quinta-feira, 18 de março de 2010

Lágrimas de um Psicólogo



Eu estava ébrio. Sentia meu corpo flutuar. Uma velha música ecoava em minha cabeça: era Breathe, do Pink Floyd. Eu precisava respirar, e além do mais, estava desiludido. Eu estava cansado de toda a monotonia do meu ser. As portas pareciam não querer abrir mais, e nesses casos eu simplesmente ingeria uma bebida alcoólica e ouvia uma boa música em meu consultório. Fiquei triste sem um motivo aparente. Provavelmente eu estava cansado de agir como um ser humano exposto às verdades que afligem a mente — e essa é uma das desvantagens de ser um psicólogo. Eu sempre fui frio e racional, mas naquele instante algo quente e irracionalmente emotivo me pôs a chorar como um bebê. Logo eu, que depois da infância não chorei uma única vez. Saí do consultório no finzinho da tarde e fui a um bar mais próximo. Eu sempre admirei os bêbedos, pois eles costumam falar a verdade. Talvez eu tivesse chorado por ter escondido uma verdade de mim mesmo, e uma boa dose de uísque poderia revelar a verdade que encontrava-se oculta em minha psique.
Sentei-me à mesa mais distante que avistei. Pedi um uísque com duas pedras de gelo. Quando o garçom trouxe a bebida, olhei profundamente as pedras de gelo, e pensei: “Eu sou como uma pedra de gelo dentro do uísque, pois sei que por mais frio e sólido que posso parecer, algo acaba me liquefazendo, e esse algo é que pode me assustar”. Eu bebi e me senti leve; leve como pluma numa ilha edênica. Um antigo cliente, que por acaso apareceu por lá, sentou-se à mesa, e disse:
— Olá, doutor, há quanto tempo! Vejo que está um pouco alegre. É bom relaxar às vezes, não é mesmo?
— Caríssimo Ulisses, creio que consegui lhe ajudar bastante, está mais alegre e menos desinibido.
— Pois é, doutor, o senhor é muito bom no que faz.
— Não sei... Às vezes acho que não.
— Por que acha isso?
— Também não sei. Estou desiludido com algo.
— Doutor, eu não sou psicólogo, mas se quiser conversar...
— Conversar? Realmente, eu ouço mais do que falo. Não gosto de expor meus sentimentos.
— Dê uma dica então...
— Ao invés de falar, vou improvisar um poema.
— Estou ouvindo!
Naquele momento me deixei levar pelo efeito do álcool e improvisei um poema com os olhos caídos e minhas mãos gesticulando, como um bom bêbedo. Improvisei, e declamei pausadamente:

Um certo olhar ao horizonte
Um raio solar que rasga e acalma
Que ofusca e aporta em minha alma

Uma praia deserta no oceano
Onde sempre avisto nuvens verdadeiras
Nas tristes tardes derradeiras

Inconstante é o meu ato de viver
A mesma inconstância que mata
É como o pão que é de graça... Desgraça
Qualquer ato que atrai minha percepção
Atrai também minha desconfiança
Porque sei que é ilusão, sei que é ilusão

Etéreos brilhos enluarados
N’uma noite em que eu, tresloucado, não consigo dormir
Nem pensar, e quem dirá agir

Eu envergonho a terceira lei de Newton
Quando apanho da vida em sua mais cruel ação
Sequer tenho ânimo para esboçar uma reação

A verdade me seduz nua e crua
Mas eu ando atrevido nas trevas que eu próprio propus
A ilusão é treva que mantém minha questionável luz

