação de que Deus era o "dono" do destino dos homens.
A universalização da perspectiva renascentista partiu da Itália e depois se expandiu para outros países. Houve então uma remodelação na cultura européia, com o advento das características que perfaziam a trajetória dos ideais renascentistas, tais como: hedonismo, naturalismo, classicismo, racionalismo, e principalmente, antropocentrismo (que desbancou o teocentrismo que aprisionava a criatividade humana e a vontade do homem em conhecer por si próprio, o desejo de se imortalizar através das artes e das ciências).
Leonardo da Vinci foi o símbolo da arte nesse período. Ao desenhar o homem vitruviano (veja desenho acima), o gênio personificou o espírito renascentista e sobretudo, o antropocentrismo. O hedonismo teve como representantes Bocaccio, Rabelais, e o mais fecundo dos que cultuavam o prazer, o corpo e a beleza: Shakespeare. Na ciência, houve uma verdadeira revolução com a teoria heliocêtrica de Nicolau Copérnico. O cientista polonês opôs-se a teoria geocêntrica de Ptolomeu, e afirmou que os planetas giravam em torno do Sol, e não da Terra. Temendo a hostilidade da Igreja Romana, Copérnico não divulgou sua teoria de imediato, que só foi apresentada ao mundo no século XVI.
Um homem atarracado, de cabelo ruivo e personalidade inquietante, cujo nome era Galileu Galileu, comprovou a teoria heliocêntrica de Copérnico, além de ter descoberto os anéis de Saturno, os satélites de Júpiter e as manchas do Sol. Kepler também se interessou pela teoria de Copérnico e através de um longo estudo, concluiu que os planetas de fato se movimentam em torno do Sol, mas o fazem em órbita elíptica, e não circular.
O Renascimento foi um período onde a humanidade progrediu através da curiosidade, da sede de conhecimento e do bem-estar coletivo. É uma pena que o homem, que já foi um dia o centro do universo, esteja a destruir os ideais que o fizeram além de simples carne e ossos ambulantes (e, destarte, destruir a si próprio). Veja, no desenho abaixo, no que se transformou o homem...

sábado, 17 de abril de 2010

O Absurdo da Existência


Albert Camus, escritor francês nascido na Argélia e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1957, insere o absurdo da existência na obra que o consagrou: “O Estrangeiro”. Mersault, o personagem central e narrador do romance, recebe a notícia da morte de sua mãe logo no primeiro parágrafo do livro: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei”. A partir daí o que se vê é o limiar da crise existencial: Mersault nada sente no funeral de sua mãe, comete um homicídio com uma frieza incalculável, é preso e levado a julgamento. No tribunal, o que assusta a todos não é o fato de Mersault ter matado um homem a sangue-frio, mas sim sua pertinente insensibilidade diante da perda da mãe. Quando finalmente condenado, continua a agir como se a vida não fizesse sentido algum, e isso fica evidente quando Mersault, na prisão, encontra-se com o capelão (padre) e narra: “Disse-lhe que não sabia o que era um pecado. Tinham-me apenas dito que eu era um culpado”. A filosofia existencialista de Camus pode parecer cruel aos leitores, mas torna-se suportável quando aceita-se o absurdo como a existência em si.

"O diretor olhou então para as pontas dos sapatos e disse que eu não quisera ver mamãe, que não chorara uma única vez e que partira logo depois do enterro, sem me recolher junto ao túmulo. Ainda outra coisa o surpreendera: a agência funerária lhe dissera que eu não sabia a idade de mamãe."
(Trecho do livro)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Cientistas Querem "Brincar de Deus"


O acelerador de partículas LHC, a maior máquina do planeta, fomenta aos cientistas as possíveis condições que deram origem ao universo. Os envolvidos no projeto utilizam a cosmologia e a física quântica para estudarem partículas extremamente pequenas - menores que os átomos - e trabalharem com o acelerador. O LHC está localizado entre a França e a Suiça, em um túnel de 27 quilômetros de extensão. Para que o meio científico obtenha êxito, seria primordial que houvesse o bóson de Higgs, conhecido também como "partícula de Deus". O problema é que tal partícula existe apenas na teoria desenvolvida pelo físico inglês Petter Higgs. Saiba mais.

Conheça o Homem que Criou um Mundo Nada Admirável


"Uma hora mais tarde, no vestiário, Fanny protestava energicamente:
— Mas é um absurdo uma pessoa deixar-se chegar a esse estado. Simplesmente absurdo — repetiu. E a propósito de quê? De um homem, de um homem!
— Mas é o homem que eu quero.
— Como se não houvesse milhões de outros homens pelo mundo.
— Mas eu não quero esses.
— Como podes tu sabê-los antes de teres experimentado?
— Já experimentei.
— Mas quantos — perguntou Fanny, encolhendo os ombros desdenhosamente. — Um, dois?
— Dúzias. Mas — acrescentou, meneando a cabeça — isso não me serviu de nada.
— Ora! É preciso insistir — sentenciou Fanny. Mas era evidente que a sua confiança na receita dada estava abalada. — Nada se pode alcançar sem perseverança.
— Mas enquanto espero...
— Não pense nisso.
— Não posso deixar de pensar.
— Então toma soma."

