quarta-feira, 17 de março de 2010

O Jardim de Van Gogh



Caminhei pelo jardim
Ouvi a vastidão das flores
Que diziam para mim
Larga tuas antigas dores

Em atitude umbrosa
Pintei um quadro impressionista
Vomitei o amarelo em prosa
E sibilei emoção mista

Alegria e tristeza
Transtorno bipolar de humor
Que assim seja
Um tiro no peito

O jardim se calou!

Misturei-me à imensidão do jardim
Voei junto às borboletas
Entre meneios de jasmim
Entre a tinta e a corneta

Corneta do Céu
Corneta do Inferno
Meu sangue ao léu
Minha vida ao inverso

Atirei em meu peito
Chamo-me Van Gogh
À torto e à direito
À convalescência e ao grogue

Oh, não, que desastre
Morri e não fui reconhecido
Mas que disparate
A minha morte é fruto do impressionismo

Estou entre as tintas
É o vermelho e o amarelo
E agora me dão boas-vindas
Pelo menos me reconhecem, o Céu e o Inferno

Em Terra, estava morto
Agora estou vivo e hercúleo
Virei uma espécie de aborto
Sob a densa areia de telúrio

Fui um cabotino?
Se fui, foi por necessidade
Mas era o meu destino
Pintar quadros com grande vivacidade

Pintei sem ver as cores
Porque a cegueira me bateu à porta
Cegueira de platônicos amores
Cortei a orelha como prova

Prova de que queria estar surdo
E não cego e sensitivo
Mas como um falso mudo
Não revelei o amarelo como aperitivo

Queria eu a celsitude
Em cálidas cores
Mas o jardim, amiúde
Sentiu minhas repetitivas dores

O sangue está lá
Grudado na grama e sem pudor
E agora querem falar
Que depois de morto, fui grande pintor

Deviam se calar como o jardim
Que de luto se exaspera como ascetas
E os críticos que se dirigem a mim
Calem-se, pois calados são grandes poetas

O jardim se cala, mas minha arte, lancinante, GRITA!!!!!!!!!!

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