domingo, 25 de abril de 2010

O Pessimismo Como Forma de Enxergar o Mundo


Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão influenciado por Arthur Schopenhauer, era tão pessimista quanto.

Arthur Schopenhauer (1778-1860), filósofo alemão conhecido pelo extremo pessimismo.

É certo que vivemos num mundo onde, cada dia, fica mais difícil (para não dizer impossível) acreditar que tudo dará certo. Muitos corroboram que o otimista é nada mais que um pessimista mal informado. Schopenhauer e Nietzsche são símbolos do pensamento pessimista. Esses dois filósofos alcançavam o cerne do mal-estar que afligia (e ainda aflige) a humanidade. Schopenhauer era conhecido, sobretudo, pelo seu pessimismo em relação às mulheres. Tinha grande dificuldade em relacionar-se com elas. Quando, em um passeio num barco com uma jovem, deu-lha uma maçã, ela jogou no lago onde estavam. Consta dos arquivos sobre a vida do filósofo que a moça pensara: "Fingi que guardei no bolso, mas joguei a maçã no lago, pois não comeria algo que viesse das mãos nojentas do velho Schopenhauer". Daí, muitos estudiosos afirmarem que o pessimismo dele em relação às mulheres provinha de suas frustrações. Já Nietzsche era o verdadeiro "anticristo" (não a imagem da besta, mas o anticristo, que na Alemanha significa "anticristão"). Ele disse: "Deus está morto". Solitário, intropesctivo e com uma língua ferina, Nietzsche estava distante de ser humilde (vide sua autobiografia "Ecce Homo"). Tentou suicídio por várias vezes e no final de sua vida, enlouqueceu, esvaido-se na ilusão de que ora era Cristo ora era Dionísio (o deus do vinho e dos excessos). Quando comparados, nota-se algo em comum nesses homens: infelicidade. Muitas dizem que o pessimismo é nada mais que uma carapaça ou uma desculpa de homens incapazes de alçarem vôo aos seus sonhos. Outros conferem ao pessimismo o pensamento contíguo ao pensamento realista. Mas ao analisar o mundo como um todo, uma processo contínuo de desgraças (doenças, guerras, fome, depressão) não é possível tirar os créditos do pessimista. Certas coisas sempre darão erradas, nunca mudarão para melhor. Pois então, sendo frustrados ou não, os dois filósofos alemães tinham razão. Ou melhor: eles ainda têm.

domingo, 18 de abril de 2010

O Homem Já Foi o Centro do Universo


A transição da Idade Média para a Idade Moderna deu-se através do esforço dos humanistas que difundiram os ideais renascentistas. Homens ligados à filosofia, ciência e literatura acenderam as luzes antes apagadas pelo período que reinou mil anos na Europa: a "Idade das Trevas". Antes, Deus, venerado desmedidamente, era o centro do universo. Com o Renascimento, o homem passou a ocupar o cerne das preocupações. Para Nicolau Maquiavel, o homem do Renascimento deveria trazer para si a Virtù, expressão que confere o gosto pela liberdade e abandona as amarras provindas da afirmação de que Deus era o "dono" do destino dos homens.
A universalização da perspectiva renascentista partiu da Itália e depois se expandiu para outros países. Houve então uma remodelação na cultura européia, com o advento das características que perfaziam a trajetória dos ideais renascentistas, tais como: hedonismo, naturalismo, classicismo, racionalismo, e principalmente, antropocentrismo (que desbancou o teocentrismo que aprisionava a criatividade humana e a vontade do homem em conhecer por si próprio, o desejo de se imortalizar através das artes e das ciências).
Leonardo da Vinci foi o símbolo da arte nesse período. Ao desenhar o homem vitruviano (veja desenho acima), o gênio personificou o espírito renascentista e sobretudo, o antropocentrismo. O hedonismo teve como representantes Bocaccio, Rabelais, e o mais fecundo dos que cultuavam o prazer, o corpo e a beleza: Shakespeare. Na ciência, houve uma verdadeira revolução com a teoria heliocêtrica de Nicolau Copérnico. O cientista polonês opôs-se a teoria geocêntrica de Ptolomeu, e afirmou que os planetas giravam em torno do Sol, e não da Terra. Temendo a hostilidade da Igreja Romana, Copérnico não divulgou sua teoria de imediato, que só foi apresentada ao mundo no século XVI.
Um homem atarracado, de cabelo ruivo e personalidade inquietante, cujo nome era Galileu Galileu, comprovou a teoria heliocêntrica de Copérnico, além de ter descoberto os anéis de Saturno, os satélites de Júpiter e as manchas do Sol. Kepler também se interessou pela teoria de Copérnico e através de um longo estudo, concluiu que os planetas de fato se movimentam em torno do Sol, mas o fazem em órbita elíptica, e não circular.
O Renascimento foi um período onde a humanidade progrediu através da curiosidade, da sede de conhecimento e do bem-estar coletivo. É uma pena que o homem, que já foi um dia o centro do universo, esteja a destruir os ideais que o fizeram além de simples carne e ossos ambulantes (e, destarte, destruir a si próprio). Veja, no desenho abaixo, no que se transformou o homem...