(Trecho do livro "Admirável Mundo Novo").

O Criador

O prolífico escritor Aldous Huxley foi um dos maiores nomes da literatura mundial. Oriundo de uma família de intelectuais ingleses, Huxley não tardou a ingressar na literatura, ao lançar, em 1921, a obra "Crome Yellow". Onze anos depois foi publicado o livro que se tornou o magnum opus do romancista: "Admirável Mundo Novo". Huxley narra nessa ficção um futuro onde as pessoas são "fabricadas" em um centro de incubação, com casta definida (Alfa, Beta ou Gama) e educadas sexualmente desde a tenra idade. Quando surpreendidos por sentimentos como o amor, por exemplo, os habitantes imediatamente recorrem a uma droga conhecida como "soma", que inibe tais sentimentos. Para conhecer melhor o autor desse mundo nada admirável, leia aqui uma das mais reveladoras entrevistas concedidas por ele. Faça o download do livro.

“Jamais obtive muita coisa com a leitura de Ulysses. Penso que é um livro extraordinário, mas uma parte muito grande do mesmo consiste em demonstrações um tanto extensas de como não se deve escrever um romance.”
(Aldous Huxley, quando questionado se fora influenciado pelo também escritor James Joyce).

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Google Buzz: Será que Dessa Vez o Google Acerta?


O Google lançou um novo serviço de integração social: o Google Buzz. Para utilizá-lo, basta ter uma conta no Gmail, onde ele estará em uma pasta logo abaixo da caixa de entrada. O Google pretende dinamizar o processo social entre os usuários utilizando artifícios presentes no Twitter,Facebook e outras redes sociais. Será possível compartilhar fotos, links e mensagens, ou seja, criar um segmento para discussões. O usuário pode seguir e ser seguido pelo seus contatos, onde as postagens estarão à mostra para todos. Ainda é muito cedo para ter uma opinião concreta sobre o serviço, devido ao sucesso que o Twitter e o Facebook ainda fazem. O jeito é esperar para ver se, ao contrário do Google Wave, o Google Buzz consegue emplacar de vez.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os Becos Imundos de uma Senhorita Parisiense


Marie atravessou uma daquelas belas ruas de Paris. Olhou para os lados e percebeu que estava sozinha numa das ruas mais movimentadas da cidade-luz. "Que estranho", pensou. Perscrutou nas esquinas para ver se havia alguém. Sua busca não dera resultados. Irrompeu, de súbito, um mendigo, cuja mão enrugada pela sujeira bateu no ombro direito da senhorita. Ela, obviamente assustada e com asco provocado pela aparência grotesca do mendigo, perguntou:
- Ei, por que a cidade está tão vazia?
- Hoje é dia de as pessoas ficarem em casa - respondeu o mendigo.
- Mas por que elas estão em casa? Digo, não há nada de errado em ficar em casa, mas quando todo mundo está, é porque algo está errado...
- Não há nada de errado, elas apenas querem ficar em casa.
Marie decidiu abandonar o colóquio um tanto quanto infrutífero e decidiu ir para o seu apartamento. Passaram-se alguns dias, e a população continuava enclaurasurada... Marie então sentiu seu corpo estremecer, seu corpo desejava o mendigo que lhe abordara naquela fatídico dia. Foi então à procura dele, e apesar das vestes surradas, puídas, o mendigo tinha um rosto consideravelmente bonito, a contar pelos grandes olhos azuis como o lápis-lazúli.
- Você é o único que anda pelas ruas, e eu sinto necessidade de um homem colado em meu corpo - disse Marie, com uma face enrubescida porém sedutora.
O mendigo se posicionou.
-Há dez anos que não tenho contatos íntimos com uma fêmea, minha senhora, e prefiro que continue assim.
-Mas por quê? - perguntou Marie, espantada e humilhada por ter seu belo corpo recusado por um ser cujo traje puído não valia sua miserável existência.
-A senhorita me deseja por necessidade, e se ao menos fosse por compaixão eu entenderia. Aprendi a viver comendo lixo, e me acostumei. Acostumei-me também à abstinência sexual. Por favor, não venha arrancar-me o bem mais valioso que possuo...
- E o que é tão valioso para você?
- O meu limite de sobrevivência. Se eu te tocar uma vez, posso querer tocar mais vezes, e quando a senhorita não mais me quiser, eu sofrerei como sofre um velho decrépito e leproso
Marie se foi. Passou-se mais algum tempo e ela decidiu viver reclusa (Marie saía apenas para trabalhar) enquanto os moradores de Paris voltavam, gradualmente, a agitar a cidade. Ela aprendeu a viver com pouco, e quando decidiu sair do apartamento, mal trajada, com cabelos desgrenhados e uma aparência perto de ser deplorável, avistou o mendigo sob o bruxulear dos postes altos da cidade, e este lhe disse:
- Agora sim, posso lhe tocar.
Desde então, Marie começou a se encontrar com o mendigo nos becos imundos, passando inclusive a trocar as refinadas refeições que seu bom emprego sempre lhe proporcionara pelos banquetes que saíam herméticos das latas de lixo.