Terminado o improviso, Ulisses, que estava com a boca sedenta de opiniões, falou:
— Doutor, estou vendo que está com os pensamentos perturbados. Não me leve a mal, mas acho que está fugindo de alguma verdade.
— Você é bastante esperto, Ulisses. Na realidade, estou desiludido com algo que não sei ainda. Talvez a tal verdade que você mencionou faça parte dessa desilusão. Ulisses, poderia fazer um favor para mim?
— Claro!
— Pode me deixar um pouco sozinho? Não que sua presença seja desagradável, muito pelo contrário; mas hoje admito apenas a mim como companhia. Preciso me encarar para descobrir o que tanto me ilude.
— Compreendo.
— Muito obrigado... Peço desculpas por praticamente expulsá-lo daqui — falei com sorriso amarelo.
— Não se preocupe, doutor, eu entendo perfeitamente o seu pedido. Às vezes é bom ficar sozinho, pensar um pouco... Até logo!
— Até, Ulisses!
Ele se foi. Ulisses era daqueles sujeitos que não se importavam em serem rejeitados, como eu o tinha rejeitado naquela noite. Ele se acostumara às exclusões que a vida arrebatava em sua pessoa. Órfão, abandonado pela esposa, azarado ao extremo... Numa consulta Ulisses confessara a mim que vivia por viver. Perdera todas as forças em meio a tantas tentativas frustradas. Ele fizera uma irrupção em meu consultório, quando chegou e desafinadamente cantou Goodbye Cruel World, do Pink Floyd. Estava fazendo alusão ao seu desejo de suicídio. Eu não o curei, apenas mostrei-lhe um atalho para ser menos infeliz. Falei-lhe que na falta de um prazer, procurasse algo genérico e artificial, mas que enganasse seu cérebro. Objetei também que tivesse cuidado, pois poderia enganar o cérebro, mas jamais a mente. Não procurou outra esposa, pois artificialmente mantinha relações com prostitutas. Não se preocupava com seu azar, pois começara a tratar seus “karmas” com ironia, e assim ia levando sua arrastada vida.
Fiquei no bar mais ou menos uma hora depois da saída de Ulisses. Eu bebia e fixava meu olhar no copo. Pedi cerveja depois do uísque, o que foi uma mistura fatal. Comecei a lembrar de fatos que surgiam abruptamente, e numa resposta imediata a essas lembranças, eu perdi a noção de tempo e espaço. Eram lembranças vagas, sem significado algum. A imagem de Thor, o deus do trovão, era algo que me fascinava, e tal figura mitológica flutuava em minha mente. Mas o que significava a imagem de Thor naquele momento? Interessante notar que mesmo um psicólogo não tem resposta para tudo. Jamais precisei de um psicólogo, sempre encarei os problemas sozinho, sem medo. A vantagem da profissão é exatamente quebrar o muro que separa o indivíduo da solução; e ao longo desses anos aprendi que, às vezes, a solução é mais dolorosa que o problema. Mas é como eu digo: “Não há cura sem dor”. A dor é a melhor amiga do homem, e sabem por quê? Porque a dor alerta. A felicidade anestesia, e geralmente as anestesias não aliviam nossas dores, apenas nos proporciona uma falsa sensação de alívio. Ledo engano o nosso. Mas o que importava pensar dessa maneira naquele instante, onde eu estava totalmente anestesiado pelo excessivo consumo de álcool? Eu estava começando a gostar de ser enganado, anestesiado.
Agradeci ao garçom pela anestesia — ele me olhou perplexo quando pronunciei esse termo, transformando a palavra “anestesia” em uma metonímia para a palavra “álcool” — e paguei a conta. Iniciei um passo reto, outro nem tão reto, e fora do bar, meus passos estavam completamente tortos. Meu corpo estava quente, apesar do tempo frio. Eu estava me sentindo estranho; completamente fora de mim. A lua cheia brilhava, e me fascinava de tal modo que preferia estar lá, passeando sobre suas crateras e flutuar através de sua pequena gravidade. Mas eu tinha que me contentar e manter meus pés na superfície terrestre, onde nada flutua, apenas cai, matando assim os sonhos de minha humanidade auspiciosa.
