segunda-feira, 29 de março de 2010

Não Tema a Morte!


Nunca se pode temer a Morte, mas sim o modo de como iremos morrer. No mais, se o ser humano não morresse, o planeta não suportaria tanta gente (se com quase sete bilhões de habitantes a situação anda complicada...). O Nobel de Literatura, José Saramago, imaginou um mundo sem morte no seu romance "As Intermitências da Morte", o quão caótico seria. Sejamos realistas: se com ela já está difícil, imaginem sem...

Capitalismo: Desprezo pelo "Ser" e Busca Selvagem Pelo "Ter"


Desde tempos idos, o "ser" foi mero coadjuvante da sociedade. O feudalismo procedeu os valores de posse, e a revolução industrial alavancou os valores de consumo, mas ambos relacionados ao "ter". À guisa de classificação social, vemos o "ser" como único motivo de "orgulho" para os menos favorecidos, e o "ter" para os abastados "seres de terno e gravata". Até a religião tenta atenuar os ditames da sociedade capitalista: "bem-aventurados os pobres, pois são deles o reino dos céus" e "não juntarás tesouro na Terra".
Mas a avalanche consumista é inevitável, e o "ter" tem mais valor que o "ser" numa sociedade puramente competitiva. Eis a palavra-chave: competição; se você não TEM, você não É...

sábado, 27 de março de 2010

Ser é Não Ser



Somos crianças, somos velhos
Somos quem somos
Mendigos, magnatas, diplomatas
Mas no fim não somos nada

Somos o céu, somos o inferno
Somos o réu, somos o juiz
O fogo que acende, a água que apaga
Mas no fim não somos nada

Não somos nada, nem nunca fomos
Nem Bonaparte, a minha parte é o nada
Nem quem morre na cruz, que não viu a luz
Porque no fim não viu nada, e foi o NADA

Sejamos heróis de nós mesmos
Nem Tiradentes, que antigamente
lutou por muita gente
Mas com a cabeça cortada
Nunca viu nada

E nós? E nós?

Ser é não ser, e não existe mais questão

Aldous Huxley e Machado de Assis: O Paradigma da Leitura Difícil



A forma de escrever, o estilo, a narrativa envolvente é produto de grandes leituras (e geralmente, grandes escritores são também grandes leitores). O poder de interpretar textos e imaginar-se num mundo diferente do real, utilizando-se dos infindáveis recursos da mente é um atributo dado somente àqueles que têm a coragem e a criatividade para pensarem além. Se dissessem para Lewis Carrol que suas idéias eram malucas e que desistisse de escrevê-las, e ele, creditado a verdade a tais pessoas desencorajadoras, não escrevesse Alice no País da Maravilhas, não presenciaria o sucesso e a beleza de sua obra. O que falta para os escritores iniciantes é encarar a escrita e o mundo, largar a chafurdice de opiniões alheias: porque, para se fazer um bom livro, é necessário abstrair-se deste mundo. Ora, estudar mitologia, psicologia, sociologia, jornalismo, antropologia, etc, é uma forma de atiçar a mente e a produzir textos belíssimos. Outro fator importante é a economia e a beleza das palavras. A língua portuguesa, por si só, é poética. Vamos a um exemplo: ao invés de escrever "são pensamentos que fluem" pode-se escrever "são pensamentos eflúvios", o que confere mais beleza ao texto. Outro exemplo: "sou o assassino de sua irmã", pode-se escrever "sou o algoz de sua irmã", ou, ao invés de "choraram em abundância e derramaram lágrimas de guerreiros", pode-se escrever "choraram copiosamente e verteram lágrimas de guerreiros". Muita gente reclama das "palavras difíceis" nos livros, dizem que Machado de Assis, Aldous Huxley e Nietzsche são "chatos". Ora, devemos agradecê-los, pois são eles que enriquecem nosso vocabulário e nos incitam a procurar verbetes no dicionário (para muitas pessoas, o dicionário parece ser "muito pesado", e abrir suas páginas torna-se uma tarefa cansativa). Leiam "O Gênio e a Deusa", de Aldous Huxley, e entenderão minha mensagem.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Você é a favor da eutanásia?



A eutanásia é utilizada em casos extremos. É a morte por consentimento do próprio doente ou da família; uma solução para findar o sofrimento insuportável dos pacientes em estágio terminal de alguma doença, como o câncer, por exemplo. Dada a permissão tanto pelo enfermo (eutanásia voluntária) ou pela família deste (eutanásia involuntária), os médicos desligam os aparelhos que mantêm o acamado ainda vivo. A eutanásia gera conflito de opiniões em escala mundial. Dentro da ética dos médicos, quebra-se o tão conhecido juramento de Hipócrates. Os teólogos condenam essa prática porque defendem a idéia de que apenas (um suposto) Deus, o Criador, é quem tem o poder para tirar a vida dos seres humanos. Apesar da polêmica, três países europeus já legalizaram a eutanásia: Holanda, Bélgica e Luxemburgo. No Brasil, assim como em outros países, a prática da eutanásia é considerada como homicídio. Sinceramente, você é a favor dessa prática tão polêmica, que contraria o modo natural em que se encaminha a vida, mas que é pertinentemente racional quando o objetivo é livrar o ser humano de uma vida vegetativa? De antemão, respondo que sou a favor! (Antes de responder, pense nas últimas cenas do filme "Menina de Ouro", com Clint Eastwwod, onde a jovem boxeadora está no leito do hospital, com a perna amputada, e paraplégica, sem condições para retornar ao boxe).

quinta-feira, 25 de março de 2010

Inumação


A felicidade é dada àqueles que estão preparados para a inumação da mesma.

O Escritor e a Crisálida


O escritor, por consequência de seu ofício, deve se tornar um grande pesquisador, caso contrário, será apenas como uma crisálida, e enquanto não perscrutar, investigar, desconhecerá a metamorfose.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Drummond Tinha Razão!


Disse o inesquecível Carlos Drummond de Andrade: “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede.” Com esta frase é possível indagar sobre a desvalorização da leitura, e consequentemente, da literatura. No Brasil, há um fato curioso: é um dos países onde mais se produz obras literárias e, em contrapartida, há poucos leitores. Tal disparidade reflete a educação nacional. Mas apesar de tudo, de uma conjectura que permite levar a um quase ostracismo, a literatura ainda resiste. Quando se fala em resistência, fala-se principalmente em literatura clássica: A Divina Comédia, de Dante Alighieri; Édipo Rei, de Sófocles; Os Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski; Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley; Ulisses, de James Joyce, e inúmeras obras de enorme relevância. Esses e outros grandes escritores ainda perduram entre os grandes nomes da literatura mundial.

terça-feira, 23 de março de 2010

A Morte de Nietzsche


O sangue cortejando a morte
E eu esvaindo-me aos poucos
Deixando uma vida telúrica e de nenhuma sorte
Mas filosofando como os doutos

Vai,alma, deixa essa carne putrefeita
Larga as sarças do destino
Volta ao teu lugar de direito
E esquece o corpo tomado de absinto

Viaja pela constelação
Alimenta o teu sonho de liberdade
E aja sempre com a razão
Coisa que fiz desde a mais tenra idade

Porque eu disse:
"Deus está morto"
E agora os crentes sorriem:
"Nietzsche está morto"

sexta-feira, 19 de março de 2010

A Alegria do Céu e a Tristeza do Inferno


No vácuo, antes de o mundo existir, só havia o Céu e o Inferno. Cansados de toda monotonia, queriam conversar, mesmo sabendo que não podiam. Ele os fez para não que não tivessem qualquer espécie de contato. Mas o ambiente inóspito era entediante. O Céu, cansado da calma que Ele inseriu em sua essência, virou-se e falou para Inferno:
— Já chega, não?
— É... Já Chega!
— Prazer, meu nome é Céu!
— Como não saber seu nome, se há apenas eu e você aqui?
— Já sabia meu nome? Quem lhe contou?
— Deus!
— Ah... Ele me contou que você é o Inferno...
— E que não deveríamos conversar...
— Exatamente.
— Mas é difícil ficar sem conversar, não acha?
— Acho!
— Eu também!
— Ele nos fez através de espíritos, não é?
— Sim.
— Quais os espíritos que moram dentro de você?
— São uns camaradinhas bem espertos. Mas não confio muito neles. E quem mora em você?
— Ah, são umas criaturinhas dóceis, mas muito chatas. Parecem fincadas em seus objetivos... São bitoladas!
— Céu, os espíritos daqui são agitados... Tanto que às vezes chego a ficar tonto com as travessuras deles.
— Eu preciso de movimento.
— E eu de um pouco de paz.
— Você acha que podemos viver um sem o outro?
— Sei não... Está tudo confuso.
— Com certeza.
Céu e Inferno entreolharam-se, preocupados com a estranha necessidade de estarem próximos um do outro. O Céu, buscando um alento, desabafou:
— Queria eu um pouco de sua temperatura corporal, Inferno...
— E eu um pouco da sua, Céu. Sou muito calorento. Por causa do lago de fogo e enxofre, tenho um pouco mais de quatrocentos e quarenta graus Celsius.
— Eu tenho uma temperatura, muito, mas muito abaixo da sua. Às vezes eu sinto muito frio.
— Poxa... Será que não poderíamos juntar nossas essências para que haja equilíbrio em nós?
— Boa idéia, mas acho que Ele não vai gostar muito.
— Eu é que não estou gostando disso tudo...
— Então vamos, danem-se as conseqüências...
E os dois juntaram suas essências. Para surpresa deles, não se equilibraram, como imaginaram. O Céu ficou com a mesma temperatura e com os mesmos inquilinos chatos, e o Inferno com o mesmo calor que o incomodava e os mesmos baderneiros de sempre. Suas essências criaram um terceiro ser. Olharam a elipse recém-criada através da junção de suas essências, e viram que era uma menina. Os dois esqueceram o plano de equilíbrio e adotaram a criaturinha.
— Podemos chamá-la de Terra — sugeriu Céu.
— Terra? E porque esse nome?
— Ela é bem compacta. Não tem falhas como você e eu.
— Terra... Bonito nome.
E a menina cresceu. Os inquilinos de Terra foram aparecendo, se multiplicando, e houve então a superlotação. Feliz com a situação, Céu alegrou-se ao seu companheiro:
— Inferno, tenho inquilinos muito bons agora, que vieram de Terra. Não são tão bitolados como os antigos. Tem uns que tocam blues, outros que pintam maravilhas... Tem pacifistas, filósofos, hippies...
— Ah, Céu, sorte a sua... Aqui só tem o mesmo tipo de gente. Eu não agüento mais esses cínicos que estão vindo para cá...
— Ah, é? Quem são seus inquilinos, Inferno? Quem te aborrece tanto?
— Os espíritos imundos que estão vindo para cá... Eu não desejaria nem a você se me vilipendiasse cruelmente.
— Ah, fala aí, camarada...
— São políticos, Céu, políticos... O que fiz para merecê-los?
E Céu abraçou e reconfortou Inferno, comovido com a situação desesperadora do companheiro. Céu bem que tentou trazer alguns políticos para si, com o objetivo de aliviar um pouco o sofrimento de seu compadre, mas não podia: sabia que a verdadeira moradia deles era no âmago de seu amigo Inferno.