sábado, 10 de abril de 2010

Adormecido no Vale (Poema de Arthur Rimbaud)

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Proeza de MisteryGuitarMan


É possível fazer música com um microondas, três panelas, uma cadeira estofada e um violão? Joe Penna, ou "MisteryGuitarMan", como é conhecido no Youtube, prova no vídeo "Looping Around" que sim. Ele é brasileiro e mora atualmente em Los Angeles, California. Enquanto estudante de medicina, produzia vídeos on-line em seu tempo livre. Em 2009, seu vídeo "Guitar:Impossible", produzido pela técnica de "stop motion", foi considerado um dos melhores vídeos do ano.

Geléia da Vovó Pearl e Suicído de Jeremy


Peal Jam é a única banda sobrevivente do movimento grunge, que eclodiu em Seattle, no início dos anos 90. Resistiu às intempéries do mercado e ao próprio sucesso, marcado definitivamente pelo primeiro álbum, "Ten". O álbum de estréia do grupo trouxe o frescor de uma nova ideologia - há quem diga que os Pearl Jam e outras bandas de Seattle destronaram o hard rock -, o vozeirão de Eddie Vedder, guitarras uníssonas, letras coléricas e melancólicas. O clipe da música "Jeremy", que retrata o suicídio de um garoto em plena sala de aula, recebeu em 1993 o prêmio "MTV Video Music Awards" como o melhor clipe do ano. Confiram!

Criatividade e Técnica


O vídeo "T-SHIRT WAR!! (stop-motion music video)" é um das obras-primas que há no Youtube. Camisas animadas divertem o público através de muita imaginação. A produção do vídeo foi possível graças a técnica de animação conhecida como "stop motion". A técnica consiste em realizar movimentos quadro a quadro através de fotografias. A título de ilustração, o sucesso "A Fuga das Galinhas" foi produzida com os recursos dessa técnica. O vídeo foi dirigido e editado pelo brasileiro Joe Penna, o famoso "MisteryGuitarMan", uma das sensações do Youtube, que utiliza largamente o "stop motion". Vale a pena assistir.

Gripe Suína: Paranóia e Conspiração


O documentário "Operação Pandemia" produzido pelo argentino Julián Alterini, desmascara o processo manipulador que há por trás da gripe suína. Alterini compara o número de mortes entre as gripe suína e a gripe comum, e chega à seguinte conclusão: a morte por gripe comum é homericamente maior que a "gripe porcina", que segundo ele é "a gripe da moda", por estar constantamente nos meios de comunicação. Ao enxergar nas entrelinhas, é possível conjeturar uma conspiração. Há dois motivos para desconfiança: a gripe suína conquistou a atenção da mídia e a companhia bio farmacêutica "Gilead Science" possui o monopólio do medicamento "Tamiflu", oportunamente recomendado pela Organizaçao Mundial de Saúde. Segundo Alterini, os meios de comunicação instauraram a paranóia no planeta para que a companhia obtesse lucro. Ao assistir o documentário, fica realmente evidente o "ar de conspiração".

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Minh'alma no Cimo da Cratera Lunar


Ah, os cordiais elementais
Avistaram-me amarulento
Nos orvalhos saturnais
Correndo contra o tempo

Antanho era a vida
Mas não é morte em vosso colóquio
Era estrada comprida
Mas é findo o ponteiro do relógio

Mas não morri
Minh'alma alumbrada e não mais vulgar
Reside bem ali
No cimo da cratera lunar

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O Homem-Vegetal, a Luz e o Ponto Imaginário