Quando cheguei no prédio e subi os degraus que levam ao consultório, meus passos encaravam cada degrau como um martírio, e isso porque o consultório fica apenas no segundo andar. O consultório também é minha moradia; um apartamento aconchegante, sem muitos móveis, apenas uma estante com vários livros, uma escrivaninha e um caderno onde anoto as análises que faço nos pacientes, e claro, um divã. Cheguei no apartamento e percebi que a porta estava aberta. Estranho, eu tinha quase certeza que havia trancado a porta. Entrei e percebi que havia uma pessoa sentada em minha cadeira. Surpreendi-me quando percebi que o inesperado visitante estava de costas, que mudara a posição da cadeira para que eu não o visse. Fiquei curioso.
— Olá! Quem é você? — perguntei.
— Não quero falar meu nome ainda, doutor.
— Como entrou aqui?
— A porta estava aberta e pensei que o senhor estivesse aqui. Vi que não estava, mas mesmo assim preferi esperar, pois meu caso é urgente.
— Bom... Quer fazer a consulta agora mesmo?
— Sim!
— Então, sente-se no divã e passe a cadeira para que eu possa consultá-lo.
— Não, doutor, eu não quero mostrar meu rosto!
— Entendo... Pois bem, vou ficar no divã para conversarmos.
— Obrigado, doutor.
Eu não sentei no divã, eu me deitei devido o cansaço causado pela bebedeira. Eu estava ébrio, mas mesmo assim resolvi conversar com o misterioso cliente.
— Em que posso ajudá-lo?
— Doutor, ultimamente ando perdido, sem rumo, entende?
— Perfeitamente.
— Desde o meu nascimento, percebi que a vida não foi feita para pessoas como eu.
— E por quê?
— Porque sou fraco. Sempre me senti forte, mas um dia percebi que não era tão forte assim.
— Explique melhor!
— Sabe quando uma rocha é derretida pela lava de um vulcão?
— Sim.
— Eu era a rocha, e minha vida a decepcionante lava.
— Por favor, seja mais objetivo!
— Eu sempre me senti inalcançável, intocável pelas tristezas e amarguras da vida. Nasci numa família rica, e nada me faltou até agora.
— E por que se sente fraco nesse momento?
— Dinheiro pode dar poder, mas não dá felicidade. O dinheiro até proporciona felicidade, mas é uma felicidade artificial, parcial, e não integral. É falso!
— Quando foi a primeira vez que você se sentiu dessa maneira?
— Há pouco tempo. Percebi que nunca tive carinho dos meus pais. Eles nunca tiveram tempo para mim, pois estavam sempre cuidando dos negócios da família.
— Quer dizer então que nada lhe falta em relação à vida material, mas em sua vida sentimental encontra-se um grande vazio que o dinheiro não preenche?
— Exato, doutor. Eu nunca liguei para as questões sentimentais, e inclusive achava uma besteira ficar pensando em assuntos que exigem uma sensibilidade que enfraquece um homem austero que outrora já fui. Mas ultimamente as carências de minha pessoa surgiram à tona.
— Se me dá licença, vou até a cozinha beber água. Aceita?
— Não, doutor, muito obrigado.
Eu fui até a cozinha, e ebriamente peguei uma jarra com água gelada. Naquele momento, tal era a importância da água que a comparei com o Rio Nilo. O cliente estava lá, absorto em recônditos pensamentos. Era uma criatura soturna, alvacenta e sem vida. Bebi a água com tanta vontade que meus goles pareciam libertar a minha psique duma sede que consistia em viver a vida plenamente. Horas antes, o meu estado flébil havia contornado minha pessoa em simples célula viva. Mas eu cravei o aço no meu peito, e qualquer sentimento aprazível e delicado me tornara acre. Retornei à sala e continuei o fastidioso diálogo:
— Muito bem, amigo, onde paramos? — perguntei, fingindo-me de esquecido.
— Paramos em minhas carências... Sabe, doutor, sinto-me atenuado em meio a tantas alegrias que a vida proporciona.
— Explique!
— Comprar um carro novo é melhor que receber um caloroso abraço?
— Creio que não.
— Saiba, doutor, que tenho um carro novo em minha garagem física, mas nenhum abraço em minha garagem espiritual, compreende?
— Sim!... Você precisa parar de ver as coisas!
— Como assim?
— Você precisa aprender a sentir as coisas. Amar uma bela mulher pode ser bom para você!
— Doutor, creio que está se contradizendo. Ulisses é meu amigo, e o senhor o