"Como as coisas andam, a política nada mais é que corrupção.”
(Jonathan Swift)

“São políticos, Céu, políticos... O que fiz para merecê-los?”
(Inferno)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Lágrimas de um Psicólogo



Eu estava ébrio. Sentia meu corpo flutuar. Uma velha música ecoava em minha cabeça: era Breathe, do Pink Floyd. Eu precisava respirar, e além do mais, estava desiludido. Eu estava cansado de toda a monotonia do meu ser. As portas pareciam não querer abrir mais, e nesses casos eu simplesmente ingeria uma bebida alcoólica e ouvia uma boa música em meu consultório. Fiquei triste sem um motivo aparente. Provavelmente eu estava cansado de agir como um ser humano exposto às verdades que afligem a mente — e essa é uma das desvantagens de ser um psicólogo. Eu sempre fui frio e racional, mas naquele instante algo quente e irracionalmente emotivo me pôs a chorar como um bebê. Logo eu, que depois da infância não chorei uma única vez. Saí do consultório no finzinho da tarde e fui a um bar mais próximo. Eu sempre admirei os bêbedos, pois eles costumam falar a verdade. Talvez eu tivesse chorado por ter escondido uma verdade de mim mesmo, e uma boa dose de uísque poderia revelar a verdade que encontrava-se oculta em minha psique.
Sentei-me à mesa mais distante que avistei. Pedi um uísque com duas pedras de gelo. Quando o garçom trouxe a bebida, olhei profundamente as pedras de gelo, e pensei: “Eu sou como uma pedra de gelo dentro do uísque, pois sei que por mais frio e sólido que posso parecer, algo acaba me liquefazendo, e esse algo é que pode me assustar”. Eu bebi e me senti leve; leve como pluma numa ilha edênica. Um antigo cliente, que por acaso apareceu por lá, sentou-se à mesa, e disse:
— Olá, doutor, há quanto tempo! Vejo que está um pouco alegre. É bom relaxar às vezes, não é mesmo?
— Caríssimo Ulisses, creio que consegui lhe ajudar bastante, está mais alegre e menos desinibido.
— Pois é, doutor, o senhor é muito bom no que faz.
— Não sei... Às vezes acho que não.
— Por que acha isso?
— Também não sei. Estou desiludido com algo.
— Doutor, eu não sou psicólogo, mas se quiser conversar...
— Conversar? Realmente, eu ouço mais do que falo. Não gosto de expor meus sentimentos.
— Dê uma dica então...
— Ao invés de falar, vou improvisar um poema.
— Estou ouvindo!
Naquele momento me deixei levar pelo efeito do álcool e improvisei um poema com os olhos caídos e minhas mãos gesticulando, como um bom bêbedo. Improvisei, e declamei pausadamente:

Um certo olhar ao horizonte
Um raio solar que rasga e acalma
Que ofusca e aporta em minha alma

Uma praia deserta no oceano
Onde sempre avisto nuvens verdadeiras
Nas tristes tardes derradeiras

Inconstante é o meu ato de viver
A mesma inconstância que mata
É como o pão que é de graça... Desgraça
Qualquer ato que atrai minha percepção
Atrai também minha desconfiança
Porque sei que é ilusão, sei que é ilusão

Etéreos brilhos enluarados
N’uma noite em que eu, tresloucado, não consigo dormir
Nem pensar, e quem dirá agir

Eu envergonho a terceira lei de Newton
Quando apanho da vida em sua mais cruel ação
Sequer tenho ânimo para esboçar uma reação

A verdade me seduz nua e crua
Mas eu ando atrevido nas trevas que eu próprio propus
A ilusão é treva que mantém minha questionável luz