Lá estava ele, sentado no mesmo lugar de sempre, naquele velho banco, naquele velho jardim de sua pequena casa, com aqueles mesmos trejeitos. Estava sempre com um olhar fixo em um ponto imaginário — ponto esse que se encontrava próximo do sol. O que passava pela mente daquele homem? À primeira vista, ele era a imagem do eremita urbano. Nunca fora visto bem arrumado, e quase sempre andava sozinho. Pouquíssimos eram seus contatos humanos. Não tinha mulher, não tinha filhos, não tinha visita de parentes próximos, enfim... Ao que poderia parecer, a única companhia que tinha, além dele mesmo, era seus livros.
Quando não estava praticando o hábito da leitura no quintal de sua casa — quintal esse muito bonito por sinal, com um belo jardim — estava olhando para o maldito ponto fixo. O que era tão interessante naquele ponto? Difícil entender, não é mesmo? Alguns vizinhos apelidaram-no de “O Homem-Vegetal”. Outro detalhe: não trabalhava... Ou era rico ou era um aposentado por invalidez, pois apesar da aparência de idade já avançada, não parecia ter idade para aposentar. Todos da cidade davam-lhe algo próximo a quarenta e cinco anos. Era um homem simples, de poucas palavras. Porém, demonstrava-se muito simpático com os mesmos vizinhos que tinham como referência dele um vegetal. Sempre dava um “bom dia”, uma “boa tarde” e uma “boa noite” de forma prestativa, com sorriso bem alegre e bonito, apesar de seus dentes amarelados pelo constante uso — e abuso — de café. Como bebia café aquele homem!
Esse sujeito lembrava os personagens do universo de Kafka. Ele era tão desumano em suas atitudes humanas... Sua obsessão pelo ponto imaginário era algo surreal. Certa vez, ele estava deitado sobre as gramas do jardim, com os olhos fechados, em estado catatônico. As suas mãos estavam erguidas, direcionadas ao sol, como se estivesse realizando um processo de fotossíntese, tão comum nos vegetais. A luz do sol parecia “alimentá-lo". Seu longo cabelo espalhava-se à grama, e sua longa barba dava certa impressão profética nele. Nos longos momentos de catarse, ele começava a proferir frases desconexas, sem sentido. Certa vez, dissera que tinha uma idade secular, e que estava esperando o momento certo para se libertar das correntes, também seculares. Eu observava tudo isso do segundo andar de minha casa. Ele era meu vizinho — ele não mora mais na cidade.
Quando me mudei para a casa onde hoje moro, fui bem recebido por ele. Apesar das poucas palavras, demonstrou-se bastante simpático. Com o passar do tempo, tornou-se fechado. Às vezes eu o via na rua e o cumprimentava, e ele já nem lembrava meu nome. Então pensei: “Será que ele usa drogas?”. Era possível, pois ele próprio dava sinais de minha suspeita. Certa vez, eu o vi conversando com uma camélia, um girassol e um lírio cor-de-rosa. É sério! Não bastasse a loucura de falar sozinho, ainda nomeava as flores. A camélia, o girassol e o lírio cor-de-rosa chamavam-se, respectivamente: Lucy, Sky e Diamond. Após anos ouvindo música dos mais variados estilos, lembrei-me de uma música chamada Lucy in the Sky with Diamonds, dos The Beatles. As inicias dessa música formam a sigla LSD, o tão famoso dietilamida do ácido lisérgico.
Conhecer esse sujeito foi o fim total de minha inocência. Como era de praxe, a minha santa “virgindade mental” acerca das loucuras do mundo talvez fosse resultado de uma vida trancafiada em meu quarto. E por muitos instantes, eu me senti como aquele homem. Eu simplesmente detestava pensar dessa maneira, mas era inevitável. Eu próprio já falei sozinho. Mas equiparar-se àquela criatura era o fim da picada. Meus pensamentos caminhavam como verdadeiros cavalos de tróia. Eles me enganavam. Eu nada tinha a ver com aquele doidivanas. Talvez a minha inocência fosse provocada pela falta de atenção ao mundo que me cercava.