aconselhou a manter relações com prostitutas ao invés de amar uma bela mulher.
— Mas com Ulisses é diferente, ele se decepcionou com a traição de sua ex-esposa. Você já foi traído?
— As mulheres com quem já me relacionei não estavam interessadas em minha companhia, mas em meu dinheiro. Quer traição maior que essa?
E naquele instante eu me via a mercê de minhas próprias contradições. Um breu se instalou em minha concepção acerca daquela situação. Resolvi seguir adiante.
— De onde conhece Ulisses? — era muita coincidência meu paciente de quase meia-noite conhecer Ulisses.
— Isso não importa agora, o que importa é o meu total desprezo pela minha efêmera felicidade. Transar com prostitutas é um prazer instantâneo, diferente de fazer amor com uma mulher real. As prostitutas são deusas, e tudo que é devidamente mitológico é irreal. As mulheres reais não são endeusadas porque existem, e suas belezas podem ser sentidas, tocadas num completo ato de desilusão. Eu nunca me envolvi seriamente, apesar de já ter me apaixonado pela mulher que outrora imaginei ser a ninfa dos meus sonhos, e eu fui traído justamente por tê-la endeusado com fogo-fátuo.
— O que é o amor para você?
— É algo apenas imagético, pois eu nunca senti um amor verdadeiro.
— O que significa a sua família para você?
— Uma corja estupidamente centrada em poderes aquisitivos.
— Seu pai?
— Ditador!
— Sua mãe?
— Conformada!
— E você; como se vê perante o espelho?
— Um deserto infinitamente envolto em ausências de todos os tipos, onde um afã de frivolidades agrega-se em cada célula do meu corpo.
— Perceba, meu caro, que o deserto, apesar de ser considerado praticamente incapaz de sustentar vida, esconde valiosos minerais e uma beleza raríssima. Você precisa encontrar o oásis dentro de você!
— Certo, contanto que pare com esse método de associação livre... É meio ultrapassado e Freud não funciona em mim.
— Vejo que conhece um pouco de psicologia...
— O bastante para saber quando estou sendo testado.
O diálogo estava tomando forma, e, pasmem, uma forma desafiadora para ambos.
— Você é esperto! Vejo que é conhecedor de várias coisas, apesar da ingenuidade.
— Sim, a natureza me agraciou com certa astúcia. Mas ao mesmo tempo inseriu em mim uma ingenuidade que me priva da realidade. Ajo com meu lado cognitivo, mas caminho absurdamente com meu lado límbico. Ao mesmo tempo em que tenho um raciocínio lógico, tenho também um modo cavernoso de agir. Eu sou um moderno homem das cavernas!
— Pare de se malograr!
— Não sou eu, é a minha natureza.
Naquele instante me pus a pensar: “As contradições fazem parte do cotidiano da maioria das pessoas. Como pode ser feliz o indivíduo que vive em conflito com as próprias emoções? Ao que me parece, a mentira proporciona uma falsa felicidade, enquanto a verdade proporciona uma verdadeira infelicidade. Atrevo-me a dizer que, por trás de cada alegria esconde-se uma tristeza; por trás de cada tristeza esconde-se a verdade. O paciente, sentado de costas à minha frente, levantou-se, e sem virar para minha frente, sentou-se no chão em posição de lótus.
— Você pratica yoga? — perguntei.
— Sim!
— O que significa essa posição?
— Eu tenho insônia, e essa posição é benéfica para mim.
— Certo... Desde quando você pratica yoga?
— Aproximadamente um ano... Sabe, doutor, estou começando a estudar os costumes orientais, pois os costumes ocidentais baseiam-se apenas em uma doutrina...
— Que doutrina?
— Dinheiro! Além do mais, eu recomendo yoga para o senhor. Estou sendo arrogante?
— Não... Eu até concordo com você. A filosofia oriental é algo que também me fascina, mas para mim serve apenas como embasamento teórico...
— Devia praticar essa filosofia, é tão benéfica...
Eu me calei por alguns instantes e comecei a processar em minha mente: “Quem afinal de contas é o psicólogo e quem é o paciente?”. Esse sujeito estava exercendo um papel que condizia perfeitamente com o meu, e para que não se invertessem os papéis, eu comecei a questionar, pois geralmente sou eu quem questiona:
— Diga-me: você se sente sozinho?
— Viver no ermo é paz para mim, pois sem as intervenções humanas é que posso pensar internamente. Mas sou infeliz graças a essas intervenções que sofri ao longo dos anos. Desde o primeiro dia na escola percebi que os seres humanos eram ineficientes perante a verdadeira intenção da vida.
— E qual seria essa intenção?
— Viver! Simplesmente viver! Gradualmente fui sendo puxado pelos ineficientes. Drogas, bebedeiras, promiscuidades, ganância e tudo o que me afastou da verdadeira intenção da vida foi culpa do vazio que sempre senti dentro de minha família. Sabia que não pratico nenhum ato sexual há um ano, incluindo masturbação?
— E por quê?
— Porque é sujo. Os órgãos sexuais carregam impurezas espirituais. Por isso eles ficam escondidos. Para mim, o sexo já foi uma aventura, algo excitante, quando eu saía com mulheres sem vínculo algum com a verdadeira intenção de viver. E o senhor, com que freqüência faz sexo?
— Para falar a verdade, já faz um bom tempo... Eu não tempo para essas coisas! Mas você é diferente de mim, tem tempo disponível...
— Não sou tão diferente do senhor!
— Como assim?
— O senhor me compreende, e sendo assim, tem um pouco de mim.
— Claro! — concordei de forma negativa, ou seja, ironicamente.
— O senhor tem filhos, doutor?
— Não. E você?
— Por que perpetuar essa espécie? O sexo tem essa função, e assim sendo é mais um motivo para eu descartá-lo. Será que eu estaria aqui conversando nessa posição de lótus se meu pai não chegasse bêbado em casa e praticamente obrigasse minha mãe a fazer sexo, num ato em que me fez vir a esse mundo acidentalmente? Eu sei que não fui planejado.
— Como sabe?
— Eu ouvi meu pai conversando com um psicólogo particular certa vez. Depois de meu nascimento, ele imediatamente fez vasectomia.
— Engraçado... Eu também sou filho único.
— Está vendo como somos parecidos?
— Talvez, meu caro, talvez...
As comparações estavam me incomodando. Eu ainda estava bêbedo, o que poderia ser perigoso naquele momento, pois um bêbedo, quando se sente incomodado, não hesita em falar algumas verdades que não devem ser ditas. Mas essa é minha função, e eu não hesitaria em proferir algo que machucasse a pobre alma daquele homem.
— Porque me compara a você?
— Porque eu já fui rijo. Nunca precisei de um psicólogo, mas infelizmente estou aqui, levado pelas emoções mais traidoras que existem.
— Você acredita em Deus?
— Para mim, só existe um deus que rege o mundo.
— E quem é esse deus?
— Loki, o deus da mentira. Não existe uma verdade absoluta, e assim sendo, tudo não passa de uma grande mentira. À medida que nos afastamos de nossos mais profundos desejos, mentimos para nós mesmos, e a partir daí começamos a morrer.
Estava complicado! Meu cliente era complexo, a ponto de me desafiar, mesmo que não fosse sua intenção. Ele parecia descrever axiomas para tentar explicar uma situação que aflige muitas pessoas. Ele saiu da posição de lótus e retornou à cadeira. Seus movimentos eram dominados por uma notável lentidão, talvez pelo “efeito” de sua doutrina oriental. Estava vestido de uma forma bastante formal: paletó e gravata davam a ele certo ar de homem experiente, porém desenganado pela vida. Era como se um médico lhe dissesse que ele estava com câncer e lhe restasse pouco tempo de vida.
A felicidade abandonara aquele homem de uma forma repentina. Notei que às vezes ele olhava para cima, e dizia: “Por que, meus deuses, por quê?”. Parecia um sujeito politeísta, apesar de acreditar em um único deus: Loki. Eu comecei a exercer minha profissão mais seriamente:
— Por que olha para cima e clama pelos deuses quando diz acreditar apenas em Loki?
— Doutor, eu lhe disse que só existe um deus que rege o mundo, mas não lhe disse que só existe um. Quando eu me dirijo aos deuses, no plural, me refiro às minhas fragilidades. Cada uma delas é representada por um deus. Mas esses deuses são fracos... São tão fracos que representam a parte mais fraca do ser humano.. Mas apesar disso, são astutos... Eu não quero sentir mais nada, doutor! Mesmo sendo algo bom ou ruim, eu me recuso a sentir algo. Se eu pudesse matar minha alma e saciar apenas as vontades do corpo...