Terminado o improviso, Ulisses, que estava com a boca sedenta de opiniões, falou:
— Doutor, estou vendo que está com os pensamentos perturbados. Não me leve a mal, mas acho que está fugindo de alguma verdade.
— Você é bastante esperto, Ulisses. Na realidade, estou desiludido com algo que não sei ainda. Talvez a tal verdade que você mencionou faça parte dessa desilusão. Ulisses, poderia fazer um favor para mim?
— Claro!
— Pode me deixar um pouco sozinho? Não que sua presença seja desagradável, muito pelo contrário; mas hoje admito apenas a mim como companhia. Preciso me encarar para descobrir o que tanto me ilude.
— Compreendo.
— Muito obrigado... Peço desculpas por praticamente expulsá-lo daqui — falei com sorriso amarelo.
— Não se preocupe, doutor, eu entendo perfeitamente o seu pedido. Às vezes é bom ficar sozinho, pensar um pouco... Até logo!
— Até, Ulisses!
Ele se foi. Ulisses era daqueles sujeitos que não se importavam em serem rejeitados, como eu o tinha rejeitado naquela noite. Ele se acostumara às exclusões que a vida arrebatava em sua pessoa. Órfão, abandonado pela esposa, azarado ao extremo... Numa consulta Ulisses confessara a mim que vivia por viver. Perdera todas as forças em meio a tantas tentativas frustradas. Ele fizera uma irrupção em meu consultório, quando chegou e desafinadamente cantou Goodbye Cruel World, do Pink Floyd. Estava fazendo alusão ao seu desejo de suicídio. Eu não o curei, apenas mostrei-lhe um atalho para ser menos infeliz. Falei-lhe que na falta de um prazer, procurasse algo genérico e artificial, mas que enganasse seu cérebro. Objetei também que tivesse cuidado, pois poderia enganar o cérebro, mas jamais a mente. Não procurou outra esposa, pois artificialmente mantinha relações com prostitutas. Não se preocupava com seu azar, pois começara a tratar seus “karmas” com ironia, e assim ia levando sua arrastada vida.
Fiquei no bar mais ou menos uma hora depois da saída de Ulisses. Eu bebia e fixava meu olhar no copo. Pedi cerveja depois do uísque, o que foi uma mistura fatal. Comecei a lembrar de fatos que surgiam abruptamente, e numa resposta imediata a essas lembranças, eu perdi a noção de tempo e espaço. Eram lembranças vagas, sem significado algum. A imagem de Thor, o deus do trovão, era algo que me fascinava, e tal figura mitológica flutuava em minha mente. Mas o que significava a imagem de Thor naquele momento? Interessante notar que mesmo um psicólogo não tem resposta para tudo. Jamais precisei de um psicólogo, sempre encarei os problemas sozinho, sem medo. A vantagem da profissão é exatamente quebrar o muro que separa o indivíduo da solução; e ao longo desses anos aprendi que, às vezes, a solução é mais dolorosa que o problema. Mas é como eu digo: “Não há cura sem dor”. A dor é a melhor amiga do homem, e sabem por quê? Porque a dor alerta. A felicidade anestesia, e geralmente as anestesias não aliviam nossas dores, apenas nos proporciona uma falsa sensação de alívio. Ledo engano o nosso. Mas o que importava pensar dessa maneira naquele instante, onde eu estava totalmente anestesiado pelo excessivo consumo de álcool? Eu estava começando a gostar de ser enganado, anestesiado.
Agradeci ao garçom pela anestesia — ele me olhou perplexo quando pronunciei esse termo, transformando a palavra “anestesia” em uma metonímia para a palavra “álcool” — e paguei a conta. Iniciei um passo reto, outro nem tão reto, e fora do bar, meus passos estavam completamente tortos. Meu corpo estava quente, apesar do tempo frio. Eu estava me sentindo estranho; completamente fora de mim. A lua cheia brilhava, e me fascinava de tal modo que preferia estar lá, passeando sobre suas crateras e flutuar através de sua pequena gravidade. Mas eu tinha que me contentar e manter meus pés na superfície terrestre, onde nada flutua, apenas cai, matando assim os sonhos de minha humanidade auspiciosa.
Quando cheguei no prédio e subi os degraus que levam ao consultório, meus passos encaravam cada degrau como um martírio, e isso porque o consultório fica apenas no segundo andar. O consultório também é minha moradia; um apartamento aconchegante, sem muitos móveis, apenas uma estante com vários livros, uma escrivaninha e um caderno onde anoto as análises que faço nos pacientes, e claro, um divã. Cheguei no apartamento e percebi que a porta estava aberta. Estranho, eu tinha quase certeza que havia trancado a porta. Entrei e percebi que havia uma pessoa sentada em minha cadeira. Surpreendi-me quando percebi que o inesperado visitante estava de costas, que mudara a posição da cadeira para que eu não o visse. Fiquei curioso.
— Olá! Quem é você? — perguntei.
— Não quero falar meu nome ainda, doutor.
— Como entrou aqui?
— A porta estava aberta e pensei que o senhor estivesse aqui. Vi que não estava, mas mesmo assim preferi esperar, pois meu caso é urgente.
— Bom... Quer fazer a consulta agora mesmo?
— Sim!
— Então, sente-se no divã e passe a cadeira para que eu possa consultá-lo.
— Não, doutor, eu não quero mostrar meu rosto!
— Entendo... Pois bem, vou ficar no divã para conversarmos.
— Obrigado, doutor.
Eu não sentei no divã, eu me deitei devido o cansaço causado pela bebedeira. Eu estava ébrio, mas mesmo assim resolvi conversar com o misterioso cliente.
— Em que posso ajudá-lo?
— Doutor, ultimamente ando perdido, sem rumo, entende?
— Perfeitamente.
— Desde o meu nascimento, percebi que a vida não foi feita para pessoas como eu.
— E por quê?
— Porque sou fraco. Sempre me senti forte, mas um dia percebi que não era tão forte assim.
— Explique melhor!
— Sabe quando uma rocha é derretida pela lava de um vulcão?
— Sim.
— Eu era a rocha, e minha vida a decepcionante lava.
— Por favor, seja mais objetivo!
— Eu sempre me senti inalcançável, intocável pelas tristezas e amarguras da vida. Nasci numa família rica, e nada me faltou até agora.
— E por que se sente fraco nesse momento?
— Dinheiro pode dar poder, mas não dá felicidade. O dinheiro até proporciona felicidade, mas é uma felicidade artificial, parcial, e não integral. É falso!
— Quando foi a primeira vez que você se sentiu dessa maneira?
— Há pouco tempo. Percebi que nunca tive carinho dos meus pais. Eles nunca tiveram tempo para mim, pois estavam sempre cuidando dos negócios da família.
— Quer dizer então que nada lhe falta em relação à vida material, mas em sua vida sentimental encontra-se um grande vazio que o dinheiro não preenche?
— Exato, doutor. Eu nunca liguei para as questões sentimentais, e inclusive achava uma besteira ficar pensando em assuntos que exigem uma sensibilidade que enfraquece um homem austero que outrora já fui. Mas ultimamente as carências de minha pessoa surgiram à tona.
— Se me dá licença, vou até a cozinha beber água. Aceita?
— Não, doutor, muito obrigado.
Eu fui até a cozinha, e ebriamente peguei uma jarra com água gelada. Naquele momento, tal era a importância da água que a comparei com o Rio Nilo. O cliente estava lá, absorto em recônditos pensamentos. Era uma criatura soturna, alvacenta e sem vida. Bebi a água com tanta vontade que meus goles pareciam libertar a minha psique duma sede que consistia em viver a vida plenamente. Horas antes, o meu estado flébil havia contornado minha pessoa em simples célula viva. Mas eu cravei o aço no meu peito, e qualquer sentimento aprazível e delicado me tornara acre. Retornei à sala e continuei o fastidioso diálogo:
— Muito bem, amigo, onde paramos? — perguntei, fingindo-me de esquecido.
— Paramos em minhas carências... Sabe, doutor, sinto-me atenuado em meio a tantas alegrias que a vida proporciona.
— Explique!
— Comprar um carro novo é melhor que receber um caloroso abraço?
— Creio que não.
— Saiba, doutor, que tenho um carro novo em minha garagem física, mas nenhum abraço em minha garagem espiritual, compreende?
— Sim!... Você precisa parar de ver as coisas!
— Como assim?
— Você precisa aprender a sentir as coisas. Amar uma bela mulher pode ser bom para você!
— Doutor, creio que está se contradizendo. Ulisses é meu amigo, e o senhor o
aconselhou a manter relações com prostitutas ao invés de amar uma bela mulher.
— Mas com Ulisses é diferente, ele se decepcionou com a traição de sua ex-esposa. Você já foi traído?
— As mulheres com quem já me relacionei não estavam interessadas em minha companhia, mas em meu dinheiro. Quer traição maior que essa?
E naquele instante eu me via a mercê de minhas próprias contradições. Um breu se instalou em minha concepção acerca daquela situação. Resolvi seguir adiante.
— De onde conhece Ulisses? — era muita coincidência meu paciente de quase meia-noite conhecer Ulisses.
— Isso não importa agora, o que importa é o meu total desprezo pela minha efêmera felicidade. Transar com prostitutas é um prazer instantâneo, diferente de fazer amor com uma mulher real. As prostitutas são deusas, e tudo que é devidamente mitológico é irreal. As mulheres reais não são endeusadas porque existem, e suas belezas podem ser sentidas, tocadas num completo ato de desilusão. Eu nunca me envolvi seriamente, apesar de já ter me apaixonado pela mulher que outrora imaginei ser a ninfa dos meus sonhos, e eu fui traído justamente por tê-la endeusado com fogo-fátuo.
— O que é o amor para você?
— É algo apenas imagético, pois eu nunca senti um amor verdadeiro.
— O que significa a sua família para você?
— Uma corja estupidamente centrada em poderes aquisitivos.
— Seu pai?
— Ditador!
— Sua mãe?
— Conformada!
— E você; como se vê perante o espelho?
— Um deserto infinitamente envolto em ausências de todos os tipos, onde um afã de frivolidades agrega-se em cada célula do meu corpo.
— Perceba, meu caro, que o deserto, apesar de ser considerado praticamente incapaz de sustentar vida, esconde valiosos minerais e uma beleza raríssima. Você precisa encontrar o oásis dentro de você!
— Certo, contanto que pare com esse método de associação livre... É meio ultrapassado e Freud não funciona em mim.
— Vejo que conhece um pouco de psicologia...
— O bastante para saber quando estou sendo testado.
O diálogo estava tomando forma, e, pasmem, uma forma desafiadora para ambos.
— Você é esperto! Vejo que é conhecedor de várias coisas, apesar da ingenuidade.
— Sim, a natureza me agraciou com certa astúcia. Mas ao mesmo tempo inseriu em mim uma ingenuidade que me priva da realidade. Ajo com meu lado cognitivo, mas caminho absurdamente com meu lado límbico. Ao mesmo tempo em que tenho um raciocínio lógico, tenho também um modo cavernoso de agir. Eu sou um moderno homem das cavernas!
— Pare de se malograr!
— Não sou eu, é a minha natureza.
Naquele instante me pus a pensar: “As contradições fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas. Como pode ser feliz o indivíduo que vive em conflito com as próprias emoções? Ao que me parece, a mentira proporciona uma falsa felicidade, enquanto a verdade proporciona uma verdadeira infelicidade. Atrevo-me a dizer que, por trás de cada alegria esconde-se uma tristeza; por trás de cada tristeza esconde-se a verdade. O paciente, sentado de costas à minha frente, levantou-se, e sem virar para minha frente, sentou-se no chão em posição de lótus.
— Você pratica yoga? — perguntei.
— Sim!
— O que significa essa posição?
— Eu tenho insônia, e essa posição é benéfica para mim.
— Certo... Desde quando você pratica yoga?
— Aproximadamente um ano... Sabe, doutor, estou começando a estudar os costumes orientais, pois os costumes ocidentais baseiam-se apenas em uma doutrina...
— Que doutrina?
— Dinheiro! Além do mais, eu recomendo yoga para o senhor. Estou sendo arrogante?
— Não... Eu até concordo com você. A filosofia oriental é algo que também me fascina, mas para mim serve apenas como embasamento teórico...
— Devia praticar essa filosofia, é tão benéfica...
Eu me calei por alguns instantes e comecei a processar em minha mente: “Quem afinal de contas é o psicólogo e quem é o paciente?”. Esse sujeito estava exercendo um papel que condizia perfeitamente com o meu, e para que não se invertessem os papéis, eu comecei a questionar, pois geralmente sou eu quem questiona:
— Diga-me: você se sente sozinho?
— Viver no ermo é paz para mim, pois sem as intervenções humanas é que posso pensar internamente. Mas sou infeliz graças a essas intervenções que sofri ao longo dos anos. Desde o primeiro dia na escola percebi que os seres humanos eram ineficientes perante a verdadeira intenção da vida.
— E qual seria essa intenção?
— Viver! Simplesmente viver! Gradualmente fui sendo puxado pelos ineficientes. Drogas, bebedeiras, promiscuidades, ganância e tudo o que me afastou da verdadeira intenção da vida foi culpa do vazio que sempre senti dentro de minha família. Sabia que não pratico nenhum ato sexual há um ano, incluindo masturbação?
— E por quê?
— Porque é sujo. Os órgãos sexuais carregam impurezas espirituais. Por isso eles ficam escondidos. Para mim, o sexo já foi uma aventura, algo excitante, quando eu saía com mulheres sem vínculo algum com a verdadeira intenção de viver. E o senhor, com que freqüência faz sexo?
— Para falar a verdade, já faz um bom tempo... Eu não tempo para essas coisas! Mas você é diferente de mim, tem tempo disponível...
— Não sou tão diferente do senhor!
— Como assim?
— O senhor me compreende, e sendo assim, tem um pouco de mim.
— Claro! — concordei de forma negativa, ou seja, ironicamente.
— O senhor tem filhos, doutor?
— Não. E você?
— Por que perpetuar essa espécie? O sexo tem essa função, e assim sendo é mais um motivo para eu descartá-lo. Será que eu estaria aqui conversando nessa posição de lótus se meu pai não chegasse bêbado em casa e praticamente obrigasse minha mãe a fazer sexo, num ato em que me fez vir a esse mundo acidentalmente? Eu sei que não fui planejado.
— Como sabe?
— Eu ouvi meu pai conversando com um psicólogo particular certa vez. Depois de meu nascimento, ele imediatamente fez vasectomia.
— Engraçado... Eu também sou filho único.
— Está vendo como somos parecidos?
— Talvez, meu caro, talvez...
As comparações estavam me incomodando. Eu ainda estava bêbedo, o que poderia ser perigoso naquele momento, pois um bêbedo, quando se sente incomodado, não hesita em falar algumas verdades que não devem ser ditas. Mas essa é minha função, e eu não hesitaria em proferir algo que machucasse a pobre alma daquele homem.
— Porque me compara a você?
— Porque eu já fui rijo. Nunca precisei de um psicólogo, mas infelizmente estou aqui, levado pelas emoções mais traidoras que existem.
— Você acredita em Deus?
— Para mim, só existe um deus que rege o mundo.
— E quem é esse deus?
— Loki, o deus da mentira. Não existe uma verdade absoluta, e assim sendo, tudo não passa de uma grande mentira. À medida que nos afastamos de nossos mais profundos desejos, mentimos para nós mesmos, e a partir daí começamos a morrer.
Estava complicado! Meu cliente era complexo, a ponto de me desafiar, mesmo que não fosse sua intenção. Ele parecia descrever axiomas para tentar explicar uma situação que aflige muitas pessoas. Ele saiu da posição de lótus e retornou à cadeira. Seus movimentos eram dominados por uma notável lentidão, talvez pelo “efeito” de sua doutrina oriental. Estava vestido de uma forma bastante formal: paletó e gravata davam a ele certo ar de homem experiente, porém desenganado pela vida. Era como se um médico lhe dissesse que ele estava com câncer e lhe restasse pouco tempo de vida.
A felicidade abandonara aquele homem de uma forma repentina. Notei que às vezes ele olhava para cima, e dizia: “Por que, meus deuses, por quê?”. Parecia um sujeito politeísta, apesar de acreditar em um único deus: Loki. Eu comecei a exercer minha profissão mais seriamente:
— Por que olha para cima e clama pelos deuses quando diz acreditar apenas em Loki?
— Doutor, eu lhe disse que só existe um deus que rege o mundo, mas não lhe disse que só existe um. Quando eu me dirijo aos deuses, no plural, me refiro às minhas fragilidades. Cada uma delas é representada por um deus. Mas esses deuses são fracos... São tão fracos que representam a parte mais fraca do ser humano.. Mas apesar disso, são astutos... Eu não quero sentir mais nada, doutor! Mesmo sendo algo bom ou ruim, eu me recuso a sentir algo. Se eu pudesse matar minha alma e saciar apenas as vontades do corpo...
— Eu acho que psiquicamente você já está morto!
— Morto não, mas em fase terminal.
— Já tentou suicídio? — perguntei, preocupado com a resposta.
— Ainda não. Há pouco tempo comecei a sentir uma irremediável vontade de fazer algo realmente grande. Uma descoberta que pudesse eliminar muito da infelicidade humana. Se eu pudesse criar um elixir para isso, daria a todas as pessoas de bom coração. Infelizmente, Loki engana as pessoas com falsos elixires. Eu sou uma pessoa confusa, mas acredite doutor, eu não sou de todo mal.
— Você é bastante contraditório. Quer “matar” a sua alma, mas pratica yoga.
— Se eu tivesse uma alma morta, não perderia tempo praticando.
— Entendi! Você acha que a yoga só existe porque a psique é frágil.
— Exatamente. O senhor é bom em interpretação. As emoções são cavalos selvagens: possuem força, e apesar da visão binocular e lateral, quando estão olhando para os lados ou para trás, prestando atenção no movimento que os rodeia, não podem olhar para frente.
— Aonde você quer chegar?
— À linha de chegada. Quero olhar para frente, somente para frente. Quero matar essa manada que corre sem destino dentro de mim. Os deuses apostam nesses cavalos, e a pista encontra-se em nossas fragilidades. Geralmente, um cavalo chamado Loucura consegue ganhar várias corridas. Em segundo lugar temos o cavalo conhecido como Medo, e em terceiro um cavalo chamado Dúvida. Eu vou me revoltar perante a tamanha sagacidade dos deuses? Eu não tenho esse poder, sou um reles humano. A força de vontade que outrora tinha sumiu. Eu era uma chama incandescente que se apagou com o vento provocado pela corrida dos cavalos. Se ao menos existisse um Pégasus dentro de mim, eu poderia voar, apesar do alado continuar sendo um cavalo.
Eu senti a revolta dele. Estava inconformado, não somente com a família, mas com a humanidade, pelo simples fato de sua família ser humana. Consegui compreender a visão dele, mas não como um todo.
— Porque você confere suas fragilidades aos deuses, já que os deuses não são frágeis pelo simples fato de serem deuses? — indaguei.
— Como assim, os deuses não são fracos? Quando Prometeu roubou o segredo do fogo, Zeus o castigou daquela forma cruel. Quando um deus castiga, é porque ele se sente magoado, traído... Ele sente — subitamente deu ênfase à palavra “sente” —, ouviu bem? Sente! Nós fomos feitos à imagem e semelhança Dele, e não falo fisicamente... Nós somos a debilidade dos seres superiores.
Quando ouvi suas palavras, pronunciadas de forma colérica, percebi que ele estava além das outras pessoas. Sua tristeza havia gerado uma fúria onde eram depositadas todas as suas “verdades”. Ele era um ser essencialmente platônico. À Aristóteles foi conferido uma visão diferente de seu mestre Platão. Ele (Aristóteles) se via num mundo sensível, onde o abstrato não tinha muita importância. E depois de tanto tempo, dois seres psiquicamente perturbados ocupavam um pequeno espaço e ali começaram a dialogar num mundo real, mas essencialmente abstrato, oscilando entre a água e o fogo. A dualidade aqui mencionada beirava à loucura. Inexplicavelmente eu comecei a suar. Uma vontade horrível de dormir batera às minhas pálpebras. Mas eu tinha de descobrir até aonde iria aquela conversa. Ele falou:
— Sabe, doutor, há pouco tempo assisti Branca de Neve e os Sete Anões.
— É bom se distrair às vezes. Um desenho animado pode nos remeter a alegria da infância.
— Doutor, de infantil aquele desenho não tem nada.
— Explique! — fiquei curioso.
— Branca de Neve representa a alma humana e os sete anãos representam tudo o que a alma pode carregar. Doutor, o senhor lembra quem são os sete anões?
— Claro!
— Quem são eles?
— Dunga, Dengoso, Soneca, Atchim, Feliz, Zangado e Mestre.
Dunga representa a nossa cautela de revelar um segredo, um mistério ou uma verdade desagradável; Dengoso é a imagem de nossas manhas, nossas carências e o desejo de ser amado; Soneca é a nossa preguiça e comodismo; Atchim representa as constantes dores, o nosso estado febril, nossas doenças e fragilidades, e ainda o lado reacionário das pessoas, pois o espirro é uma reação do organismo; Feliz é o nosso êxtase causado por situações agradáveis, proporcionado muitas vezes pelas drogas; Zangado é o nosso descontentamento com a realidade, e Mestre representa um dom que muitas vezes carregamos, uma arte que dominamos com maestria.
— Interessante as suas comparações...
— Não são comparações, doutor, são verdades. No desenho, Branca de Neve arruma a casa dos pequeninos, pois precisava arrumar o lugar de seus instintos. Como ela era grande comparada a eles, precisava juntar todas as sete camas minúsculas para descansar. A alma, quando encontra um corpo, acaba conhecendo os mecanismos desse corpo. A casa dos anões é o corpo, a moradia, e eles são os mecanismos que movem e que sustentam esse corpo... Os instintos são os ossos da alma.
— Estou impressionado!
— Doutor, sabe o anão que mais detesto?
— Zangado? — eu sabia que não era o Zangado; queria apenas ver sua reação.
— Não. O Zangado expressa suas emoções de forma verdadeira. Eu odeio o Dunga. Ele é cínico! Ele não é mudo: ele finge. Não fala o segredo de nossas vidas. Quando assisti o desenho, percebi que é ele quem carrega a chave da mina. Mas ele não entrega a chave para nós... Antes temos de passar por dolorosas provações para pegar a chave e abrir a nossa mente para descobrir o que há de tão valioso. Mas às vezes a mina pode estar vazia.
— Concordo!
— Ele, com aquele cara de ingênuo... Mas de ingênuo não tem nada. Quando os anões fazem uma orquestra para agradar Branca de Neve, vejo uma clara alusão dos sentimentos tentando agradar a alma.
— Você analisou profundamente essa estória.
— Até que ponto seremos seduzidos pelos sentimentos da vida? Sendo bom ou não, eu matei todos os anões, inclusive Dunga, e com ele foi-se a chave que abre a porta da mina.
Eu perdi a vontade de dormir. Conversar com aquele misterioso sujeito estava despertando meu interesse. Ele tinha uma visão baseada na comparação entre o mundo fantástico e o mundo real. Suas analogias tinham sentido. Ele levantou a mão direita para o céu, e falou:
— Doutor, eu sempre admirei o deus do trovão.
— Thor?
— Sim, um deus nórdico que representa a força da natureza. Um ser arrogante, mas de incomparável nobreza, sempre condizendo com a verdade. Sempre foi o oposto de Loki. Quando eu vejo sua imagem, uma figura imponente, eu imagino que ele poderia ser o deus de nosso mundo. Um deus de grande rijeza, e apesar de possuir uma força que poderia usar em benefício próprio, simplesmente utiliza suas habilidades para preservar a mãe-terra, e com grande honestidade e nobreza, consegue seguir seus propósitos.
Para mim, a admiração desse sujeito por Thor era uma tentativa de dar vazão ao seu id. Ele imaginava que o nobre deus do trovão fazia parte de sua personalidade, quando na realidade ele era influenciado por Loki. Ele próprio falara que sua vida sempre fora uma mentira, uma farsa causada pelo dinheiro e pela falta de atenção e carinho dos pais. Aquele camarada conseguiu atingir a jugular da incompreensão, e mesmo nessa estrada de insegurança, dúvida e incertezas, ele conseguia enxergar o martelo Mjolnir de Thor. E nesse enxergar ele acabava escorregando e caindo no abismo da ilusão.
Analisando o contexto daquele interessante diálogo, eu percebi que realmente tínhamos algo em comum: a desilusão. Excluindo o fato dele pensar ser Thor, e não Loki, estava ciente da suas desilusões. Em contrapartida, eu não sabia o motivo das minhas. A percepção que temos do mundo é criada por nós, e por isso devemos ter cuidado ao cair numa ilusão de óptica. Ele tirou um pedaço de papel do bolso do paletó, e me disse:
— Doutor, vou ler algo que escrevi há pouco tempo.
— Certo, fique à vontade! — e ele leu.