sábado, 17 de abril de 2010

O Absurdo da Existência


Albert Camus, escritor francês nascido na Argélia e ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1957, insere o absurdo da existência na obra que o consagrou: “O Estrangeiro”. Mersault, o personagem central e narrador do romance, recebe a notícia da morte de sua mãe logo no primeiro parágrafo do livro: “Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei”. A partir daí o que se vê é o limiar da crise existencial: Mersault nada sente no funeral de sua mãe, comete um homicídio com uma frieza incalculável, é preso e levado a julgamento. No tribunal, o que assusta a todos não é o fato de Mersault ter matado um homem a sangue-frio, mas sim sua pertinente insensibilidade diante da perda da mãe. Quando finalmente condenado, continua a agir como se a vida não fizesse sentido algum, e isso fica evidente quando Mersault, na prisão, encontra-se com o capelão (padre) e narra: “Disse-lhe que não sabia o que era um pecado. Tinham-me apenas dito que eu era um culpado”. A filosofia existencialista de Camus pode parecer cruel aos leitores, mas torna-se suportável quando aceita-se o absurdo como a existência em si.

"O diretor olhou então para as pontas dos sapatos e disse que eu não quisera ver mamãe, que não chorara uma única vez e que partira logo depois do enterro, sem me recolher junto ao túmulo. Ainda outra coisa o surpreendera: a agência funerária lhe dissera que eu não sabia a idade de mamãe."
(Trecho do livro)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Cientistas Querem "Brincar de Deus"


O acelerador de partículas LHC, a maior máquina do planeta, fomenta aos cientistas as possíveis condições que deram origem ao universo. Os envolvidos no projeto utilizam a cosmologia e a física quântica para estudarem partículas extremamente pequenas - menores que os átomos - e trabalharem com o acelerador. O LHC está localizado entre a França e a Suiça, em um túnel de 27 quilômetros de extensão. Para que o meio científico obtenha êxito, seria primordial que houvesse o bóson de Higgs, conhecido também como "partícula de Deus". O problema é que tal partícula existe apenas na teoria desenvolvida pelo físico inglês Petter Higgs. Saiba mais.

Conheça o Homem que Criou um Mundo Nada Admirável


"Uma hora mais tarde, no vestiário, Fanny protestava energicamente:
— Mas é um absurdo uma pessoa deixar-se chegar a esse estado. Simplesmente absurdo — repetiu. E a propósito de quê? De um homem, de um homem!
— Mas é o homem que eu quero.
— Como se não houvesse milhões de outros homens pelo mundo.
— Mas eu não quero esses.
— Como podes tu sabê-los antes de teres experimentado?
— Já experimentei.
— Mas quantos — perguntou Fanny, encolhendo os ombros desdenhosamente. — Um, dois?
— Dúzias. Mas — acrescentou, meneando a cabeça — isso não me serviu de nada.
— Ora! É preciso insistir — sentenciou Fanny. Mas era evidente que a sua confiança na receita dada estava abalada. — Nada se pode alcançar sem perseverança.
— Mas enquanto espero...
— Não pense nisso.
— Não posso deixar de pensar.
— Então toma soma."

(Trecho do livro "Admirável Mundo Novo").

O Criador

O prolífico escritor Aldous Huxley foi um dos maiores nomes da literatura mundial. Oriundo de uma família de intelectuais ingleses, Huxley não tardou a ingressar na literatura, ao lançar, em 1921, a obra "Crome Yellow". Onze anos depois foi publicado o livro que se tornou o magnum opus do romancista: "Admirável Mundo Novo". Huxley narra nessa ficção um futuro onde as pessoas são "fabricadas" em um centro de incubação, com casta definida (Alfa, Beta ou Gama) e educadas sexualmente desde a tenra idade. Quando surpreendidos por sentimentos como o amor, por exemplo, os habitantes imediatamente recorrem a uma droga conhecida como "soma", que inibe tais sentimentos. Para conhecer melhor o autor desse mundo nada admirável, leia aqui uma das mais reveladoras entrevistas concedidas por ele. Faça o download do livro.

“Jamais obtive muita coisa com a leitura de Ulysses. Penso que é um livro extraordinário, mas uma parte muito grande do mesmo consiste em demonstrações um tanto extensas de como não se deve escrever um romance.”
(Aldous Huxley, quando questionado se fora influenciado pelo também escritor James Joyce).

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Google Buzz: Será que Dessa Vez o Google Acerta?


O Google lançou um novo serviço de integração social: o Google Buzz. Para utilizá-lo, basta ter uma conta no Gmail, onde ele estará em uma pasta logo abaixo da caixa de entrada. O Google pretende dinamizar o processo social entre os usuários utilizando artifícios presentes no Twitter,Facebook e outras redes sociais. Será possível compartilhar fotos, links e mensagens, ou seja, criar um segmento para discussões. O usuário pode seguir e ser seguido pelo seus contatos, onde as postagens estarão à mostra para todos. Ainda é muito cedo para ter uma opinião concreta sobre o serviço, devido ao sucesso que o Twitter e o Facebook ainda fazem. O jeito é esperar para ver se, ao contrário do Google Wave, o Google Buzz consegue emplacar de vez.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os Becos Imundos de uma Senhorita Parisiense