— Eu acho que psiquicamente você já está morto!
— Morto não, mas em fase terminal.
— Já tentou suicídio? — perguntei, preocupado com a resposta.
— Ainda não. Há pouco tempo comecei a sentir uma irremediável vontade de fazer algo realmente grande. Uma descoberta que pudesse eliminar muito da infelicidade humana. Se eu pudesse criar um elixir para isso, daria a todas as pessoas de bom coração. Infelizmente, Loki engana as pessoas com falsos elixires. Eu sou uma pessoa confusa, mas acredite doutor, eu não sou de todo mal.
— Você é bastante contraditório. Quer “matar” a sua alma, mas pratica yoga.
— Se eu tivesse uma alma morta, não perderia tempo praticando.
— Entendi! Você acha que a yoga só existe porque a psique é frágil.
— Exatamente. O senhor é bom em interpretação. As emoções são cavalos selvagens: possuem força, e apesar da visão binocular e lateral, quando estão olhando para os lados ou para trás, prestando atenção no movimento que os rodeia, não podem olhar para frente.
— Aonde você quer chegar?
— À linha de chegada. Quero olhar para frente, somente para frente. Quero matar essa manada que corre sem destino dentro de mim. Os deuses apostam nesses cavalos, e a pista encontra-se em nossas fragilidades. Geralmente, um cavalo chamado Loucura consegue ganhar várias corridas. Em segundo lugar temos o cavalo conhecido como Medo, e em terceiro um cavalo chamado Dúvida. Eu vou me revoltar perante a tamanha sagacidade dos deuses? Eu não tenho esse poder, sou um reles humano. A força de vontade que outrora tinha sumiu. Eu era uma chama incandescente que se apagou com o vento provocado pela corrida dos cavalos. Se ao menos existisse um Pégasus dentro de mim, eu poderia voar, apesar do alado continuar sendo um cavalo.
Eu senti a revolta dele. Estava inconformado, não somente com a família, mas com a humanidade, pelo simples fato de sua família ser humana. Consegui compreender a visão dele, mas não como um todo.
— Porque você confere suas fragilidades aos deuses, já que os deuses não são frágeis pelo simples fato de serem deuses? — indaguei.
— Como assim, os deuses não são fracos? Quando Prometeu roubou o segredo do fogo, Zeus o castigou daquela forma cruel. Quando um deus castiga, é porque ele se sente magoado, traído... Ele sente — subitamente deu ênfase à palavra “sente” —, ouviu bem? Sente! Nós fomos feitos à imagem e semelhança Dele, e não falo fisicamente... Nós somos a debilidade dos seres superiores.
Quando ouvi suas palavras, pronunciadas de forma colérica, percebi que ele estava além das outras pessoas. Sua tristeza havia gerado uma fúria onde eram depositadas todas as suas “verdades”. Ele era um ser essencialmente platônico. À Aristóteles foi conferido uma visão diferente de seu mestre Platão. Ele (Aristóteles) se via num mundo sensível, onde o abstrato não tinha muita importância. E depois de tanto tempo, dois seres psiquicamente perturbados ocupavam um pequeno espaço e ali começaram a dialogar num mundo real, mas essencialmente abstrato, oscilando entre a água e o fogo. A dualidade aqui mencionada beirava à loucura. Inexplicavelmente eu comecei a suar. Uma vontade horrível de dormir batera às minhas pálpebras. Mas eu tinha de descobrir até aonde iria aquela conversa. Ele falou:
— Sabe, doutor, há pouco tempo assisti Branca de Neve e os Sete Anões.
— É bom se distrair às vezes. Um desenho animado pode nos remeter a alegria da infância.
— Doutor, de infantil aquele desenho não tem nada.
— Explique! — fiquei curioso.
— Branca de Neve representa a alma humana e os sete anãos representam tudo o que a alma pode carregar. Doutor, o senhor lembra quem são os sete anões?
— Claro!
— Quem são eles?
— Dunga, Dengoso, Soneca, Atchim, Feliz, Zangado e Mestre.