Um homem não vê oportunidades sempre
Mesmo assim ele diz: “Tente...”
Um velho sabe, em seu coração
Que novas chances não aparecerão

E assim será essa nova armadilha

Uma criança espera uma árvore crescer
Quando cresce, lhe dizem: “É matar ou morrer”
Até que a última fruta caia em meio à matilha
Não a busque, pois trata-se de uma armadilha

E assim será essa nova armadilha

Carne nua e crua, com sede e fome
Vê comida boa no chão selvagem e come
Um agricultor que descobre terras cultiváveis sem dono
Espera dali brotar alimentos e em paz desfrutar um bom sono

E assim será essa nova armadilha
E assim sempre foi
Se lhe resta apenas a roupa e o corpo
É pouco, pois caiu nessa armadilha de novo

Uma súbita surpresa me acompanhou quando ouvi seu poema. Era intrigante a criatividade daquele ser mórbido, mas com uma grande vivacidade poética; um self deveras confuso. Uma lembrança sepulcral, uma coincidência perturbadora me despertou o interesse de conhecer melhor aquele sujeito. Que coincidência era essa?... Não poderia ser... Era óbvio:ele havia declamado um poema para explicar sua situação, do mesmo modo que eu quando encontrei Ulisses no bar. Eu não suportaria a idéia de mais uma coincidência... Eu não sabia por que estava me sentindo daquela maneira.
Quando eu era apenas uma criança, acreditava que o mundo era um lugar bom, e que todos eram felizes. Pensava que o planeta era um imenso jardim, e que todos tinham casas parecidas, todos se cumprimentavam, e que não existiam doenças. Mas as doenças existem, e as curas também. Porém, o número de curas é inversamente proporcional ao número de doenças. Eu apliquei a teoria malthusiana de forma mais subjetiva, dentro de um contexto psicológico. As curas surgem em progressão aritmética e as doenças em progressão geométrica.
O que poderia elucidar um momento tão ambíguo quanto aquele? Meu semblante era de desconforto. Uma estúpida vontade de encerrar a análise me bateu às portas do cansaço e da embriaguez. Eu era duro, intransponível e austero. Por que eu estava me comparando ao coliseu de fragilidades à minha frente? Talvez a severidade dos meus pensamentos soturnos estivesse, na realidade, me mostrando a luz. É a escuridão que nos faz sentir falta da luz.
Quando temos a luz em nossas mãos, não damos importância, e somente com a separação da luz em suas cores de espectro é que percebemos a beleza que escapa de nossas mãos. O id parecia controlar cada ato meu, e num instante de incertezas eu me pus a um quase choro... Que tensão! Como uma estrutura emparelhada de rimas poderia causar tanto transtorno?
— Tudo, bem, doutor? — perguntou ele, chamando-me doutor num tom de entre aspas.
— Tudo, meu caro — respondi friamente.
— Pode chorar, se quiser...
— Como? — assustadora pausa. — Repita, por favor!
Ele ultrapassara o limite da arrogância. Era quase meia-noite, e naquele instante eu senti uma forte pressão em meus olhos, como se estivesse prestes a chorar. Minhas mãos tremiam, e eu não sabia o que estava acontecendo. Ele levantou, continuou de costas, e como numa avalanche verbal, abriu a maldita boca e disse:
— Sabe, “doutor”, às vezes sentimos que estamos tristes sem um motivo aparente. O senhor estava neste consultório às seis horas da tarde, num clima úmido, quando começou a chorar, e claro, não sabia o motivo de ter caído aos prantos. Apesar de ser um psicólogo, não conseguiu detectar o motivo da própria tristeza. Sempre pensou ser uma criatura abençoada com a nobreza e a valentia de um deus, e por isso teve a quimera de comparar-se a Thor. Preste atenção, meu caro: você nasceu sem o consentimento de seus pais! — o maldito crispou nos lábios um sorriso escarnecedor nesse instante, o que me enfureceu de súbito. — Em suma, você foi um acidente. O senhor não nasceu, foi expulso do ventre materno, assim como Ulisses foi praticamente expulso pela sua “admirável pessoa” no bar.
— Cale-se! Infame! Saia daqui, agora!
— Calma, “Freud”, tenho muito mais a lhe dizer...
— Vire-se, covarde!
— Por que não vem até aqui me calar, “Thor”? Já sei, é porque está paralisado pelo medo que tem de ouvir a verdade. Logo você, um “deus”... Aconselhando-me a amar uma bela mulher quando sempre teve medo de amar? Um adepto da doutrina monetária do ocidente, questionando minha prática de yoga... Quando Dunga finalmente lhe disse a verdade, você o matou porque ele revelou sua infância solitária causada pela mesquinhez paterna e conformismo materno. O senhor é a criança do poema: buscou a última fruta em meio à matilha, e os lobos festejaram, principalmente Fenrir... O senhor não é Thor, muito pelo contrário, é Loki. O grande psicólogo que, ao contrário do verdadeiro deus da mentira, nunca mentiu para os outros, mas sempre para si mesmo. O martelo Mjolnir nunca lhe pertenceu.
— Vire-se covarde, para que eu possa ver o rosto daquele que vou mandar para as profundezas do inferno.
— Tudo bem, foi você quem pediu.
Ele se virou, e eu vi sua imagem. Foi naquele momento que eu tremi... E chorei. Meu estado deplorável piorou ainda mais quando percebi que ele era...
Eu... Ele era a minha própria imagem. Não era efeito do álcool, meu misterioso cliente era a minha pessoa. Era o meu lado verdadeiro. A minha parte adormecida pela mentira acordou e revelou a mim o que me pôs a chorar num nebuloso fim de tarde. Eu tinha entendido o porquê de ele estar em minha cadeira e eu estar no divã. Ele foi embora, e instantaneamente à sua saída , eu dormi.
Quando acordei, abri as cortinas da janela do consultório, e os raios solares adentraram em cada átomo de meu ser. Eu pensei em jogar aquele divã fora, mas não joguei, pois foi ali que deixei cair a única parte verdadeira, que se encontrava dentro de mim: minhas lágrimas. Desde então eu comecei a reconstruir minha vida e iniciar um pacto com a verdade. Hoje, não deixo meus clientes sentarem naquele divã, comprei outro, pois foi naquele divã que caíram as lágrimas de um psicólogo.