Eu começava a prestar atenção naquele sujeito. Uma atenção moderada, algo que passasse longe da obsessão. Subjetivamente falando, eu achava que as ações humanas eram como defesas naturais; cada gesto assemelhava-se a um anticorpo contra o cotidiano da vida. Engraçado, a cada dia eu começava a pensar mais e mais. Eflúvios pensamentos; repentinos. E qualquer momento que fosse, lá estava aquele homem, olhando para aquele velho ponto fixo, próximo do sol. Foi nessa loucura que eu percebi: o ser humano é tão simples em sua complexidade... Talvez fosse apenas um momento de lazer. Cada um passa o tempo da maneira que bem entender.
Eu próprio não tinha muitos contatos humanos, como ele também não tinha. Mas nada que me tornasse um eremita como ele. Ele era o zero, eu era o zero vírgula cinco. As intrigas entre a realidade normal e a realidade distorcida começaram a perturbar minha mente. E lá estava ele, novamente, olhando para aquele maldito ponto fixo. Eu estava ficando irritado. Antigamente, eu nem me importava, mas algo começava a me perturbar naquele vegetal em forma de carne e osso estáticos. Eu o observava, mas ele não me observava. Era uma observação unilateral. De minha parte, um universo observatório. Bastavam as observações!
Eu sentia que era hora de ocupar meu tempo e fazer algo de útil. Esquecer aquele vegetal prestes a queimar de tanta luz, e a formar um quadro do pontilhismo de tantos pontos fixos e imaginários. Mas aquilo me intrigava, e a curiosidade de saber o que se passava na mente daquele homem aumentava a cada dia. A agonia da curiosidade parecia-se muito com a minha curiosidade de conhecer uma mulher, digamos, de forma bem “quente”, quando eu tinha dezesseis anos. Engraçado, nunca fui possuidor de grande beleza física, por isso adiantei muitos “encontros quentes” com uma mulher do jeito mais fácil, se é que me compreendem. Minha vida sempre foi muito superficial, como um vegetal, e não como um ser humano. E a partir dessa superficialidade foi que comecei a me comparar com o Homem-Vegetal. Entrei em desespero. As ondas elétricas do meu cérebro transformaram-se em verdadeiros trovões delirantes.
Esse homem parecia querer abrir minha mente. Um vegetal com a missão de mostrar algo que eu nunca tive coragem de ver, muito menos fazer. Seria libertinagem pensar dessa maneira? Eu estava começando a andar pelo caminho dos excessos, para chegar ao palácio da sabedoria, da forma que William Blake pensava. Mas o que haveria de tão sábio em olhar fixamente para um ponto imaginário? Aparentemente não muito. Mas algo me dizia que eu começaria a enxergar uma lucidez naquele vegetal. Um distúrbio mental pode causar um efeito devastador no corpo, como as doenças psicossomáticas, por exemplo. Mas quando terminava de olhar o ponto imaginário, com o fim do pôr-do-sol, ele saía do “transe” e aparentava uma alegria muito forte. Logo depois, saía para caminhar, e quando voltava à noite, escrevia.
Não era nenhum escritor famoso, pois eu nunca o vira nas revistas, na televisão, enfim... O que será que ele tanto escrevia? Eu não sabia, e nem era da minha conta. Mas que imã mental poderia ser esse? Por que se importar com um vegetal? Para falar a verdade, eu me importava mais com aquele homem do que comigo mesmo. Qual seria o segredo que ele tanto escondia? Seu estilo de vida era tão peculiar quanto o meu. Eu simplesmente esperava a vida ser aquiescida. E por todo esse tempo eu nunca fiz algo relevante, que contribuísse com minha elevação espiritual. Sempre fui otimista. É como dizem por aí: “Um otimista é um pessimista mal informado”. Sempre caminhei descalço nos vidros despedaçados pela minha inocência.
Quando chovia ele não saía da casa, por causa da ausência do sol. Mas depois da chuva, era a vez do arco-íris. Ele olhava um ponto imaginário próximo do arco-íris. Quando o sol aparecia, ele desviava seu olhar para a estrela mais próxima da Terra. E lembro-me de um poema que ele declamou para as flores de seu belíssimo jardim, cheio de lirismos:

Belas são vocês, flores minhas
Feitas com o amor da mãe-terra
Amanhecem com o meu Sol (alvorada)
E morrem com o meu crepúsculo (morrer do Sol)

Bela também é a minha estrela
E apesar de tanto tempo
Eu gorjeio como da primeira vez
E sumariamente as acalento

Eu sou um historiador secular
Não faço comentários sobre os fatos
Eu simplesmente os vivo
E os descrevo nas paredes do meu quarto

Belas são vocês, flores minhas
Cuja semelhança com o ser humano é o Sol
Vocês precisam dele, mas possuem muita sorte
Não precisam ser humanas para provar do Sol

O maior pecado da humanidade é ser humana
Na condição de vis almas penadas
Da ganância e do pouco tempo que lhes resta
Eu dispenso a Humanidade, a anciã que não se cala

Eu carreguei os céus por muito tempo
E nunca mais vi minhas Plêiades em formas vistosas
Mas as tenho em meu jardim
São vocês, minhas flores tão formosas

Apesar de achá-lo “diferente”, foi uma das coisas mais bonitas que eu escutara. Ele era um poeta! Simplesmente fez meu queixo cair. Antes eu sentia indiferença, mas passei a sentir um pouco de inveja. Quanta criatividade. E quanta loucura. Eu até tinha certa veia poética, mas comparado àquele camarada eu tinha de aprender a ler e escrever novamente. As palavras direcionadas às flores me fizeram refletir sobre a aparente felicidade daquele homem. Seria esse o segredo da felicidade? Viver de maneira simples, sem a influência do consumismo moderno? Um de meus grandes ídolos, Mahatma Ghandi, alentava-me admiração; a mesma que eu começava a sentir em meu estranho vizinho. A minha mente estava em grande odisséia. Eu não pensava em nada a não ser seguir a “doutrina” do Homem-Vegetal. Era isso, precisava meditar, transformar-me num vegetal, e absorver os raios solares como uma planta. Infelizmente, o ambiente de minha casa nunca foi, digamos... Pacífico. Era difícil me concentrar.
Minha família nunca teve cérebro. Eram todos afoitos, corriam atrás de um materialismo do qual eles não podiam arcar. Complicado viver assim. Eu sempre fui o mais inteligente, no sentido de não sucumbir às armadilhas da vida. Por outro lado, deixei de aproveitar certas ocasiões. Que festa que nada, em época de natal eu aproveitava as férias escolares para desenhar, ler, enfim... E eles também me chamavam de estranho. E com essa lembrança foi que eu comecei a me perguntar: “Quem sou eu para julgar uma pessoa que se parece tanto comigo?”. Eu começava a deixar de observar o vegetal. Gradualmente retomava minha vida. Mas durante o processo não consegui parar de pensar nele. Comecei a sentir um elo entre nós. Era algo que prendia ou simplesmente ligava.
Esse elo tornou-se aparente num dia que em minha vontade de conhecê-lo melhor — frente a frente — transpareceu repentinamente. Lá estava eu, numa bela manhã, voltando da padaria, quando vi o portão da casa dele aberto. As chamas de minha curiosidade acenderam numa fração de segundos, tanto que os cientistas teriam de rever o césio-133, e medir o tempo de outra forma. “Entrar ou não entrar, eis a questão”... Entrei. Shakespeare, você bem que tentou, não foi dessa vez. E como numa resposta imediata à minha entrada, meu corpo sentiu-se leve. Que paz de espírito... Os cânticos dos pássaros e a beleza das flores era algo tão... Arcádico. Fugere Urbem foi a frase que surgiu em minha mente. A exaltação à natureza naquele lugar era quase uma seita. À primeira vista, ele não estava no jardim. Deu-me vontade de sentar naquele banco. Minhas pernas involuntariamente estavam caminhando para lá, mas quando cheguei à metade do jardim, voltei. Não era de minha índole invadir a privacidade alheia, e se o fizesse, tornar-me-ia mais humano ao praticar um ato que pudesse gerar conseqüências não muito agradáveis.
No dia seguinte, um belo sábado de sol, acordei com o som de um violão. O “vegetal” estava tocando uma bela música erudita. Composição dele talvez, pois eu nunca havia escutado aquelas melodias e harmonias. Ele tocava de forma feérica. Seus acordes pareciam querer alcançar os ouvidos dos deuses. Um detalhe que não cheira a novidade: ele estava tocando com o olhar fixo num ponto imaginário próximo do sol. O “vegetal” estava inspirado. Eu não poderia mais achá-lo estranho. Muito pelo contrário: eu estava começando a achar estranho todo e qualquer Homo Sapiens Sapiens que não apreciasse a arte daquela maneira. Haja vista que os seres humanos são capazes de fazer arte, não sei por que não fazem. Talvez muitos não sabem, mas para fazer arte não é preciso nascer com o dom, o único dom que existe é a persistência de querer dominá-la por completo.
Morram, seres ignóbeis! Comprem seus cigarros ao invés de um livro, comprem suas vaidades ao invés de uma réplica de uma obra impressionista! Há muito tempo eu não pensava dessa maneira, mas o homem vegetal despertou em mim a vontade de viver de forma mais espiritual; menos urbana, capitalista. Para viver como um vegetal, bastaria sê-lo. Era tão simples. E além do mais, eu estava inspirado. Deixei de estranhá-lo e passei a admirá-lo. Eu estava começando a despertar uma espécie de sexto sentido. Idem, um terceiro olho abria entre as minhas sobrancelhas. A velha tradição hinduísta tomava conta de mim. Eu precisava conhecê-lo pessoalmente. Mas antes precisava criar coragem. Como era de praxe, eu não tinha essa coragem. A minha timidez acoplada a minha desconfiança gerava certo bloqueio mental. Não estou me contradizendo, a minha mente sempre teve a audácia e a coragem suficientes para pensar em coisas que as pessoas tinham medo ou preconceito. O problema era expor tais pensamentos.