Dunga representa a nossa cautela de revelar um segredo, um mistério ou uma verdade desagradável; Dengoso é a imagem de nossas manhas, nossas carências e o desejo de ser amado; Soneca é a nossa preguiça e comodismo; Atchim representa as constantes dores, o nosso estado febril, nossas doenças e fragilidades, e ainda o lado reacionário das pessoas, pois o espirro é uma reação do organismo; Feliz é o nosso êxtase causado por situações agradáveis, proporcionado muitas vezes pelas drogas; Zangado é o nosso descontentamento com a realidade, e Mestre representa um dom que muitas vezes carregamos, uma arte que dominamos com maestria.
— Interessante as suas comparações...
— Não são comparações, doutor, são verdades. No desenho, Branca de Neve arruma a casa dos pequeninos, pois precisava arrumar o lugar de seus instintos. Como ela era grande comparada a eles, precisava juntar todas as sete camas minúsculas para descansar. A alma, quando encontra um corpo, acaba conhecendo os mecanismos desse corpo. A casa dos anões é o corpo, a moradia, e eles são os mecanismos que movem e que sustentam esse corpo... Os instintos são os ossos da alma.
— Estou impressionado!
— Doutor, sabe o anão que mais detesto?
— Zangado? — eu sabia que não era o Zangado; queria apenas ver sua reação.
— Não. O Zangado expressa suas emoções de forma verdadeira. Eu odeio o Dunga. Ele é cínico! Ele não é mudo: ele finge. Não fala o segredo de nossas vidas. Quando assisti o desenho, percebi que é ele quem carrega a chave da mina. Mas ele não entrega a chave para nós... Antes temos de passar por dolorosas provações para pegar a chave e abrir a nossa mente para descobrir o que há de tão valioso. Mas às vezes a mina pode estar vazia.
— Concordo!
— Ele, com aquele cara de ingênuo... Mas de ingênuo não tem nada. Quando os anões fazem uma orquestra para agradar Branca de Neve, vejo uma clara alusão dos sentimentos tentando agradar a alma.
— Você analisou profundamente essa estória.
— Até que ponto seremos seduzidos pelos sentimentos da vida? Sendo bom ou não, eu matei todos os anões, inclusive Dunga, e com ele foi-se a chave que abre a porta da mina.
Eu perdi a vontade de dormir. Conversar com aquele misterioso sujeito estava despertando meu interesse. Ele tinha uma visão baseada na comparação entre o mundo fantástico e o mundo real. Suas analogias tinham sentido. Ele levantou a mão direita para o céu, e falou:
— Doutor, eu sempre admirei o deus do trovão.
— Thor?
— Sim, um deus nórdico que representa a força da natureza. Um ser arrogante, mas de incomparável nobreza, sempre condizendo com a verdade. Sempre foi o oposto de Loki. Quando eu vejo sua imagem, uma figura imponente, eu imagino que ele poderia ser o deus de nosso mundo. Um deus de grande rijeza, e apesar de possuir uma força que poderia usar em benefício próprio, simplesmente utiliza suas habilidades para preservar a mãe-terra, e com grande honestidade e nobreza, consegue seguir seus propósitos.
Para mim, a admiração desse sujeito por Thor era uma tentativa de dar vazão ao seu id. Ele imaginava que o nobre deus do trovão fazia parte de sua personalidade, quando na realidade ele era influenciado por Loki. Ele próprio falara que sua vida sempre fora uma mentira, uma farsa causada pelo dinheiro e pela falta de atenção e carinho dos pais. Aquele camarada conseguiu atingir a jugular da incompreensão, e mesmo nessa estrada de insegurança, dúvida e incertezas, ele conseguia enxergar o martelo Mjolnir de Thor. E nesse enxergar ele acabava escorregando e caindo no abismo da ilusão.
Analisando o contexto daquele interessante diálogo, eu percebi que realmente tínhamos algo em comum: a desilusão. Excluindo o fato dele pensar ser Thor, e não Loki, estava ciente da suas desilusões. Em contrapartida, eu não sabia o motivo das minhas. A percepção que temos do mundo é criada por nós, e por isso devemos ter cuidado ao cair numa ilusão de óptica. Ele tirou um pedaço de papel do bolso do paletó, e me disse:
— Doutor, vou ler algo que escrevi há pouco tempo.
— Certo, fique à vontade! — e ele leu.