Marie atravessou uma daquelas belas ruas de Paris. Olhou para os lados e percebeu que estava sozinha numa das ruas mais movimentadas da cidade-luz. "Que estranho", pensou. Perscrutou nas esquinas para ver se havia alguém. Sua busca não dera resultados. Irrompeu, de súbito, um mendigo, cuja mão enrugada pela sujeira bateu no ombro direito da senhorita. Ela, obviamente assustada e com asco provocado pela aparência grotesca do mendigo, perguntou:
- Ei, por que a cidade está tão vazia?
- Hoje é dia de as pessoas ficarem em casa - respondeu o mendigo.
- Mas por que elas estão em casa? Digo, não há nada de errado em ficar em casa, mas quando todo mundo está, é porque algo está errado...
- Não há nada de errado, elas apenas querem ficar em casa.
Marie decidiu abandonar o colóquio um tanto quanto infrutífero e decidiu ir para o seu apartamento. Passaram-se alguns dias, e a população continuava enclaurasurada... Marie então sentiu seu corpo estremecer, seu corpo desejava o mendigo que lhe abordara naquela fatídico dia. Foi então à procura dele, e apesar das vestes surradas, puídas, o mendigo tinha um rosto consideravelmente bonito, a contar pelos grandes olhos azuis como o lápis-lazúli.
- Você é o único que anda pelas ruas, e eu sinto necessidade de um homem colado em meu corpo - disse Marie, com uma face enrubescida porém sedutora.
O mendigo se posicionou.
-Há dez anos que não tenho contatos íntimos com uma fêmea, minha senhora, e prefiro que continue assim.
-Mas por quê? - perguntou Marie, espantada e humilhada por ter seu belo corpo recusado por um ser cujo traje puído não valia sua miserável existência.
-A senhorita me deseja por necessidade, e se ao menos fosse por compaixão eu entenderia. Aprendi a viver comendo lixo, e me acostumei. Acostumei-me também à abstinência sexual. Por favor, não venha arrancar-me o bem mais valioso que possuo...
- E o que é tão valioso para você?
- O meu limite de sobrevivência. Se eu te tocar uma vez, posso querer tocar mais vezes, e quando a senhorita não mais me quiser, eu sofrerei como sofre um velho decrépito e leproso
Marie se foi. Passou-se mais algum tempo e ela decidiu viver reclusa (Marie saía apenas para trabalhar) enquanto os moradores de Paris voltavam, gradualmente, a agitar a cidade. Ela aprendeu a viver com pouco, e quando decidiu sair do apartamento, mal trajada, com cabelos desgrenhados e uma aparência perto de ser deplorável, avistou o mendigo sob o bruxulear dos postes altos da cidade, e este lhe disse:
- Agora sim, posso lhe tocar.
Desde então, Marie começou a se encontrar com o mendigo nos becos imundos, passando inclusive a trocar as refinadas refeições que seu bom emprego sempre lhe proporcionara pelos banquetes que saíam herméticos das latas de lixo.

sábado, 10 de abril de 2010

Adormecido no Vale (Poema de Arthur Rimbaud)

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Proeza de MisteryGuitarMan


É possível fazer música com um microondas, três panelas, uma cadeira estofada e um violão? Joe Penna, ou "MisteryGuitarMan", como é conhecido no Youtube, prova no vídeo "Looping Around" que sim. Ele é brasileiro e mora atualmente em Los Angeles, California. Enquanto estudante de medicina, produzia vídeos on-line em seu tempo livre. Em 2009, seu vídeo "Guitar:Impossible", produzido pela técnica de "stop motion", foi considerado um dos melhores vídeos do ano.

Geléia da Vovó Pearl e Suicído de Jeremy


Peal Jam é a única banda sobrevivente do movimento grunge, que eclodiu em Seattle, no início dos anos 90. Resistiu às intempéries do mercado e ao próprio sucesso, marcado definitivamente pelo primeiro álbum, "Ten". O álbum de estréia do grupo trouxe o frescor de uma nova ideologia - há quem diga que os Pearl Jam e outras bandas de Seattle destronaram o hard rock -, o vozeirão de Eddie Vedder, guitarras uníssonas, letras coléricas e melancólicas. O clipe da música "Jeremy", que retrata o suicídio de um garoto em plena sala de aula, recebeu em 1993 o prêmio "MTV Video Music Awards" como o melhor clipe do ano. Confiram!

Criatividade e Técnica


O vídeo "T-SHIRT WAR!! (stop-motion music video)" é um das obras-primas que há no Youtube. Camisas animadas divertem o público através de muita imaginação. A produção do vídeo foi possível graças a técnica de animação conhecida como "stop motion". A técnica consiste em realizar movimentos quadro a quadro através de fotografias. A título de ilustração, o sucesso "A Fuga das Galinhas" foi produzida com os recursos dessa técnica. O vídeo foi dirigido e editado pelo brasileiro Joe Penna, o famoso "MisteryGuitarMan", uma das sensações do Youtube, que utiliza largamente o "stop motion". Vale a pena assistir.

Gripe Suína: Paranóia e Conspiração


O documentário "Operação Pandemia" produzido pelo argentino Julián Alterini, desmascara o processo manipulador que há por trás da gripe suína. Alterini compara o número de mortes entre as gripe suína e a gripe comum, e chega à seguinte conclusão: a morte por gripe comum é homericamente maior que a "gripe porcina", que segundo ele é "a gripe da moda", por estar constantamente nos meios de comunicação. Ao enxergar nas entrelinhas, é possível conjeturar uma conspiração. Há dois motivos para desconfiança: a gripe suína conquistou a atenção da mídia e a companhia bio farmacêutica "Gilead Science" possui o monopólio do medicamento "Tamiflu", oportunamente recomendado pela Organizaçao Mundial de Saúde. Segundo Alterini, os meios de comunicação instauraram a paranóia no planeta para que a companhia obtesse lucro. Ao assistir o documentário, fica realmente evidente o "ar de conspiração".