Eis que num belo dia de sol — geralmente os sábados são bem ensolarados, e foi justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
— Quando me mudei para cá, nos conhecemos logo nos primeiros instantes de minha chegada, lembra? — perguntei.
— Lembro.
—Você inclusive me ajudou na mudança, lembra?
— Claramente.
— Eu lhe falei meu nome...
— Falou.
— E no dia seguinte você já não sabia quem eu era e perguntou há quanto tempo eu morava aqui, sendo que era apenas meu segundo dia na casa.
— Oh, Sim. Agora sou eu quem pede desculpas. É por causa das minhas lembranças...
Que cara esquisito. Eu estava com uma sensação de que iria ouvir coisas sem nexo algum. Ele continuava:
— Caro observador, quando vim parar aqui, perdi um pouco de minha memória...
— E onde você morava?
— Na mítica Atlântida... Eu era rei de lá...
Eu já desconfiava de uma resposta dessas. Advindo de um louco então... Mas já que estava ali, indaguei:
— Pelo que sei a existência desse lugar não é tida como real — como se eu estivesse levando o diálogo a sério.
— Você já morou lá, não lembra?
— Não me venha com sofismas, por favor...
— É pura verdade. Você sabe quem eu sou?
— Um maluco?
— Eu sou seu irmão... Eu sou Atlas!
Loucura total. Eu estava quase indo embora. O ser que eu começava a admirar era apenas mais um a quem faltava parafusos na cabeça...
— Ok, “irmão” — em tom de ironia —, continue.
— Quando eu ataquei o Olimpo para alcançar o poder supremo, juntamente com outros de minha natureza...
— Que natureza?
— Eu era da geração dos seres que herdaram a fúria da natureza. Um monstro selvagem, por assim dizer... Um titã!
— Prossiga!
— Bem, Zeus acabou por derrotar-nos. E como castigo, lançou todos os outros em Tártaro...
— Tártaro?
— Sim, a região mais profunda do Hades. Alguns estão lá até hoje, e outros...
— E por que estamos aqui? — como se eu acreditasse em suas palavras...
— Para mim, ele me reservou um castigo especial: sustentar o globo terrestre sobre meus ombros. Mas eu fui imprudente. Como Atlântida era um lindo continente, eu o arranquei do globo e tentei fugir para reinar sobre ele novamente... Em vão! Zeus me achou e me castigou da pior maneira possível...
— Como?
— Transformou-me num humano.
Eu não sabia se ria ou se chorava. Só faltava ele me dizer que uma águia gigante comia meu fígado todos os dias...
— E qual foi o meu castigo, “titã”?
— Para você foi contemplar uma vida entediante e superficial. Você também se transformou em humano. Como eu estava dizendo, alguns estão em Hades até hoje, enquanto outros estão espalhados por aí, cada qual sofrendo com uma mazela humana. Eu fiquei com o vício, você com uma vida monótona e sem perspectiva.
— Você ficou com o vício... Talvez isso explique seu “fetiche” por café — argumentei de forma mais irônica.
Ele me olhou com descrença.
— Você não acredita em mim, não é? — perguntou.
— Você até adivinhou que minha vida é superficial... Isso é algo inegável, mas...
— Mas o quê? Você próprio falou que sente um elo entre nós...
— Retiro o que disse, talvez seja coisa da minha cabeça...
— Você acha que sou louco?
— Claro que não, uma pessoa que fala com as flores do jardim e ainda põe nome nelas!
— Não se assuste com isso, é que passei pela geração hippie e... Bem, você já ouviu Lucy in the Sky of Diamonds?
— Você se inspirou nessa música para nomear três flores...
— Sim, você observou bem. Como eu disse, eu estive em Woodstock, e como sou escravo do vício, essa, tão-só, foi uma época bem propícia para que eu conhecesse algumas...
— Drogas?
— Prefiro chamar de “instrumentos para a percepção”.
Eu senti que o diálogo estava tomando ares de revelação... Questionei:
— Quantos anos você tem?
— Não sei ao certo... Muitos séculos...
— Sei...
— Você não acredita em minhas palavras!
— Claro que acredito — falei isso para não contrariá-lo, pois nunca podemos discordar de um louco.
— Logo você, um rebento das emoções humanas. Eu lhe direi, meu caro observador: se está desconfiando de minha sanidade mental, devia pensar que não veio parar aqui por acaso. O que somos nós senão veementes carapaças de uma punição divina?
— Você tem um ego grande demais; esse é seu problema. Acha que é um titã porque não age como uma pessoa normal.
— Claro que eu sou uma pessoa normal...
— Prove!
— Sou um pedaço de carne e um amontoado de ossos ambulantes cuja existência não passa de complexas simplicidades. Eu amo, eu odeio, eu tenho fome, frio e sede; sou suscetível a milhares e milhares de doenças...
— Você é um misantropo...
— E sua vida é tão monótona que passa o dia a me observar!
— Isso foi uma provocação?
— Não... Foi uma verdade. Além do mais, você age como se fosse uma vestal. Sinto que precisa conhecer Baco o mais breve possível.
Não entendia o que ele queria dizer com aquilo. Ele se expressava de forma conotativa. Era difícil compreender sua linguagem. Eu não queria estender o diálogo, e lhe disse:
— Acho que vou para casa...
— Não vá agora, precisa sentir o crepúsculo antes de partir.
— Por favor, chega de loucuras por hoje. Sem mais delongas, partir-me-ei daqui...
— Você está com raiva?
— Não!
— Parece que sim.
— Não, não e não! Cale-se, esquizóide!
