quarta-feira, 17 de março de 2010

Monólogo de um Controverso Gênio Ignorado

Instintivo: esse era o meu problema. Tornei-me emocional para o homenzarrão que era. Educação rígida não bastava. Meus tépidos pensamentos colhiam a santa ingenuidade. Maldita Ingenuidade, assassina da Verdade. Ah, que pleonasmo: por natureza somos todos ingênuos. Era estupidez demais para mim, para eles — minha família. Apresento-lhes papai, o grande déspota; mamãe, a grande nação; e meus irmãos, os soldadinhos de chumbo — os escravos do coronelismo paterno. Eu não estava ali para ser um mártir, pois nunca fui egoísta o bastante — no fundo, o mártir nunca luta em prol da comunidade, mas em prol do seu ego! Está aí, o mundo mais cheio de crenças que de mártires.
“Quisera eu acordar e não ser eu”, pensava. “Mas sou!”. O que havia de errado nisso? Não sei dizer por completo... Por enquanto estou simplesmente a escrever — desculpem minha escrita, sempre fui ousado para isso. Eu era um embrião da monotonia, um feto da cólera e um nascido da regra-servidão. Era um filho erétil da epistemologia e um filho torto de meu pai.
O velho, enfim, me deixou em paz, e morreu — o coronel, o senhor rigidez, o pai de todas as ditaduras familiares: o meu pai, que estava embaixo de uma terra que, por certo, queria cuspi-lo de suas entranhas de tanto ojeriza que deveria sentir dele. Mamãe dizia que eu era inteligente demais, e bem sabemos que um inteligente numa família de ignorantes é deveras ignorado, como um suicida ignora a vida. Oh, era eu o problema, porque eu tinha essa mania de mostrar a vida aos suicidas — minha doce família. Ah, mamãe sempre me alertava: “Precisa acreditar em Deus, meu filho!”. Como eu respondia? Friamente: “Deus é como analgésico, mamãe: só lembramos Dele quanto sentimos dor, e eu bem sei que não preciso de analgésicos; o que preciso é evitar atitudes que levem à dor. Se todos fossem felizes, a existência de Deus não faria sentido”.
Era eu forte, hercúleo, mas física somente — e ínfimo no que diz respeito ao meu estado psicológico. Eles rejeitavam isso. Foi preciso que eu encarasse a tabela periódica e os devaneios da trigonometria para mostrar a eles minha genialidade. Quanta fealdade, nasci num estúpido ninho. Quão estúpida é a vida regrada a tradições — os desprovidos de mente douta adoram seguir tradições . Era eu um celibatário de todas as ordens, e também da alma. Descasei-me de minha alma, e aniquilei todas as jactanciosas amantes: a Tristeza, a Solidão, a Ignorância — sim, os gênios são pedantes e ignorantes, pois reservam seus pensamentos a um mundo particular e ignoram os problemas do mundo real.
Foi necessário encarar a escuridão das teorias — tão difíceis de assimilar quanto os comas entre um semitom musical e outro. Ora, era eu homem do campo, vivendo numa liberdade medida em hectares e numa prisão medida em livros. Valeu-me os dias de gênio: um dos primeiros lugares no vestibular. Autodidata no aprendizado, criava minhas próprias fórmulas, e arrematei a minha célebre graduação em Geologia, e posteriormente em Música.
Feliz era minha mãe, sisudo era meu pai, invejosos eram os meus irmãos que sobraram, e entendamos como “sobra” aquilo que volta da guerra, geralmente sem braço, sem perna... — desculpe minha forma blakeana de escrever, é influência de William (Blake)...
Estavam todos aprazíveis com o pós-luto. Até os cavalos ficaram mais calmos com a morte do velho. De que ele morreu? Câncer, fumava muito. Morreu também de ignorância. O velho homem, imbatível com a farda, não era nada sem ela. Os velhos ditadores e estreitos são como melancia: duros por fora e moles por dentro.
Era eu grandessíssimo violinista, mas a educação musical que tive foi interrompida pela severidade ignorante das raízes sertanejas. O velho suspendeu as aulas de um professor particular porque faltava um braço forte na colheita. Levei os dois! Mas o que colhi foi uma imensa suspeita: o que faz um homem interferir na genialidade do outro? Já não bastavam os fatores internos? Ah, sua morte foi uma porta aberta para mim, pois voltou-me o intelecto de gênio que sempre me acompanhava. Fiz tantas obras literárias e musicais que uma simples palavra proferida por mim fantasiava-se em poesia e melodia.