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Minh'alma no Cimo da Cratera Lunar


Ah, os cordiais elementais
Avistaram-me amarulento
Nos orvalhos saturnais
Correndo contra o tempo

Antanho era a vida
Mas não é morte em vosso colóquio
Era estrada comprida
Mas é findo o ponteiro do relógio

Mas não morri
Minh'alma alumbrada e não mais vulgar
Reside bem ali
No cimo da cratera lunar

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O Homem-Vegetal, a Luz e o Ponto Imaginário


Lá estava ele, sentado no mesmo lugar de sempre, naquele velho banco, naquele velho jardim de sua pequena casa, com aqueles mesmos trejeitos. Estava sempre com um olhar fixo em um ponto imaginário — ponto esse que se encontrava próximo do sol. O que passava pela mente daquele homem? À primeira vista, ele era a imagem do eremita urbano. Nunca fora visto bem arrumado, e quase sempre andava sozinho. Pouquíssimos eram seus contatos humanos. Não tinha mulher, não tinha filhos, não tinha visita de parentes próximos, enfim... Ao que poderia parecer, a única companhia que tinha, além dele mesmo, era seus livros.
Quando não estava praticando o hábito da leitura no quintal de sua casa — quintal esse muito bonito por sinal, com um belo jardim — estava olhando para o maldito ponto fixo. O que era tão interessante naquele ponto? Difícil entender, não é mesmo? Alguns vizinhos apelidaram-no de “O Homem-Vegetal”. Outro detalhe: não trabalhava... Ou era rico ou era um aposentado por invalidez, pois apesar da aparência de idade já avançada, não parecia ter idade para aposentar. Todos da cidade davam-lhe algo próximo a quarenta e cinco anos. Era um homem simples, de poucas palavras. Porém, demonstrava-se muito simpático com os mesmos vizinhos que tinham como referência dele um vegetal. Sempre dava um “bom dia”, uma “boa tarde” e uma “boa noite” de forma prestativa, com sorriso bem alegre e bonito, apesar de seus dentes amarelados pelo constante uso — e abuso — de café. Como bebia café aquele homem!
Esse sujeito lembrava os personagens do universo de Kafka. Ele era tão desumano em suas atitudes humanas... Sua obsessão pelo ponto imaginário era algo surreal. Certa vez, ele estava deitado sobre as gramas do jardim, com os olhos fechados, em estado catatônico. As suas mãos estavam erguidas, direcionadas ao sol, como se estivesse realizando um processo de fotossíntese, tão comum nos vegetais. A luz do sol parecia “alimentá-lo". Seu longo cabelo espalhava-se à grama, e sua longa barba dava certa impressão profética nele. Nos longos momentos de catarse, ele começava a proferir frases desconexas, sem sentido. Certa vez, dissera que tinha uma idade secular, e que estava esperando o momento certo para se libertar das correntes, também seculares. Eu observava tudo isso do segundo andar de minha casa. Ele era meu vizinho — ele não mora mais na cidade.
Quando me mudei para a casa onde hoje moro, fui bem recebido por ele. Apesar das poucas palavras, demonstrou-se bastante simpático. Com o passar do tempo, tornou-se fechado. Às vezes eu o via na rua e o cumprimentava, e ele já nem lembrava meu nome. Então pensei: “Será que ele usa drogas?”. Era possível, pois ele próprio dava sinais de minha suspeita. Certa vez, eu o vi conversando com uma camélia, um girassol e um lírio cor-de-rosa. É sério! Não bastasse a loucura de falar sozinho, ainda nomeava as flores. A camélia, o girassol e o lírio cor-de-rosa chamavam-se, respectivamente: Lucy, Sky e Diamond. Após anos ouvindo música dos mais variados estilos, lembrei-me de uma música chamada Lucy in the Sky with Diamonds, dos The Beatles. As inicias dessa música formam a sigla LSD, o tão famoso dietilamida do ácido lisérgico.
Conhecer esse sujeito foi o fim total de minha inocência. Como era de praxe, a minha santa “virgindade mental” acerca das loucuras do mundo talvez fosse resultado de uma vida trancafiada em meu quarto. E por muitos instantes, eu me senti como aquele homem. Eu simplesmente detestava pensar dessa maneira, mas era inevitável. Eu próprio já falei sozinho. Mas equiparar-se àquela criatura era o fim da picada. Meus pensamentos caminhavam como verdadeiros cavalos de tróia. Eles me enganavam. Eu nada tinha a ver com aquele doidivanas. Talvez a minha inocência fosse provocada pela falta de atenção ao mundo que me cercava.