“A nossa maior ilusão é acreditar que somos o que pensamos ser.”
(Henri Amiel)

“Atrevo-me a dizer que, por trás de cada alegria esconde-se uma tristeza; por trás de cada tristeza esconde-se a verdade.”
(Psicólogo desiludido)

O Sonho de Phaedra


— O que é isso? Estou voando? — perguntou a menina.
— Ora, o que é tão estranho, Phaedra?
— O quê? Quem é você?
— Sou o seu sonho. Chamo-me Sonho de Phaedra. Fui enviado por Morfeu.
Era uma situação bem psicodélica para uma pré-adolescente. Phaedra, a menina de treze anos, estava ali, envolta em fluidos rosas. A essência arredondada que dissera ser o sonho da menina sorriu, e foram a um lugar surreal: o jardim dos sonhos. Lá, Phaedra avistou muitos absurdos: cavalos alados, doces gigantes, leões que falavam...
— Foi você quem criou esse lugar, menina — afirmou Sonho de Phaedra.
— Todas as pessoas têm um lugar assim?
— Não!
— Por quê?
— Porque elas não acreditam em sonhos, como você. Elas só acreditam no dinheiro. Por isso meus irmãos, os outros sonhos, estão mortos.
— Eu sinto muito!
— Não sinta! Se as pessoas não querem sonhar, azar o delas, deixe-as se perderem em futilidades.
— É! Azar o delas... Posso te revelar um segredo?
— Claro!
— Eu sonho com um mundo melhor.
— Deixa disso! Você pode ter o que quiser aqui: cavalos alados, doces gigantes... Agora, sonhar com um mundo melhor só será possível quando todos sonharem juntos!
— Putz, então estamos todos fodidos!
— Deixa pra lá! Passa dois metros de chocolate aí...

“Não há nada como o sonho para criar o futuro. Utopia hoje, carne e osso amanhã.”
(Victor Hugo)

“Agora, sonhar com um mundo melhor só será possível quando todos sonharem juntos!”
(Sonho de Phaedra)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Monólogo de um Controverso Gênio Ignorado

Instintivo: esse era o meu problema. Tornei-me emocional para o homenzarrão que era. Educação rígida não bastava. Meus tépidos pensamentos colhiam a santa ingenuidade. Maldita Ingenuidade, assassina da Verdade. Ah, que pleonasmo: por natureza somos todos ingênuos. Era estupidez demais para mim, para eles — minha família. Apresento-lhes papai, o grande déspota; mamãe, a grande nação; e meus irmãos, os soldadinhos de chumbo — os escravos do coronelismo paterno. Eu não estava ali para ser um mártir, pois nunca fui egoísta o bastante — no fundo, o mártir nunca luta em prol da comunidade, mas em prol do seu ego! Está aí, o mundo mais cheio de crenças que de mártires.
“Quisera eu acordar e não ser eu”, pensava. “Mas sou!”. O que havia de errado nisso? Não sei dizer por completo... Por enquanto estou simplesmente a escrever — desculpem minha escrita, sempre fui ousado para isso. Eu era um embrião da monotonia, um feto da cólera e um nascido da regra-servidão. Era um filho erétil da epistemologia e um filho torto de meu pai.
O velho, enfim, me deixou em paz, e morreu — o coronel, o senhor rigidez, o pai de todas as ditaduras familiares: o meu pai, que estava embaixo de uma terra que, por certo, queria cuspi-lo de suas entranhas de tanto ojeriza que deveria sentir dele. Mamãe dizia que eu era inteligente demais, e bem sabemos que um inteligente numa família de ignorantes é deveras ignorado, como um suicida ignora a vida. Oh, era eu o problema, porque eu tinha essa mania de mostrar a vida aos suicidas — minha doce família. Ah, mamãe sempre me alertava: “Precisa acreditar em Deus, meu filho!”. Como eu respondia? Friamente: “Deus é como analgésico, mamãe: só lembramos Dele quanto sentimos dor, e eu bem sei que não preciso de analgésicos; o que preciso é evitar atitudes que levem à dor. Se todos fossem felizes, a existência de Deus não faria sentido”.
Era eu forte, hercúleo, mas física somente — e ínfimo no que diz respeito ao meu estado psicológico. Eles rejeitavam isso. Foi preciso que eu encarasse a tabela periódica e os devaneios da trigonometria para mostrar a eles minha genialidade. Quanta fealdade, nasci num estúpido ninho. Quão estúpida é a vida regrada a tradições — os desprovidos de mente douta adoram seguir tradições . Era eu um celibatário de todas as ordens, e também da alma. Descasei-me de minha alma, e aniquilei todas as jactanciosas amantes: a Tristeza, a Solidão, a Ignorância — sim, os gênios são pedantes e ignorantes, pois reservam seus pensamentos a um mundo particular e ignoram os problemas do mundo real.
Foi necessário encarar a escuridão das teorias — tão difíceis de assimilar quanto os comas entre um semitom musical e outro. Ora, era eu homem do campo, vivendo numa liberdade medida em hectares e numa prisão medida em livros. Valeu-me os dias de gênio: um dos primeiros lugares no vestibular. Autodidata no aprendizado, criava minhas próprias fórmulas, e arrematei a minha célebre graduação em Geologia, e posteriormente em Música.
Feliz era minha mãe, sisudo era meu pai, invejosos eram os meus irmãos que sobraram, e entendamos como “sobra” aquilo que volta da guerra, geralmente sem braço, sem perna... — desculpe minha forma blakeana de escrever, é influência de William (Blake)...
Estavam todos aprazíveis com o pós-luto. Até os cavalos ficaram mais calmos com a morte do velho. De que ele morreu? Câncer, fumava muito. Morreu também de ignorância. O velho homem, imbatível com a farda, não era nada sem ela. Os velhos ditadores e estreitos são como melancia: duros por fora e moles por dentro.
Era eu grandessíssimo violinista, mas a educação musical que tive foi interrompida pela severidade ignorante das raízes sertanejas. O velho suspendeu as aulas de um professor particular porque faltava um braço forte na colheita. Levei os dois! Mas o que colhi foi uma imensa suspeita: o que faz um homem interferir na genialidade do outro? Já não bastavam os fatores internos? Ah, sua morte foi uma porta aberta para mim, pois voltou-me o intelecto de gênio que sempre me acompanhava. Fiz tantas obras literárias e musicais que uma simples palavra proferida por mim fantasiava-se em poesia e melodia.
Por vezes eu senti, e sentir nunca foi bom. Um gênio não pode sentir, tem de agir como um desavisado na terra dos sentimentos. Tornei-me maestro de minha orquestra espiritual, cujos músicos, que antes eram analfabetos musicais, foram transformados em virtuoses. Mas perdi a batuta e cometi a besteira de me apaixonar por uma linda mulher. A paixão é a ponte que leva ao orgulho — a ponte é uma armadilha!
Nenhum irmão jamais possuiu a mulher que estava em meus braços. Por que ela correspondeu minhas cartas? Porque beijou-me se nossas bocas eram tão diferentes? Eu larguei a epistemologia e comecei a trilhar uma soturna metafísica... E tive um filho. Como era gracioso: meu pequeno já era amante das artes antes de completar seis anos, e minha querida esposa era o retrato de minha mãe, tão compreensiva, e, que por coincidência, também tocava piano. Estava eu a cometer os mesmo atos de Édipo? Não, meu complexo era de Criatividade... Nada estava perfeito até o momento em que a Perfeição batesse em minha porta e dissesse que mais algum detalhe e eu arruinaria a obra.
Fui grande maestro também, regi vários concertos. Também fui dramaturgo. Criei várias peças, mas tive de encarar a peça da vida real: a morte de minha mãe. Teve um ataque cardíaco! Ah, meu pobre mundo de mármore renascentista tinha desabado. Depois, a esposa, e mais adiante, meu pequeno Michelangelo — três mortes num curto período de tempo... Usei a razão de várias maneiras para não enlouquecer, mas a loucura era o estado mais racional a se sentir naquele momento.
Comecei a beber vorazmente. Minha sede era tão grande que passei a beber mais de um litro de conhaque por dia. As noites eram infernais. Sozinho em minha velha poltrona, sem distinguir o azul do azul escuro, eu vi a imagem do cavalo: enormes asas de fogo e chifres pontudos, como os chifres do Diabo. Montei nele e descemos escadaria abaixo. Estava quente, e vi então a alquímica trindade: mercúrio, enxofre e sal. O próprio Hades me concederia um desejo se eu lhe entregasse a pedra. Ah, era uma pedra cujo elemento é o mais abundante na Terra e que há muito eu achara na fazenda. Conhecida pelo seres inferiores como Cesarcus, seu elemento era a maldade humana. Cesarcus vem de César, o próprio demônio de Roma — não apenas Júlio, mas todos os Césares.
Entreguei a pedra a Hades, que pediu para que eu revelasse meu desejo. Caminhei lentamente ao seu ouvido e falei que estava disposto a perder todos os sentimentos de sofreguidão; simplesmente todos. Foi um momento inolvidável! Subi a escadaria como se fosse Luís XIV e cheguei à sala do casarão. Sentei-me na poltrona. Eu estava absoluto. Queimei a própria mão no fogo da lareira e nada senti. Vi então que Hades cumprira sua parte do trato. Peguei o violão e tentei dedilhar alguns acordes... Não consegui! Peguei papel e caneta para descrever o tão épico momento através dum poema... Também não consegui! Foi então que percebi que um artista não é nada sem sentimentos que o faz sofrer, um gênio não é gênio sem uma paixão doentia.
Chorei! — como poderia eu chorar se não tinha mais sentimentos? O fato era que, sem o consentimento de sentir, a minha parte mais verdadeira havia morrido. Notei que se um gênio não sofrer, sua criatividade não passará de uma simples gota perto do oceano de possibilidades artísticas. O poeta quando cessa seu sofrer não é mais poeta. Um músico quando não tem feeling não é um músico. Foi então que peguei a arma que pertencera ao meu pai e atirei em meu próprio peito, assim como Van Gogh fizera. Morto então, reencontrei o velho e lhe disse: “Obrigado, pai, pois foste tu a razão do meu sofrer, e conseqüentemente, de minha genialidade”. E, pela primeira vez, abraçamo-nos como pai e filho...