Um homem não vê oportunidades sempre
Mesmo assim ele diz: “Tente...”
Um velho sabe, em seu coração
Que novas chances não aparecerão

E assim será essa nova armadilha

Uma criança espera uma árvore crescer
Quando cresce, lhe dizem: “É matar ou morrer”
Até que a última fruta caia em meio à matilha
Não a busque, pois trata-se de uma armadilha

E assim será essa nova armadilha

Carne nua e crua, com sede e fome
Vê comida boa no chão selvagem e come
Um agricultor que descobre terras cultiváveis sem dono
Espera dali brotar alimentos e em paz desfrutar um bom sono

E assim será essa nova armadilha
E assim sempre foi
Se lhe resta apenas a roupa e o corpo
É pouco, pois caiu nessa armadilha de novo

Uma súbita surpresa me acompanhou quando ouvi seu poema. Era intrigante a criatividade daquele ser mórbido, mas com uma grande vivacidade poética; um self deveras confuso. Uma lembrança sepulcral, uma coincidência perturbadora me despertou o interesse de conhecer melhor aquele sujeito. Que coincidência era essa?... Não poderia ser... Era óbvio:ele havia declamado um poema para explicar sua situação, do mesmo modo que eu quando encontrei Ulisses no bar. Eu não suportaria a idéia de mais uma coincidência... Eu não sabia por que estava me sentindo daquela maneira.
Quando eu era apenas uma criança, acreditava que o mundo era um lugar bom, e que todos eram felizes. Pensava que o planeta era um imenso jardim, e que todos tinham casas parecidas, todos se cumprimentavam, e que não existiam doenças. Mas as doenças existem, e as curas também. Porém, o número de curas é inversamente proporcional ao número de doenças. Eu apliquei a teoria malthusiana de forma mais subjetiva, dentro de um contexto psicológico. As curas surgem em progressão aritmética e as doenças em progressão geométrica.
O que poderia elucidar um momento tão ambíguo quanto aquele? Meu semblante era de desconforto. Uma estúpida vontade de encerrar a análise me bateu às portas do cansaço e da embriaguez. Eu era duro, intransponível e austero. Por que eu estava me comparando ao coliseu de fragilidades à minha frente? Talvez a severidade dos meus pensamentos soturnos estivesse, na realidade, me mostrando a luz. É a escuridão que nos faz sentir falta da luz.
Quando temos a luz em nossas mãos, não damos importância, e somente com a separação da luz em suas cores de espectro é que percebemos a beleza que escapa de nossas mãos. O id parecia controlar cada ato meu, e num instante de incertezas eu me pus a um quase choro... Que tensão! Como uma estrutura emparelhada de rimas poderia causar tanto transtorno?
— Tudo, bem, doutor? — perguntou ele, chamando-me doutor num tom de entre aspas.
— Tudo, meu caro — respondi friamente.
— Pode chorar, se quiser...
— Como? — assustadora pausa. — Repita, por favor!
Ele ultrapassara o limite da arrogância. Era quase meia-noite, e naquele instante eu senti uma forte pressão em meus olhos, como se estivesse prestes a chorar. Minhas mãos tremiam, e eu não sabia o que estava acontecendo. Ele levantou, continuou de costas, e como numa avalanche verbal, abriu a maldita boca e disse:
— Sabe, “doutor”, às vezes sentimos que estamos tristes sem um motivo aparente. O senhor estava neste consultório às seis horas da tarde, num clima úmido, quando começou a chorar, e claro, não sabia o motivo de ter caído aos prantos. Apesar de ser um psicólogo, não conseguiu detectar o motivo da própria tristeza. Sempre pensou ser uma criatura abençoada com a nobreza e a valentia de um deus, e por isso teve a quimera de comparar-se a Thor. Preste atenção, meu caro: você nasceu sem o consentimento de seus pais! — o maldito crispou nos lábios um sorriso escarnecedor nesse instante, o que me enfureceu de súbito. — Em suma, você foi um acidente. O senhor não nasceu, foi expulso do ventre materno, assim como Ulisses foi praticamente expulso pela sua “admirável pessoa” no bar.
— Cale-se! Infame! Saia daqui, agora!
— Calma, “Freud”, tenho muito mais a lhe dizer...
— Vire-se, covarde!
— Por que não vem até aqui me calar, “Thor”? Já sei, é porque está paralisado pelo medo que tem de ouvir a verdade. Logo você, um “deus”... Aconselhando-me a amar uma bela mulher quando sempre teve medo de amar? Um adepto da doutrina monetária do ocidente, questionando minha prática de yoga... Quando Dunga finalmente lhe disse a verdade, você o matou porque ele revelou sua infância solitária causada pela mesquinhez paterna e conformismo materno. O senhor é a criança do poema: buscou a última fruta em meio à matilha, e os lobos festejaram, principalmente Fenrir... O senhor não é Thor, muito pelo contrário, é Loki. O grande psicólogo que, ao contrário do verdadeiro deus da mentira, nunca mentiu para os outros, mas sempre para si mesmo. O martelo Mjolnir nunca lhe pertenceu.
— Vire-se covarde, para que eu possa ver o rosto daquele que vou mandar para as profundezas do inferno.
— Tudo bem, foi você quem pediu.
Ele se virou, e eu vi sua imagem. Foi naquele momento que eu tremi... E chorei. Meu estado deplorável piorou ainda mais quando percebi que ele era...
Eu... Ele era a minha própria imagem. Não era efeito do álcool, meu misterioso cliente era a minha pessoa. Era o meu lado verdadeiro. A minha parte adormecida pela mentira acordou e revelou a mim o que me pôs a chorar num nebuloso fim de tarde. Eu tinha entendido o porquê de ele estar em minha cadeira e eu estar no divã. Ele foi embora, e instantaneamente à sua saída , eu dormi.
Quando acordei, abri as cortinas da janela do consultório, e os raios solares adentraram em cada átomo de meu ser. Eu pensei em jogar aquele divã fora, mas não joguei, pois foi ali que deixei cair a única parte verdadeira, que se encontrava dentro de mim: minhas lágrimas. Desde então eu comecei a reconstruir minha vida e iniciar um pacto com a verdade. Hoje, não deixo meus clientes sentarem naquele divã, comprei outro, pois foi naquele divã que caíram as lágrimas de um psicólogo.

“A nossa maior ilusão é acreditar que somos o que pensamos ser.”
(Henri Amiel)

“Atrevo-me a dizer que, por trás de cada alegria esconde-se uma tristeza; por trás de cada tristeza esconde-se a verdade.”
(Psicólogo desiludido)

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