Eu começava a prestar atenção naquele sujeito. Uma atenção moderada, algo que passasse longe da obsessão. Subjetivamente falando, eu achava que as ações humanas eram como defesas naturais; cada gesto assemelhava-se a um anticorpo contra o cotidiano da vida. Engraçado, a cada dia eu começava a pensar mais e mais. Eflúvios pensamentos; repentinos. E qualquer momento que fosse, lá estava aquele homem, olhando para aquele velho ponto fixo, próximo do sol. Foi nessa loucura que eu percebi: o ser humano é tão simples em sua complexidade... Talvez fosse apenas um momento de lazer. Cada um passa o tempo da maneira que bem entender.
Eu próprio não tinha muitos contatos humanos, como ele também não tinha. Mas nada que me tornasse um eremita como ele. Ele era o zero, eu era o zero vírgula cinco. As intrigas entre a realidade normal e a realidade distorcida começaram a perturbar minha mente. E lá estava ele, novamente, olhando para aquele maldito ponto fixo. Eu estava ficando irritado. Antigamente, eu nem me importava, mas algo começava a me perturbar naquele vegetal em forma de carne e osso estáticos. Eu o observava, mas ele não me observava. Era uma observação unilateral. De minha parte, um universo observatório. Bastavam as observações!
Eu sentia que era hora de ocupar meu tempo e fazer algo de útil. Esquecer aquele vegetal prestes a queimar de tanta luz, e a formar um quadro do pontilhismo de tantos pontos fixos e imaginários. Mas aquilo me intrigava, e a curiosidade de saber o que se passava na mente daquele homem aumentava a cada dia. A agonia da curiosidade parecia-se muito com a minha curiosidade de conhecer uma mulher, digamos, de forma bem “quente”, quando eu tinha dezesseis anos. Engraçado, nunca fui possuidor de grande beleza física, por isso adiantei muitos “encontros quentes” com uma mulher do jeito mais fácil, se é que me compreendem. Minha vida sempre foi muito superficial, como um vegetal, e não como um ser humano. E a partir dessa superficialidade foi que comecei a me comparar com o Homem-Vegetal. Entrei em desespero. As ondas elétricas do meu cérebro transformaram-se em verdadeiros trovões delirantes.
Esse homem parecia querer abrir minha mente. Um vegetal com a missão de mostrar algo que eu nunca tive coragem de ver, muito menos fazer. Seria libertinagem pensar dessa maneira? Eu estava começando a andar pelo caminho dos excessos, para chegar ao palácio da sabedoria, da forma que William Blake pensava. Mas o que haveria de tão sábio em olhar fixamente para um ponto imaginário? Aparentemente não muito. Mas algo me dizia que eu começaria a enxergar uma lucidez naquele vegetal. Um distúrbio mental pode causar um efeito devastador no corpo, como as doenças psicossomáticas, por exemplo. Mas quando terminava de olhar o ponto imaginário, com o fim do pôr-do-sol, ele saía do “transe” e aparentava uma alegria muito forte. Logo depois, saía para caminhar, e quando voltava à noite, escrevia.
Não era nenhum escritor famoso, pois eu nunca o vira nas revistas, na televisão, enfim... O que será que ele tanto escrevia? Eu não sabia, e nem era da minha conta. Mas que imã mental poderia ser esse? Por que se importar com um vegetal? Para falar a verdade, eu me importava mais com aquele homem do que comigo mesmo. Qual seria o segredo que ele tanto escondia? Seu estilo de vida era tão peculiar quanto o meu. Eu simplesmente esperava a vida ser aquiescida. E por todo esse tempo eu nunca fiz algo relevante, que contribuísse com minha elevação espiritual. Sempre fui otimista. É como dizem por aí: “Um otimista é um pessimista mal informado”. Sempre caminhei descalço nos vidros despedaçados pela minha inocência.
Quando chovia ele não saía da casa, por causa da ausência do sol. Mas depois da chuva, era a vez do arco-íris. Ele olhava um ponto imaginário próximo do arco-íris. Quando o sol aparecia, ele desviava seu olhar para a estrela mais próxima da Terra. E lembro-me de um poema que ele declamou para as flores de seu belíssimo jardim, cheio de lirismos:

Belas são vocês, flores minhas
Feitas com o amor da mãe-terra
Amanhecem com o meu Sol (alvorada)
E morrem com o meu crepúsculo (morrer do Sol)

Bela também é a minha estrela
E apesar de tanto tempo
Eu gorjeio como da primeira vez
E sumariamente as acalento

Eu sou um historiador secular
Não faço comentários sobre os fatos
Eu simplesmente os vivo
E os descrevo nas paredes do meu quarto

Belas são vocês, flores minhas
Cuja semelhança com o ser humano é o Sol
Vocês precisam dele, mas possuem muita sorte
Não precisam ser humanas para provar do Sol

O maior pecado da humanidade é ser humana
Na condição de vis almas penadas
Da ganância e do pouco tempo que lhes resta
Eu dispenso a Humanidade, a anciã que não se cala

Eu carreguei os céus por muito tempo
E nunca mais vi minhas Plêiades em formas vistosas
Mas as tenho em meu jardim
São vocês, minhas flores tão formosas

Apesar de achá-lo “diferente”, foi uma das coisas mais bonitas que eu escutara. Ele era um poeta! Simplesmente fez meu queixo cair. Antes eu sentia indiferença, mas passei a sentir um pouco de inveja. Quanta criatividade. E quanta loucura. Eu até tinha certa veia poética, mas comparado àquele camarada eu tinha de aprender a ler e escrever novamente. As palavras direcionadas às flores me fizeram refletir sobre a aparente felicidade daquele homem. Seria esse o segredo da felicidade? Viver de maneira simples, sem a influência do consumismo moderno? Um de meus grandes ídolos, Mahatma Ghandi, alentava-me admiração; a mesma que eu começava a sentir em meu estranho vizinho. A minha mente estava em grande odisséia. Eu não pensava em nada a não ser seguir a “doutrina” do Homem-Vegetal. Era isso, precisava meditar, transformar-me num vegetal, e absorver os raios solares como uma planta. Infelizmente, o ambiente de minha casa nunca foi, digamos... Pacífico. Era difícil me concentrar.
Minha família nunca teve cérebro. Eram todos afoitos, corriam atrás de um materialismo do qual eles não podiam arcar. Complicado viver assim. Eu sempre fui o mais inteligente, no sentido de não sucumbir às armadilhas da vida. Por outro lado, deixei de aproveitar certas ocasiões. Que festa que nada, em época de natal eu aproveitava as férias escolares para desenhar, ler, enfim... E eles também me chamavam de estranho. E com essa lembrança foi que eu comecei a me perguntar: “Quem sou eu para julgar uma pessoa que se parece tanto comigo?”. Eu começava a deixar de observar o vegetal. Gradualmente retomava minha vida. Mas durante o processo não consegui parar de pensar nele. Comecei a sentir um elo entre nós. Era algo que prendia ou simplesmente ligava.
Esse elo tornou-se aparente num dia que em minha vontade de conhecê-lo melhor — frente a frente — transpareceu repentinamente. Lá estava eu, numa bela manhã, voltando da padaria, quando vi o portão da casa dele aberto. As chamas de minha curiosidade acenderam numa fração de segundos, tanto que os cientistas teriam de rever o césio-133, e medir o tempo de outra forma. “Entrar ou não entrar, eis a questão”... Entrei. Shakespeare, você bem que tentou, não foi dessa vez. E como numa resposta imediata à minha entrada, meu corpo sentiu-se leve. Que paz de espírito... Os cânticos dos pássaros e a beleza das flores era algo tão... Arcádico. Fugere Urbem foi a frase que surgiu em minha mente. A exaltação à natureza naquele lugar era quase uma seita. À primeira vista, ele não estava no jardim. Deu-me vontade de sentar naquele banco. Minhas pernas involuntariamente estavam caminhando para lá, mas quando cheguei à metade do jardim, voltei. Não era de minha índole invadir a privacidade alheia, e se o fizesse, tornar-me-ia mais humano ao praticar um ato que pudesse gerar conseqüências não muito agradáveis.
No dia seguinte, um belo sábado de sol, acordei com o som de um violão. O “vegetal” estava tocando uma bela música erudita. Composição dele talvez, pois eu nunca havia escutado aquelas melodias e harmonias. Ele tocava de forma feérica. Seus acordes pareciam querer alcançar os ouvidos dos deuses. Um detalhe que não cheira a novidade: ele estava tocando com o olhar fixo num ponto imaginário próximo do sol. O “vegetal” estava inspirado. Eu não poderia mais achá-lo estranho. Muito pelo contrário: eu estava começando a achar estranho todo e qualquer Homo Sapiens Sapiens que não apreciasse a arte daquela maneira. Haja vista que os seres humanos são capazes de fazer arte, não sei por que não fazem. Talvez muitos não sabem, mas para fazer arte não é preciso nascer com o dom, o único dom que existe é a persistência de querer dominá-la por completo.
Morram, seres ignóbeis! Comprem seus cigarros ao invés de um livro, comprem suas vaidades ao invés de uma réplica de uma obra impressionista! Há muito tempo eu não pensava dessa maneira, mas o homem vegetal despertou em mim a vontade de viver de forma mais espiritual; menos urbana, capitalista. Para viver como um vegetal, bastaria sê-lo. Era tão simples. E além do mais, eu estava inspirado. Deixei de estranhá-lo e passei a admirá-lo. Eu estava começando a despertar uma espécie de sexto sentido. Idem, um terceiro olho abria entre as minhas sobrancelhas. A velha tradição hinduísta tomava conta de mim. Eu precisava conhecê-lo pessoalmente. Mas antes precisava criar coragem. Como era de praxe, eu não tinha essa coragem. A minha timidez acoplada a minha desconfiança gerava certo bloqueio mental. Não estou me contradizendo, a minha mente sempre teve a audácia e a coragem suficientes para pensar em coisas que as pessoas tinham medo ou preconceito. O problema era expor tais pensamentos.