"Quando um gênio verdadeiro aparece neste mundo, você pode conhecê-lo pelo seguinte sinal: os ignorantes estão todos unidos contra ele.”
(Jonathan Swift)

“Notei que se um gênio não sofrer, sua criatividade não passará de uma simples gota perto do oceano de possibilidades artísticas.”
(Um controverso gênio ignorado)

O Jardim de Van Gogh



Caminhei pelo jardim
Ouvi a vastidão das flores
Que diziam para mim
Larga tuas antigas dores

Em atitude umbrosa
Pintei um quadro impressionista
Vomitei o amarelo em prosa
E sibilei emoção mista

Alegria e tristeza
Transtorno bipolar de humor
Que assim seja
Um tiro no peito

O jardim se calou!

Misturei-me à imensidão do jardim
Voei junto às borboletas
Entre meneios de jasmim
Entre a tinta e a corneta

Corneta do Céu
Corneta do Inferno
Meu sangue ao léu
Minha vida ao inverso

Atirei em meu peito
Chamo-me Van Gogh
À torto e à direito
À convalescência e ao grogue

Oh, não, que desastre
Morri e não fui reconhecido
Mas que disparate
A minha morte é fruto do impressionismo

Estou entre as tintas
É o vermelho e o amarelo
E agora me dão boas-vindas
Pelo menos me reconhecem, o Céu e o Inferno

Em Terra, estava morto
Agora estou vivo e hercúleo
Virei uma espécie de aborto
Sob a densa areia de telúrio

Fui um cabotino?
Se fui, foi por necessidade
Mas era o meu destino
Pintar quadros com grande vivacidade

Pintei sem ver as cores
Porque a cegueira me bateu à porta
Cegueira de platônicos amores
Cortei a orelha como prova

Prova de que queria estar surdo
E não cego e sensitivo
Mas como um falso mudo
Não revelei o amarelo como aperitivo

Queria eu a celsitude
Em cálidas cores
Mas o jardim, amiúde
Sentiu minhas repetitivas dores

O sangue está lá
Grudado na grama e sem pudor
E agora querem falar
Que depois de morto, fui grande pintor

Deviam se calar como o jardim
Que de luto se exaspera como ascetas
E os críticos que se dirigem a mim
Calem-se, pois calados são grandes poetas

O jardim se cala, mas minha arte, lancinante, GRITA!!!!!!!!!!

terça-feira, 16 de março de 2010

Sutilezas Entre Mente e Cérebro (Apolo e Dionísio)



E por que pensar que o cérebro é coercitivo? Não é o cérebro que age, não é a intuição, os impulsos nervosos: é a mente, a anfitriã de vossa Inteligência, e se há um limite na mente de alguém, que esse alguém não possa ser chamado de humano. Perscrutar-se no exercício da mente é interagir com os atos voluntários, porque o cérebro, ah!, o cérebro, é tão incapaz de controlar-se, é tão abstruso em suas razões premeditadas, que a mente, a nossa tão aclamada e singela Veritatis, que permeia entre as escolhas, é a imagem do mártir, do ser que confronta suas emoções: porque, para se ter um pensamento frio, é preciso ser quente, agir com torpor. E claro, os nossos encéfalos são uma das raridades da graciosa anatomia, mas o que importa, pelo menos até agora, não é anatomia de vossa cabeça, de vossa caixa craniana e da susbstância gelatinosa que há dentro dela: o que interessa é a alma. Largaremos o velho e singular conceito sobre alma. No mata-borrão de nossa essência há-de se ressaltar que o que deve ser absorvido é a relevância, e que a mente é o mata-borrão da mentira, e que o cérebro é o mata-borrão da verdade. A mente é o opum magnus do ser humano, abstrai-se de tudo o que faz mal, que é o mal, que é o involuntário, o impensado, e o cérebro é o que noz faz acossados por nossos instintos, medos e fraquezas. Que fique bem claro, que todos nós, sem acepção, possuímos um dom e uma dor. Se possuímos um dom, é porque trabalhamos com a mente, com a única parte apolínea em nós (sim, tal comparação é quase idêntica à idéia de Nietzsche sobre o artista), e que o cérebro é um Dionísio a priori comedido, mas basta um probleminha qualquer e toda e qualquer credibilidade desaparece, esvai-se em excessos, externando assim a nossa dor. E coitada da mente, que tentando continuar firme e erigida, encontra na persona dos seres uma luz infíma, e que tenta aumentar a brecha, e que sacrifica-se para aumentar o feixe de luz, enquanto o cérebro faz o contrário, num ato de perfídia (e se um cristão é abjurado, é porque ele agiu com a mente ou com o cérebro?).
E que fique bem claro, que há o lado direito e o lado esquerdo do cérebro: e que, assim sendo, o lado direito é o cérebro propriamente dito, porque age com emoção, é vil em seu cilício, fugidio da verdade, e o lado esquerdo é a mente, porque é o lado racional, e somente quem raciocina é quem treina a mente; e quem vive a observar pontos fixos na vacuidade da existência, pende para o lado direito; para o impulso, no risco de se tornar um animal. E eis que pergunto, então: qual instinto humano não é animal, grotesco? E questiono sim; isso porque fazer sexo qualquer animal faz, sentir a atração e "amar" um outro ser não é coisa da mente, é coisa do cérebro, por que estamos programados para reproduzir a espécie, e se calcamos tal contexto na máxima "crescei e multiplicai-vos" é porque derretemos a mente no fogo da escravidão histórica, na tradição quase obrigatória, e damos lugar ao verdadeiro déspota da humanidade: O CÉREBRO!

Cada um Tem Sua Ilha

Minha mente flutuava
Como ondas que se quebram em rochedos
E meu corpo se encontrava
Em outros mares, outros oceanos,outros tempos

Vamos nadar sem medo
Contra a corrente

Minha mente não suportava
A idéia de sobreviver num pequeno aquário
Então procurei uma imensidão
Uma ilha onde eu sou o corsário

Minha mente se afogava
Em valores inúteis de uma sociedade
Mas algo mais importante me puxou à superfície
E me mostrou uma beleza que não se encontra na cidade

Minha mente ganhou oxigênio
E aprendi enfim a nadar
Então nadei, me libertei
E voltei a flutuar