— Você está furioso. Ainda guarda vestígios da natureza titânica. Eu também tenho acessos de cólera de vez em quando, mas sem deixar de ser ridiculamente humano.
— O que quer de mim, afinal de contas?
— Vê aquelas sete flores douradas juntas?
— O que me interessa nessas flores?
— São suas sobrinhas; as minhas Plêiades. Zeus transformou minhas filhas em flores para que eu regasse a parte mais importante de meu passado. Ele pode ser impetuoso, mas não chega a ser cruel.
— Chega, irmão.
— De que me chamou?
— De nada. Digo... Irmão?
— Sim, eu sou seu irmão, e você sabe quem você é!
Um gaguejar oblongo instalou-se em minha fala:
— Prooo... Proooo... Promeee... Proo... Promet... Promet... Prometeu. Eu sou Prometeu! Lembrei-me... Eu sou teu irmão, Atlas; eu sou Prometeu!
— Isso, dá-me um abraço velho irmão.
— Antes diga como encontrar Zeus!
— Não sei ao certo.
— Agora eu sei como é laborioso ser um humano. Maldito Zeus! Maldito, maldito! Poderia me deixar naquele lugar infesto ao invés de me deixar apodrecer nesse invólucro. Olhe para essa pele que, que se rasga com facilidade. Olhe para esses braços, sem tonicidade alguma. E esse sangue imundo... Prefiro estar em Tártaro e não aqui. Desejo também nunca mais encontrar aquela maldita águia. E você, irmão, o que deseja: carregar os céus sobre os ombros ou ser um humano?
— Com toda a certeza, eu lhe respondo...
— Responda, bravo irmão.
— Prefiro carregar os céus sobre os ombros a ser um humano.
Aquele foi um momento histórico. O que antes não passava de um diálogo nonsense transformou-se num momento épico. Não somente pela frase de Atlas, mas também pelo repentino aparecer de Zeus. Uma epopéia num pequeno jardim... E o todo-poderoso pronunciou-se:
— Muito bem, caros titãs, escutem-me! Outrora eu os castiguei de forma que não mais ousassem me desafiar. Atlas carregava o mundo nas costas, mas não sei como, consegui fugir com Atlântida, e Prometeu, aos berros, implorou outro castigo para livrar-se da faminta águia que degustava seu fígado ininterruptamente. Não me restou alternativa a não ser dar-lhes o castigo mais cruel que existe: transformar-los em frágeis humanos. Outros também foram transformados em criaturas humanamente inferiores como vocês. Estão sofrendo como todo ser consciente. Cada um deles herdou uma fraqueza humana, algo que os incomodasse para sempre. Você, Atlas, sempre olhando para cima, a fim de que eu o avistasse do Olimpo e o retornasse para seu antigo castigo. Isso explica o porquê de lhe chamarem de “vegetal” neste lugar de seres desumanamente humanos. Estou errado?
Naquele momento, Zeus mostrou as respostas que eu tanto procurava. Era por isso que ele tanto olhava para um ponto imaginário próximo do sol, para que Zeus tivesse piedade e desse a ele a oportunidade de não mais ser um humano, nem que para isso ele tivesse de carregar a Terra nas costas novamente. Atlas falou com Zeus, não somente com a boca, mas também com os olhos:
— Zeus, para mim a humanidade é um impropério, de forma que eu realmente prefiro retornar ao castigo anterior. Eu cansei de tudo o que é humano, e principalmente do vício que me acompanha. Envergonha-me fazer parte de uma espécie como essa!
— Atlas — impôs-se Zeus —, olhe para Prometeu, que roubou o segredo do fogo para a humanidade. Seu fígado tornou-se um alimento primacial para a águia que destinei a ele. Mas quando ele implorou por outro castigo, tornei-o um humano sem chama alguma para viver, compreende? Uma vida fria, vazia e sem perspectiva. Ele levou o fogo para os homens, e não somente o fogo físico, aquele que queima a pele, mas também o fogo espiritual, aquele que aquece a alma, que dá vontade de viver. Tirei dele o fogo do espírito.
Eu questionei o detentor do meu destino:
— Zeus, o que fará comigo e com Atlas?
— Para Atlas, retorná-lo-ei ao seu castigo anterior. E você, Prometeu... Você pede para não rever a águia e ainda pede para sair dos parâmetros humanos e ir para Tártaro. Você não mais terá seu fígado dilacerado e degustado, pois não irei lhe aplicar o que apliquei antes, mas continuará aqui, nesse lugar habitado por mortais.
— Mas por que, Zeus?
— Porque não existe diferença entre Tártaro e a Terra! Você continuará sendo um humano. Vamos Atlas, vamos embora!
Espere um pouco, Zeus — volveu Atlas. — Antes, preciso me despedir de meu irmão. Prometeu, nessa vida terrena sempre fui um grande escritor. Ao olhar para certo ponto imaginário, tive inspiração para escrever. Como vivenciei fatos seculares, sempre carreguei uma barganha enorme de conhecimento. Como voltarei a sustentar a Terra, deixo a você esta casa, e principalmente este jardim. Ao sentar naquele banco, olhe para o sol, como sempre olhei...
— E depois?
— Escreva, caro irmão, simplesmente escreva... Adeus!
Eles se foram. As Plêiades também. E desde aquele dia tornei-me um “vegetal”, olhando fixamente para um ponto imaginário próximo do sol. Tornei-me também um grande escritor. Tenho duas casas agora: a dos meus pais, onde vivo como um ser humano, e a que ganhei de Atlas, onde vivo como escritor — e como vegetal, onde consigo me aquecer com o fogo do espírito, mesmo que raramente. Meu irmão mais novo passa o dia a me observar do segundo andar da casa — a casa de meus pais. Seria ele Menécio ou Epimeteu?

“O diabo é um otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são.”
(Karl Kraus)

“Prefiro carregar os céus sobre os ombros a ser um humano.”
(Atlas)