Eis que num belo dia de sol — geralmente os sábados são bem ensolarados, e foi justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
— Quando me mudei para cá, nos conhecemos logo nos primeiros instantes de minha chegada, lembra? — perguntei.
— Lembro.
—Você inclusive me ajudou na mudança, lembra?
— Claramente.
— Eu lhe falei meu nome...
— Falou.
— E no dia seguinte você já não sabia quem eu era e perguntou há quanto tempo eu morava aqui, sendo que era apenas meu segundo dia na casa.
— Oh, Sim. Agora sou eu quem pede desculpas. É por causa das minhas lembranças...
Que cara esquisito. Eu estava com uma sensação de que iria ouvir coisas sem nexo algum. Ele continuava:
— Caro observador, quando vim parar aqui, perdi um pouco de minha memória...
— E onde você morava?
— Na mítica Atlântida... Eu era rei de lá...
Eu já desconfiava de uma resposta dessas. Advindo de um louco então... Mas já que estava ali, indaguei:
— Pelo que sei a existência desse lugar não é tida como real — como se eu estivesse levando o diálogo a sério.
— Você já morou lá, não lembra?
— Não me venha com sofismas, por favor...
— É pura verdade. Você sabe quem eu sou?
— Um maluco?
— Eu sou seu irmão... Eu sou Atlas!
Loucura total. Eu estava quase indo embora. O ser que eu começava a admirar era apenas mais um a quem faltava parafusos na cabeça...
— Ok, “irmão” — em tom de ironia —, continue.
— Quando eu ataquei o Olimpo para alcançar o poder supremo, juntamente com outros de minha natureza...
— Que natureza?
— Eu era da geração dos seres que herdaram a fúria da natureza. Um monstro selvagem, por assim dizer... Um titã!
— Prossiga!
— Bem, Zeus acabou por derrotar-nos. E como castigo, lançou todos os outros em Tártaro...
— Tártaro?
— Sim, a região mais profunda do Hades. Alguns estão lá até hoje, e outros...
— E por que estamos aqui? — como se eu acreditasse em suas palavras...
— Para mim, ele me reservou um castigo especial: sustentar o globo terrestre sobre meus ombros. Mas eu fui imprudente. Como Atlântida era um lindo continente, eu o arranquei do globo e tentei fugir para reinar sobre ele novamente... Em vão! Zeus me achou e me castigou da pior maneira possível...
— Como?
— Transformou-me num humano.
Eu não sabia se ria ou se chorava. Só faltava ele me dizer que uma águia gigante comia meu fígado todos os dias...
— E qual foi o meu castigo, “titã”?
— Para você foi contemplar uma vida entediante e superficial. Você também se transformou em humano. Como eu estava dizendo, alguns estão em Hades até hoje, enquanto outros estão espalhados por aí, cada qual sofrendo com uma mazela humana. Eu fiquei com o vício, você com uma vida monótona e sem perspectiva.
— Você ficou com o vício... Talvez isso explique seu “fetiche” por café — argumentei de forma mais irônica.
Ele me olhou com descrença.
— Você não acredita em mim, não é? — perguntou.
— Você até adivinhou que minha vida é superficial... Isso é algo inegável, mas...
— Mas o quê? Você próprio falou que sente um elo entre nós...
— Retiro o que disse, talvez seja coisa da minha cabeça...
— Você acha que sou louco?
— Claro que não, uma pessoa que fala com as flores do jardim e ainda põe nome nelas!
— Não se assuste com isso, é que passei pela geração hippie e... Bem, você já ouviu Lucy in the Sky of Diamonds?
— Você se inspirou nessa música para nomear três flores...
— Sim, você observou bem. Como eu disse, eu estive em Woodstock, e como sou escravo do vício, essa, tão-só, foi uma época bem propícia para que eu conhecesse algumas...
— Drogas?
— Prefiro chamar de “instrumentos para a percepção”.
Eu senti que o diálogo estava tomando ares de revelação... Questionei:
— Quantos anos você tem?
— Não sei ao certo... Muitos séculos...
— Sei...
— Você não acredita em minhas palavras!
— Claro que acredito — falei isso para não contrariá-lo, pois nunca podemos discordar de um louco.
— Logo você, um rebento das emoções humanas. Eu lhe direi, meu caro observador: se está desconfiando de minha sanidade mental, devia pensar que não veio parar aqui por acaso. O que somos nós senão veementes carapaças de uma punição divina?
— Você tem um ego grande demais; esse é seu problema. Acha que é um titã porque não age como uma pessoa normal.
— Claro que eu sou uma pessoa normal...
— Prove!
— Sou um pedaço de carne e um amontoado de ossos ambulantes cuja existência não passa de complexas simplicidades. Eu amo, eu odeio, eu tenho fome, frio e sede; sou suscetível a milhares e milhares de doenças...
— Você é um misantropo...
— E sua vida é tão monótona que passa o dia a me observar!
— Isso foi uma provocação?
— Não... Foi uma verdade. Além do mais, você age como se fosse uma vestal. Sinto que precisa conhecer Baco o mais breve possível.
Não entendia o que ele queria dizer com aquilo. Ele se expressava de forma conotativa. Era difícil compreender sua linguagem. Eu não queria estender o diálogo, e lhe disse:
— Acho que vou para casa...
— Não vá agora, precisa sentir o crepúsculo antes de partir.
— Por favor, chega de loucuras por hoje. Sem mais delongas, partir-me-ei daqui...
— Você está com raiva?
— Não!
— Parece que sim.
— Não, não e não! Cale-se, esquizóide!