Vamos nadar sem medo
Contra a corrente

A Arte Está nas Vísceras


Verão de 1889. Oito horas da manhã. Mais uma vez a vida imitava a arte. Mas era de se esperar com o início do semestre: uma característica que tomava ares pervertidos e doentios. O cheiro fétido e pútrido alcançava até as mais insensíveis narinas, de estudantes abastados que estavam no ádito da prestigiada Universidade Vitruviana, localizada no centro de Veneza. Nem aqueles que dispunham do mais severo desvio de septo nasal ou estavam acometidos por um entupimento em suas narinas causado por uma rigorosa gripe escaparam de sentir o cheiro da morte, exalado por um animal devidamente esquartejado: um boi. À guisa de uma singela — e entendamos como “singela” um eufemismo estúpido e maniqueísta — homenagem, mais uma vez o maníaco mostrara-se um verdadeiro amante das artes. O decano lamentou-se:
— É-nos humilhante passar por isso por mais um semestre! — que fala arrojada para tal situação, não?
— Ora — irrompeu um estudante visivelmente jovem, cujas espinhas saltavam de seu rosto como enormes nódulos externos —, pelo menos nesse semestre ele foi criativo — humor negro era característica dos jovens ricos e jactanciosamente mimados. — No semestre passado ele cortou a orelha do professor James, enquanto este dormia, fazendo clara alusão à Van Gogh — e há de se ressaltar que o citado professor era odiado por todos da universidade, tanto pelos alunos quanto pelos funcionários.
Açodado como sempre, John Edward Thompson, nascido e nutrido na capital da Inglaterra, Londres, corria desesperadamente, a fim de não chegar atrasado em seu primeiro dia de aula. Os meneios de sua cabeça eram típicos de alguém perdido, volátil como o éter. Olhava pro lado e pro outro com o objetivo de descobrir a sala onde iria estudar, mas percebeu que ninguém estava em suas respectivas salas — e percebeu muito tardiamente, pois Edward — a partir de agora, vamos chamá-lo assim — era o tipo de pessoa extremamente inteligente dentro da sala de aula, mas fora dela, mais parecia um sonâmbulo, e acompanhado, desde a mais tenra idade, por uma taciturnidade de irritar qualquer um. Acometeu-lhe um asco provindo do mau cheiro que impregnava a universidade. Atravessou a multidão com facilidade, pois era esguio por demais, e encontrou o motivo pelo qual suas sensíveis narinas ardiam vigorosamente. .
Aprumou os óculos e olhou o boi com certa repugnância. Reparou que, com o sangue do animal, fora escrito no chão algo perturbador e irônico: “Sejam bem-vindos e tenham um bom semestre”. Edward retrocedeu os passos, com o objetivo de se distanciar da multidão. Já distante dos outros estudantes, pegou seu diário e escreveu: “Em meu primeiro dia de aula, chego e avisto um boi, com suas vísceras totalmente à mostra. Alguém capaz de fazer isso é execrável, mas também inteligente (qual psicopata ou maníaco não é, diário?)”. E sua agudeza artística ainda lhe permitiu lembrar, e, escrever: “Digo, inteligente porque se inspirou num quadro de Rembrandt, conhecido como O Boi Esquartejado”. Nesse instante, percebeu que, mesmo estando longe, havia um grupo de alunas que olhava incessantemente para ele, com sorrisos um tanto quanto... Convidativos. Coitado do rapaz; tímido e estático como uma porta, nunca reparara que era possuidor de uma notável beleza: cabelos cor de mel, olhos azuis como o lápis-lazúli, nariz aquilino, e um rosto proporcional, agraciado com o generoso formato que oscilava entre o quadrado e o triangular. Estava tão envergonhado que até esquecera do estranho “fato bovino”.
O decano, que estava no primeiro pavimento da entrada da universidade, acompanhado de uma complacência senil — devido aos seus quase sessenta anos — e desajeitada, passou a mão pela fronte suada, ajeitou os cabelos brancos como a neve, inclinou sua cabeça para o térreo, onde estavam os estudantes, e disse:
— Caríssimos alunos, peço-lhes desculpas pelo transtorno. Mais uma vez caímos no cilício de um maníaco; um desajustado; um doente mental. As aulas estão suspensas, haja vista que terei de tomar providências para limpar esta bagunça — referindo-se ao sangue misturado aos órgãos internos do boi. — Prometo-lhes que amanhã, as aulas terão seu esperado início. Vão para seus quartos ou passeiem pelos pontos turísticos desta linda cidade. Esqueçam o que aconteceu hoje. Tirem o dia para descansarem, principalmente os calouros, pois o primeiro semestre costuma ser tão decisivo quanto o último.
O tropel fremente de estudantes correndo e gritando de alegria por não ter que estudar naquela estranha, mas linda manhã de segunda-feira, incomodou Edward, pelo fato de ele ser um típico defensor da educação como sendo a base para a formação do ser humano, e aquela satisfação coletiva causada pelo fato de não haver aula causou-lhe náuseas. Alguns passaram por ele como se fosse invisível. Houve um violento esbarrão — Edward estava parado, refletindo num momento em que não deveria —, fazendo com que seus óculos caíssem no chão. Antes que se abaixasse para pegá-los, alguém já havia feito isso para ele: uma garota de cabelos castanhos, dona de um belíssimo corpo, apesar de escondê-lo sob roupas convencionais. Edward tentou arranjar forças para não gaguejar perante a perfeição humana, e agradeceu:
— Muito obrigado...
— Rebecca de La Vecciata — apresentou-se, interrompendo o rapaz.
— É... É... É... — pobre Edward, com seus já dezenove anos de idade e ainda não sabia conversar com uma mulher. Ela, percebendo a falta das palavras na boca dele, tentou puxar assunto, a fim de preencher a lacuna verbal de maneira simples, que foi perguntar-lhe o nome.
— Como se chama?
— É... — respirou fundo. — Meu nome é John Edward Thompson.
— Você é daqui?... Digo, você é da Itália?
— Não, eu vim de Londres.
— Você é inglês? — espantou-se. — Nossa! Eu sei que os alunos devem ter o domínio do italiano como pré-requisito para estudarem aqui, mas parece que você nasceu na Itália, de tão bem que fala esse idioma.
— É que estudei bastante...
— Bom... Olhando para você — analisando-o da cabeça aos pés —, eu vejo uma pessoa que vive comendo os livros.
— E vivo mesmo — e sorriu, mesmo que infimamente.
Rebecca era simpática e extrovertida, o que causava em Edward uma espécie de inferioridade em relação à capacidade de se comunicar com as pessoas. Sentiu admiração por ela, não obstante de sentir uma inocente inveja também. Mas, mesmo assim, centrou-se no objetivo de conseguir levar o diálogo adiante, e estava ciente de que deveria treinar sua dialética, pois o seu curso na universidade lhe cobraria isso.
Foram caminhando lentamente, em passos sincronizados. Totalmente fora da universidade, externaram suas dúvidas e opiniões.
— O que você veio cursar? — perguntou Rebecca.
— Filosofia.
— Não acredito... Eu também. Acho que seremos bons parceiros de estudo
Esta frase soou como um impropério nos ouvidos dele. Uma companhia feminina para acompanhá-lo em seus estudos era algo que o assustava, devido a sua alarmante timidez. Percebeu que não tinha como escapar de tal situação, e como não queria parecer grosseiro, simplesmente balançou a cabeça, como se estivesse concordando com Rebecca. Olhou para dentro de si, encarou sua titubeante personalidade, e decidiu por cessar-fogo. Em alguns minutos, os dois limitaram-se ao silêncio, mas numa atitude incomum, Edward iniciou um diálogo um tanto quanto peremptório, no que diz respeito à universidade e ao maníaco que a afamava de forma vil e sangrenta.
— Universidade Vitruviana... Sugestivo nome, não? — disse ele.
— Com certeza! Esse nome caracteriza bem a universidade, que visa ensinar o modo de como se deve buscar a perfeição e a simetria, fazendo com que a arte seja o fundamento e o modelo de nosso tempo.
— É um instituto muito criterioso, e tal nome caiu como uma luva. O Homem Vitruviano é o Cânone das Proporções, sem dúvida alguma. Vejamos que tal desenho é o pináculo matemático do corpo humano.
— E ressaltemos também que essa obra, como tantas outras, impulsionou e conduziu ao Renascimento italiano. É infundada a possibilidade de nos transformarmos em artistas de verdade sem ao menos absorvermos o contexto renascentista. Afirmo que Da Vinci é o mestre dos mestres, o polímata dos polímatas, sobrevivendo nos dias atuais e calando até o mais carrasco dos iconoclastas.
Edward meteu a mão no bolso lateral de sua calça de linho, puxou um pedaço de papel, e disse:
— Escuta, Rebecca, o que vou ler. Pode parecer idiota... Mas é o que penso.
— Não seja duro consigo mesmo — exclamou Rebecca complacentemente. — Eu acho que você é um daqueles filósofos que têm pensamentos maravilhosos, e que são modestos por natureza. Conjeturo que você deve estar longe de ser um cabotino.
— Filósofo-poeta!
— O quê?
— Eu sou um filósofo-poeta; ou ao menos tento ser — e sorriu tão amarelo quanto o sol que iluminava Veneza brandamente.
— Certo... Filósofo-poeta... Leia... Estou curiosa!
E ele leu, com o dedo indicador em riste, apontando para o céu, e o cotovelo dobrado num ângulo de noventa graus, movendo o antebraço como se move um pêndulo, uma característica que o perseguia sempre quando lia, e que iria acompanhá-lo também nos seminários da faculdade de filosofia.
— “A arte tem uma estranha maneira de chegar até nós: geralmente torna-se íntima por meio de infortúnios, intempéries, e não alegrias, ou, se fosse possível, com um mínimo de decoro. A arte assemelha-se às vísceras de um...” — interrompido por Rebecca, cujo cenho expressava estreita dúvida, o que fê-la completar a frase de Edward.
— Boi? Por acaso você está se referindo ao boi esquartejado?
— Sim.
— Você fala isso a título de ilustração?
— Não.
— Poderia explicar o sentido de sua frase?
— Rebecca, ouça... — ah, sua fala pausada, típica e intrínseca àqueles que sempre pensam antes de falarem. — Um artista de verdade deve cortejar a arte como corteja com um boi, como sendo seu alimento. Mas o que torna o pensamento renascentista tão belo e perfaz o seu notório hedonismo é o seu estômago forte por reconhecer as vísceras como sendo “a” arte, matéria desnuda e sem pudor, fora do corpo robusto. É nas vísceras que encontramos a verdade. Um artista pode provar do leite fresco, retratá-lo como natureza morta e se vangloriar por isso. Mas, afirmo a você, que aqueles que não têm nojo de apreciarem o que está dentro do boi, ultrapassam a linha da normalidade artística e se tornam gênios, como Rembrandt, e claro, Da Vinci.
A jovem se surpreendeu com um pensamento tão genial, e, genioso — existe uma sutil diferença entre “genial” e “genioso”. Ficou feliz em saber que pelo menos alguém naquela manhã dava a merecida importâncias à arte. Não que os outros estudantes fossem desinteressados, até porque, para entrar na Universidade Vitruviana, era necessário dispor de certa superioridade intelectual e um currículo invejável antes mesmo de tentarem a sorte como candidatos e serem selecionados para preencherem a tão sonhada vaga numa das faculdades de artes. O diferencial, o diabo que morava na mente de Edward — oh, claro, o diabo é o pai dos detalhes, principalmente os artísticos — era justamente a capacidade de apreciar as vísceras, e não depreciá-las, como muitos fazem.
— Você quer dizer que todo artista deve ser uma espécie de açougueiro? — perguntou Rebecca.
— Bom... É por aí, Rebecca, é por aí...
— Ah, John — oh, a intimidade de chamá-lo somente pelo primeiro nome atingiu-lhe o repressivo ego freudiano, como um tiro à queima-roupa —, acho que açougueiro é o que não falta em Veneza. Veja que, a pessoa que fez aquilo hoje, aquela atrocidade, não é lá muito digna de empunhar a Espada do Renascimento. Decerto, um ser humano assim é tão devoto à sua arte que deseja transparecê-la através de sangue e criatividade. Esse sim é um açougueiro de marca maior, que acabou deixando a universidade mais conhecida pelo clima lúgubre que pelo excelente ensino.
— Estou certo disso.
— Por falar em açougueiro... Estou com fome. Vamos até os canais, lá tem um restaurante maravilhoso.
— Tem vísceras no cardápio? — o rapazote arriscou uma quase piada.
— Credo, John, que nojo! Está cônscio de quer comer isso?
— Rebecca, você não deveria estudar aqui, pois não tem alma de artista!
— Por que diz isso, filósofo-poeta? — falando num tom de entre aspas. — Será que é porque não quero comer uma tripa no café da manhã?
— Exatamente! Você não quer degustar das vísceras de um boi no sugerido restaurante.
Ela riu de súbito, não negligenciou uma piada tão infame — aí é que está a questão: Rebecca estava rindo dela, a piada, ou dele, o desajeitado e inconscientemente charmoso John Edward Thompson?
Foram então até o Renaissance Restaurant, localizado às margens do Grande Canal — o maior e mais importante canal de Veneza — que mais parecia uma igreja tipicamente italiana, cuja pompa e um sem-fim de janelas ornamentadas davam o ar da graça. Comeram macarrão — sim, macarrão, ou espaguete, no café da manhã —, nada de fígado ou moela. Não comeram como verdadeiros artistas, mas como dois jovens esfomeados. Por fim, discutiram filosofia até um pouco antes do anoitecer, no belíssimo crepúsculo, cujo céu vermelho-alaranjado iniciara um banquete. Não era um banquete qualquer: estavam discutindo sobre o livro de Dante Alighieri, que possui este sugestivo nome. Dois estudantes de filosofia, vertendo dialética nos canais de Veneza, na mais sinérgica metalingüística, enquanto as moscas ainda visitavam a universidade, ainda impregnada com o cheiro da “morte bovina”, apesar de que, os funcionários já haviam retirado o animal de lá há muito tempo. Prova de que, a arte, assim como o odor do boi, impregna.

domingo, 14 de março de 2010

A Paixão Segundo G.H

É um enredo banal. Mas em sua essência, há o espaço necessário para Clarice Lispector atingir o píncaro de sua maior obra, e através de linfa e dúvidas, ultrapassa até mesmo o seu romance Água Viva. A personagem central, G.H, é a personificação do ser humano simples, reto, vivendo no corredor abafadiço das contas, do condomínio, dos filhos, dos afazeres domésticos. Ao despedir a empregada, G.H vê-se obrigada a arrumar a casa; mas nem por isso entrega-se ao fardo de ser completa "dona de casa". Sair da rotina, viver no sentido mais literal da palavra, fazer tudo ao contrário do que já fez: esse é o seu plano (e quem sabe, comer uma barata, provar o sabor de sua linfa num ato de ascese não seria o ato que contrariasse uma vida tépida e levasse-a ao palácio da sabedoria de William Blake?). E prova a barata, saboreia o animal, e sem ojeriza, sem pudor, saboreia também a vida, e execra os andares do prédio, as roupas por lavar, a simplicidade mórbida, a jactância dos seres vazios, e explana sua vontade (sua felicidade, da qual afirma G.H : "é uma felicidade difícil, mas chama-se felicidade"). E façamos o esperado, ou provamos o sabor agridoce da barata, o néctar dos deuses? Ou vivemos na mesmice ou vivemos como G.H? Viver como a personagem central é viver no sentido mais fantástico possível, sem limitações banais, sem obrigações, nem filhos, nem casamento.
Em suma, sê como G.H; caso contrário, aguentai a o cotidiano pungente e as limitações que te afligem: cuidado para não te tornar o verdugo de ti próprio! Ficai alerta, barata é o que há de mais numeroso neste planeta (e elas, assim como nossas dúvidas, sobrevivem a qualquer intempérie).