Por vezes eu senti, e sentir nunca foi bom. Um gênio não pode sentir, tem de agir como um desavisado na terra dos sentimentos. Tornei-me maestro de minha orquestra espiritual, cujos músicos, que antes eram analfabetos musicais, foram transformados em virtuoses. Mas perdi a batuta e cometi a besteira de me apaixonar por uma linda mulher. A paixão é a ponte que leva ao orgulho — a ponte é uma armadilha!
Nenhum irmão jamais possuiu a mulher que estava em meus braços. Por que ela correspondeu minhas cartas? Porque beijou-me se nossas bocas eram tão diferentes? Eu larguei a epistemologia e comecei a trilhar uma soturna metafísica... E tive um filho. Como era gracioso: meu pequeno já era amante das artes antes de completar seis anos, e minha querida esposa era o retrato de minha mãe, tão compreensiva, e, que por coincidência, também tocava piano. Estava eu a cometer os mesmo atos de Édipo? Não, meu complexo era de Criatividade... Nada estava perfeito até o momento em que a Perfeição batesse em minha porta e dissesse que mais algum detalhe e eu arruinaria a obra.
Fui grande maestro também, regi vários concertos. Também fui dramaturgo. Criei várias peças, mas tive de encarar a peça da vida real: a morte de minha mãe. Teve um ataque cardíaco! Ah, meu pobre mundo de mármore renascentista tinha desabado. Depois, a esposa, e mais adiante, meu pequeno Michelangelo — três mortes num curto período de tempo... Usei a razão de várias maneiras para não enlouquecer, mas a loucura era o estado mais racional a se sentir naquele momento.
Comecei a beber vorazmente. Minha sede era tão grande que passei a beber mais de um litro de conhaque por dia. As noites eram infernais. Sozinho em minha velha poltrona, sem distinguir o azul do azul escuro, eu vi a imagem do cavalo: enormes asas de fogo e chifres pontudos, como os chifres do Diabo. Montei nele e descemos escadaria abaixo. Estava quente, e vi então a alquímica trindade: mercúrio, enxofre e sal. O próprio Hades me concederia um desejo se eu lhe entregasse a pedra. Ah, era uma pedra cujo elemento é o mais abundante na Terra e que há muito eu achara na fazenda. Conhecida pelo seres inferiores como Cesarcus, seu elemento era a maldade humana. Cesarcus vem de César, o próprio demônio de Roma — não apenas Júlio, mas todos os Césares.
Entreguei a pedra a Hades, que pediu para que eu revelasse meu desejo. Caminhei lentamente ao seu ouvido e falei que estava disposto a perder todos os sentimentos de sofreguidão; simplesmente todos. Foi um momento inolvidável! Subi a escadaria como se fosse Luís XIV e cheguei à sala do casarão. Sentei-me na poltrona. Eu estava absoluto. Queimei a própria mão no fogo da lareira e nada senti. Vi então que Hades cumprira sua parte do trato. Peguei o violão e tentei dedilhar alguns acordes... Não consegui! Peguei papel e caneta para descrever o tão épico momento através dum poema... Também não consegui! Foi então que percebi que um artista não é nada sem sentimentos que o faz sofrer, um gênio não é gênio sem uma paixão doentia.
Chorei! — como poderia eu chorar se não tinha mais sentimentos? O fato era que, sem o consentimento de sentir, a minha parte mais verdadeira havia morrido. Notei que se um gênio não sofrer, sua criatividade não passará de uma simples gota perto do oceano de possibilidades artísticas. O poeta quando cessa seu sofrer não é mais poeta. Um músico quando não tem feeling não é um músico. Foi então que peguei a arma que pertencera ao meu pai e atirei em meu próprio peito, assim como Van Gogh fizera. Morto então, reencontrei o velho e lhe disse: “Obrigado, pai, pois foste tu a razão do meu sofrer, e conseqüentemente, de minha genialidade”. E, pela primeira vez, abraçamo-nos como pai e filho...

"Quando um gênio verdadeiro aparece neste mundo, você pode conhecê-lo pelo seguinte sinal: os ignorantes estão todos unidos contra ele.”
(Jonathan Swift)

“Notei que se um gênio não sofrer, sua criatividade não passará de uma simples gota perto do oceano de possibilidades artísticas.”
(Um controverso gênio ignorado)

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