— Você está furioso. Ainda guarda vestígios da natureza titânica. Eu também tenho acessos de cólera de vez em quando, mas sem deixar de ser ridiculamente humano.
— O que quer de mim, afinal de contas?
— Vê aquelas sete flores douradas juntas?
— O que me interessa nessas flores?
— São suas sobrinhas; as minhas Plêiades. Zeus transformou minhas filhas em flores para que eu regasse a parte mais importante de meu passado. Ele pode ser impetuoso, mas não chega a ser cruel.
— Chega, irmão.
— De que me chamou?
— De nada. Digo... Irmão?
— Sim, eu sou seu irmão, e você sabe quem você é!
Um gaguejar oblongo instalou-se em minha fala:
— Prooo... Proooo... Promeee... Proo... Promet... Promet... Prometeu. Eu sou Prometeu! Lembrei-me... Eu sou teu irmão, Atlas; eu sou Prometeu!
— Isso, dá-me um abraço velho irmão.
— Antes diga como encontrar Zeus!
— Não sei ao certo.
— Agora eu sei como é laborioso ser um humano. Maldito Zeus! Maldito, maldito! Poderia me deixar naquele lugar infesto ao invés de me deixar apodrecer nesse invólucro. Olhe para essa pele que, que se rasga com facilidade. Olhe para esses braços, sem tonicidade alguma. E esse sangue imundo... Prefiro estar em Tártaro e não aqui. Desejo também nunca mais encontrar aquela maldita águia. E você, irmão, o que deseja: carregar os céus sobre os ombros ou ser um humano?
— Com toda a certeza, eu lhe respondo...
— Responda, bravo irmão.
— Prefiro carregar os céus sobre os ombros a ser um humano.
Aquele foi um momento histórico. O que antes não passava de um diálogo nonsense transformou-se num momento épico. Não somente pela frase de Atlas, mas também pelo repentino aparecer de Zeus. Uma epopéia num pequeno jardim... E o todo-poderoso pronunciou-se:
— Muito bem, caros titãs, escutem-me! Outrora eu os castiguei de forma que não mais ousassem me desafiar. Atlas carregava o mundo nas costas, mas não sei como, consegui fugir com Atlântida, e Prometeu, aos berros, implorou outro castigo para livrar-se da faminta águia que degustava seu fígado ininterruptamente. Não me restou alternativa a não ser dar-lhes o castigo mais cruel que existe: transformar-los em frágeis humanos. Outros também foram transformados em criaturas humanamente inferiores como vocês. Estão sofrendo como todo ser consciente. Cada um deles herdou uma fraqueza humana, algo que os incomodasse para sempre. Você, Atlas, sempre olhando para cima, a fim de que eu o avistasse do Olimpo e o retornasse para seu antigo castigo. Isso explica o porquê de lhe chamarem de “vegetal” neste lugar de seres desumanamente humanos. Estou errado?
Naquele momento, Zeus mostrou as respostas que eu tanto procurava. Era por isso que ele tanto olhava para um ponto imaginário próximo do sol, para que Zeus tivesse piedade e desse a ele a oportunidade de não mais ser um humano, nem que para isso ele tivesse de carregar a Terra nas costas novamente. Atlas falou com Zeus, não somente com a boca, mas também com os olhos:
— Zeus, para mim a humanidade é um impropério, de forma que eu realmente prefiro retornar ao castigo anterior. Eu cansei de tudo o que é humano, e principalmente do vício que me acompanha. Envergonha-me fazer parte de uma espécie como essa!
— Atlas — impôs-se Zeus —, olhe para Prometeu, que roubou o segredo do fogo para a humanidade. Seu fígado tornou-se um alimento primacial para a águia que destinei a ele. Mas quando ele implorou por outro castigo, tornei-o um humano sem chama alguma para viver, compreende? Uma vida fria, vazia e sem perspectiva. Ele levou o fogo para os homens, e não somente o fogo físico, aquele que queima a pele, mas também o fogo espiritual, aquele que aquece a alma, que dá vontade de viver. Tirei dele o fogo do espírito.
Eu questionei o detentor do meu destino:
— Zeus, o que fará comigo e com Atlas?
— Para Atlas, retorná-lo-ei ao seu castigo anterior. E você, Prometeu... Você pede para não rever a águia e ainda pede para sair dos parâmetros humanos e ir para Tártaro. Você não mais terá seu fígado dilacerado e degustado, pois não irei lhe aplicar o que apliquei antes, mas continuará aqui, nesse lugar habitado por mortais.
— Mas por que, Zeus?
— Porque não existe diferença entre Tártaro e a Terra! Você continuará sendo um humano. Vamos Atlas, vamos embora!
Espere um pouco, Zeus — volveu Atlas. — Antes, preciso me despedir de meu irmão. Prometeu, nessa vida terrena sempre fui um grande escritor. Ao olhar para certo ponto imaginário, tive inspiração para escrever. Como vivenciei fatos seculares, sempre carreguei uma barganha enorme de conhecimento. Como voltarei a sustentar a Terra, deixo a você esta casa, e principalmente este jardim. Ao sentar naquele banco, olhe para o sol, como sempre olhei...
— E depois?
— Escreva, caro irmão, simplesmente escreva... Adeus!
Eles se foram. As Plêiades também. E desde aquele dia tornei-me um “vegetal”, olhando fixamente para um ponto imaginário próximo do sol. Tornei-me também um grande escritor. Tenho duas casas agora: a dos meus pais, onde vivo como um ser humano, e a que ganhei de Atlas, onde vivo como escritor — e como vegetal, onde consigo me aquecer com o fogo do espírito, mesmo que raramente. Meu irmão mais novo passa o dia a me observar do segundo andar da casa — a casa de meus pais. Seria ele Menécio ou Epimeteu?

“O diabo é um otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são.”
(Karl Kraus)

“Prefiro carregar os céus sobre os ombros a ser um humano.”
(Atlas)