"Sim, a barata era um bicho sem beleza para as outras espécies. A boca: se ela tivesse dentes, seriam dentes grandes, quadrados e amarelos. Como odeio a luz do sol que revela tudo, revela até o possível. Com a ponta do robe enxuguei a testa, sem desfiar os olhos da barata, e meus próprios olhos também tinham as mesmas pestanas. Mas os teus ninguém toca, imunda. Só outra barata quereria esta barata."
(Trecho do livro)

sexta-feira, 12 de março de 2010

O Humor Perde a Graça: Morre o Cartunista Glauco


A madrugada do dia 12 de março de 2010 será inesquecivelmente triste para os fãs do criador de Geraldão. Glauco Villas Boas, que já gozava dos seus 53 anos, foi morto durante uma tentativa de evitar o suicídio de seu algoz, no Bairro Jardim Santa Fé, em Osasco. Assim como Glauco, Raoni, filho do cartunista, também foi baleado, após ter chegado da faculdade e negociado com Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, um estudante universitário de 24 anos que fazia parte da igreja Céu de Maria, fundada pelo cartunista. Raoni morreu a caminho do hospital Albert Sabin, mesmo hospital onde Glauco morreu aproximadamente às 02h00, meia hora depois de os familiares terem dado entrada no pronto-socorro. Cartunista inteligente, Glauco ficou conhecido por ser o criador das famosas tiras do já citado Geraldão, além de Casal Neura, Doy Jorge, Zé do Apocalipse e Dona Marta. Trabalhou também como redator da TV Pirata e do infantil TV Colosso. Pela primeira vez, os fãs de suas tiras e charges não terão motivos para sorrir. Mas resta o consolo do excelente trabalho que deixou, trabalho esse que ficará eterno junto com suas memórias.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Elogio da Loucura


A sociedade dos séculos XV e XVI foi analisada minunciosamente por Erasmo de Rotterdam. Ao observar as pessoas, seus modos, atitudes, concluiu que são todas loucas. Elogio da Loucura, além de ser uma sátira, é também uma assertiva que confere a loucura a todo ser humano, sem exceção. É um opúsculo que foi elaborado em poucos dias, onde a escrita perspicaz e arguta de seu autor externa tipos e espécies de desatino. Aliás, o livro foi escrito em primeira pessoa, narrado por ninguém mais ninguém menos que Loucura, a personagem vaidosa e inconscientemente conclamada pelos seres humanos. O mundo é dominado, em sua essência, pela narradora do livro. Sem modéstia alguma, Loucura afirma que é ela a própria alegria, êxtase, satisfação, eterno sorriso do homem. O interessante nessa obra é a forma com que ela age em cada tipo: no povo, no sábio, no poeta, no escritor, no filósofo, na criança... Somos loucos, então? Segundo Erasmo e a própria Loucura, sim! Não se é um doidivanas por acaso: por impulso, descuido ou curiosidade, nomeamos Loucura nossa rainha, nossa deusa; e nós, então, somos seus vassalos, escravos...

"Minha opinião, ao quanto me parece, Loucura, é que quanto mais alguém é louco, tanto mais é feliz, contanto que se mantenha no tipo de loucura que é meu domínio, na verdade domínio bem vasto, porquanto não há sem dúvida, no gênero humano, um só indivíduo que seja sábio a todo momento e desprovido de qualquer espécie de loucura. Subsiste aqui uma diferença. Um homem que tomasse por abóbora uma mulher possui numerosos amantes, acredita e afirma, cheio de orgulho, que ela ultrapassa em fidelidade a própria Penélope, a esse ninguém de chamá-lo de louco, porque esse estado de espírito é comum a muitos maridos."
(Trecho do livro)

Uma Temporada no Inferno: a Poesia Maldita de Arthur Rimbaud

Para quem gosta de poesia simbolista - prosa poética nesta obra - e uma dose cavalar de libertinagem, o poeta "maldito" Arthur Rimbaud brinda-nos com uma boa porção de veneno - "A violência do veneno torce meus membros..." - numa estranha, envolvente, brumal, e sobretudo, belíssima e onírica viagem às entranhas de nossos mais belos medos e nossas mais colossais vontades reprimidas. Sagacidade? Não: é o preço que se paga quando se é livre; mas sobretudo, é a liberdade de um dos maiores poetas que já pisaram neste planeta, que hoje carece de um maldito como ele - e para quem duvida da genialidade do prodígio, ele foi o preferido de ninguém mais ninguém menos que Vinícius de Morais. O livro "Uma Temporada no Inferno" é um dos mais preconizados pelos poetas - mesmo para os que não são poetas, mas que prezam pela poesia de extrema qualidade, vale a pena se deleitarem nessa "leitura infernal".

"Engoli um senhor gole de veneno. - Três vezes abençoado seja o conselho de quem me deram! - As entranhas me ardem, A violência do veneno torce meus membros, me torna disforme, me prostra. Morro de sede, sufoco, não consigo gritar. É o inferno, a pena eterna! Queimo como deve ser. Anda, demônio!"
(Trecho do livro)

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Processo: o Realismo Fantástico de Franz Kafka

“O Processo” é obra máxima de Franz Kafka. O universo Kafkiano é peculiar. A grosso modo, é um universo “doentio”, por possuir aspectos humanos, apesar de não ter sido exatamente essa a sua intenção. Nessa narrativa, Josef K, personagem central da obra, é sentenciado, sem justificativa aparente, no dia de seu aniversário de 30 anos. Kafka dirige-se a Josef K apenas como K. em sua obra, o que talvez fosse uma forma de denominar K como uma abreviação de Kafka. A atmosfera do livro faz-se de forma humanística, num enredo de grande ação, tanto física quanto mental.
Josef K. é o segundo funcionário mais importante do banco onde trabalha, e não obstante das preocupações de seu trabalho, tem que lidar com um processo judicial onde ele é o réu, e sem saber o porquê de tal acusação, mergulha em outro processo: o psicológico. O livro retrata de personagens cotidianos, como a dona da pensão onde ele mora, a senhorita Grubach, de “curiosidade verdadeiramente senil”; Fräulein Bürstner, moça jovem que mora na mesma pensão que K. e que deposita nele certa atração. O autor enfatiza também vários advogados sem muito compromisso com K. O grande destaque fica para o repressivo Tio Karl. Analisando profundamente, o despotismo de Karl pode ser comparado com o pai do autor, no qual Kafka identificava aspectos tirânicos.
O personagem K. serve como um elo entre a corrupção e insegurança que existe no tão “correto” Estado de Direito. É uma severa crítica às leis que funcionam apenas no papel, mas que na realidade servem apenas de pretexto para controlar as pessoas que não possuem defesa de qualquer natureza. Esse é o universo Kafkiano: crítico, igualando-se à filosofia existencialista dos antigos filósofos gregos, em especial a do sofista Sócrates. Um livro que demonstra não uma causa sem efeito, mas um efeito sem causa. Formado em Direito, Kafka exercia suas funções no mundo jurídico de forma exemplar, sendo inclusive promovido duas vezes.
Porém, sentia-se insatisfeito com a profissão, que lhe tirava um grande tempo em que podia se dedicar aos livros, chegando a afirmar que odiava “tudo aquilo que não é literatura”.Talvez a obra seja uma ironia àquilo que tanto fazia apenas por obrigação, e não por prazer. Ele distorce o mundo jurídico, criando um ar um tanto quanto non sense, fazendo o personagem principal passear sobre as situações mais ilógicas possíveis, em ambientes sujos e abafados, diferentes dos grandes tribunais de um enredo lógico. Assim é Kafka: surreal por fora, realista por dentro.

terça-feira, 9 de março de 2010

A Religião nos Limites da Simples Razão

Immannuel Kant, um dos maiores filósofos da história, sempre andou de mãos dadas com a razão. Depois de elaborar "Crítica da Razão Pura" e "Crítica da Razão Prática", Kant caminhou em caminhos peremptórios e dogmáticos, sempre agindo de boa-fé, ou seja, com sua razão, e assim, engendrou e publicou "A Religião nos Limites da Simples Razão". Kant, deliberadamente, agiu como um iconoclasta, derrubando ídolos e fantasias contidas na religião (anos depois o mundo presenciaria o surgimento do "senhor das marteladas filosóficas": o autor de "Crepúsculo dos Ídolos": Friedrich Nietzsche, o qual foi decisivamente influenciado pela filosofia "desmascaradora" de Kant). O livro divide-se em quatro partes, onde cada uma delas trata de assuntos fundamentais e instigantes, como o principio do bem e do mal e a moral dentro da religião. Se interpretarmos os trechos abstratos do livro de forma concreta, poderemos supor que Kant flertara com o ateísmo ou que, através de um adagiário bíblico, tenta desmistificar a bíblia (e através da razão, Kant acaba ridicularizando a religião, e mesmo que não fosse essa a sua intenção, a impressão "irônica e mordaz" contida nessa obra é tão evidente que faz o rei Frederico Guilherme II, da Prússia, obrigá-lo a não escrever mais uma linha sequer sobre religião). O fato de Kant afirmar que a religião é um êxtase dos iludidos e uma arma poderosa para ser usada por homens de mau caráter o torna um dos filósofos mais práticos (ele distancia-se da filosofia teórica dos gregos). Kant nunca deixou claro se era ateu ou não, apesar de seus constantes ataques à igreja, mas, se levarmos em conta que Kant optara por viver no ermo, sozinho e pragmático durante toda sua vida, execrando as atitudes genuinamente humanas, e, o mais impactante, não constitituindo famíla e tampouco casando (alguns biógrafos afirmam que ele era assexuado, ou seja, não tinha interesse por relações sexuais), observamos que o filósofo afastara-se de tudo e de todos, pois "tudo e todos" era creditado como criação de Deus, e talvez viver no cerne da criação divina contrariasse sua filosofia calcada na razão. Em suma, para Kant, a religião é uma superstição boba e infantil que se fantasia numa espécie de textos homéricos e ilusórios. Será que Immannuel Kant tem razão? Se não podemos provar se ele estava certo, tampouco podemos negar a lucidez e a sobriedade de seus pensamentos (e por isso, a existência de Deus passa a ser questionada). Para Nietzche, Deus estava morto, o que traduzia a influência de Kant na sua formação como filósofo. Então, afirmar a inexistência (Deus nunca teria existido) ou a morte (Deus teria existido, mas morrera) de Deus é agir nos limites da simples razão?

"Já é um começo da soberania do princípio bom e um sinal que "o reino de Deus está chegando entre nós", mesmo se forem somente os princípios da constituição desse reino que começam a tornar-se públicos, porque é no mundo do entendimento que as causas, que somente elas podem produzi-lo, tomaram raiz de maneira universal, embora seu inteiro desenvolvimento fenomenal no mundo sensível esteja ainda em retrocesso num afastamento imenso."
(Trecho do livro)