quinta-feira, 1 de abril de 2010

O Homem-Vegetal, a Luz e o Ponto Imaginário


Lá estava ele, sentado no mesmo lugar de sempre, naquele velho banco, naquele velho jardim de sua pequena casa, com aqueles mesmos trejeitos. Estava sempre com um olhar fixo em um ponto imaginário — ponto esse que se encontrava próximo do sol. O que passava pela mente daquele homem? À primeira vista, ele era a imagem do eremita urbano. Nunca fora visto bem arrumado, e quase sempre andava sozinho. Pouquíssimos eram seus contatos humanos. Não tinha mulher, não tinha filhos, não tinha visita de parentes próximos, enfim... Ao que poderia parecer, a única companhia que tinha, além dele mesmo, era seus livros.
Quando não estava praticando o hábito da leitura no quintal de sua casa — quintal esse muito bonito por sinal, com um belo jardim — estava olhando para o maldito ponto fixo. O que era tão interessante naquele ponto? Difícil entender, não é mesmo? Alguns vizinhos apelidaram-no de “O Homem-Vegetal”. Outro detalhe: não trabalhava... Ou era rico ou era um aposentado por invalidez, pois apesar da aparência de idade já avançada, não parecia ter idade para aposentar. Todos da cidade davam-lhe algo próximo a quarenta e cinco anos. Era um homem simples, de poucas palavras. Porém, demonstrava-se muito simpático com os mesmos vizinhos que tinham como referência dele um vegetal. Sempre dava um “bom dia”, uma “boa tarde” e uma “boa noite” de forma prestativa, com sorriso bem alegre e bonito, apesar de seus dentes amarelados pelo constante uso — e abuso — de café. Como bebia café aquele homem!
Esse sujeito lembrava os personagens do universo de Kafka. Ele era tão desumano em suas atitudes humanas... Sua obsessão pelo ponto imaginário era algo surreal. Certa vez, ele estava deitado sobre as gramas do jardim, com os olhos fechados, em estado catatônico. As suas mãos estavam erguidas, direcionadas ao sol, como se estivesse realizando um processo de fotossíntese, tão comum nos vegetais. A luz do sol parecia “alimentá-lo". Seu longo cabelo espalhava-se à grama, e sua longa barba dava certa impressão profética nele. Nos longos momentos de catarse, ele começava a proferir frases desconexas, sem sentido. Certa vez, dissera que tinha uma idade secular, e que estava esperando o momento certo para se libertar das correntes, também seculares. Eu observava tudo isso do segundo andar de minha casa. Ele era meu vizinho — ele não mora mais na cidade.
Quando me mudei para a casa onde hoje moro, fui bem recebido por ele. Apesar das poucas palavras, demonstrou-se bastante simpático. Com o passar do tempo, tornou-se fechado. Às vezes eu o via na rua e o cumprimentava, e ele já nem lembrava meu nome. Então pensei: “Será que ele usa drogas?”. Era possível, pois ele próprio dava sinais de minha suspeita. Certa vez, eu o vi conversando com uma camélia, um girassol e um lírio cor-de-rosa. É sério! Não bastasse a loucura de falar sozinho, ainda nomeava as flores. A camélia, o girassol e o lírio cor-de-rosa chamavam-se, respectivamente: Lucy, Sky e Diamond. Após anos ouvindo música dos mais variados estilos, lembrei-me de uma música chamada Lucy in the Sky with Diamonds, dos The Beatles. As inicias dessa música formam a sigla LSD, o tão famoso dietilamida do ácido lisérgico.
Conhecer esse sujeito foi o fim total de minha inocência. Como era de praxe, a minha santa “virgindade mental” acerca das loucuras do mundo talvez fosse resultado de uma vida trancafiada em meu quarto. E por muitos instantes, eu me senti como aquele homem. Eu simplesmente detestava pensar dessa maneira, mas era inevitável. Eu próprio já falei sozinho. Mas equiparar-se àquela criatura era o fim da picada. Meus pensamentos caminhavam como verdadeiros cavalos de tróia. Eles me enganavam. Eu nada tinha a ver com aquele doidivanas. Talvez a minha inocência fosse provocada pela falta de atenção ao mundo que me cercava.
Eu começava a prestar atenção naquele sujeito. Uma atenção moderada, algo que passasse longe da obsessão. Subjetivamente falando, eu achava que as ações humanas eram como defesas naturais; cada gesto assemelhava-se a um anticorpo contra o cotidiano da vida. Engraçado, a cada dia eu começava a pensar mais e mais. Eflúvios pensamentos; repentinos. E qualquer momento que fosse, lá estava aquele homem, olhando para aquele velho ponto fixo, próximo do sol. Foi nessa loucura que eu percebi: o ser humano é tão simples em sua complexidade... Talvez fosse apenas um momento de lazer. Cada um passa o tempo da maneira que bem entender.
Eu próprio não tinha muitos contatos humanos, como ele também não tinha. Mas nada que me tornasse um eremita como ele. Ele era o zero, eu era o zero vírgula cinco. As intrigas entre a realidade normal e a realidade distorcida começaram a perturbar minha mente. E lá estava ele, novamente, olhando para aquele maldito ponto fixo. Eu estava ficando irritado. Antigamente, eu nem me importava, mas algo começava a me perturbar naquele vegetal em forma de carne e osso estáticos. Eu o observava, mas ele não me observava. Era uma observação unilateral. De minha parte, um universo observatório. Bastavam as observações!
Eu sentia que era hora de ocupar meu tempo e fazer algo de útil. Esquecer aquele vegetal prestes a queimar de tanta luz, e a formar um quadro do pontilhismo de tantos pontos fixos e imaginários. Mas aquilo me intrigava, e a curiosidade de saber o que se passava na mente daquele homem aumentava a cada dia. A agonia da curiosidade parecia-se muito com a minha curiosidade de conhecer uma mulher, digamos, de forma bem “quente”, quando eu tinha dezesseis anos. Engraçado, nunca fui possuidor de grande beleza física, por isso adiantei muitos “encontros quentes” com uma mulher do jeito mais fácil, se é que me compreendem. Minha vida sempre foi muito superficial, como um vegetal, e não como um ser humano. E a partir dessa superficialidade foi que comecei a me comparar com o Homem-Vegetal. Entrei em desespero. As ondas elétricas do meu cérebro transformaram-se em verdadeiros trovões delirantes.
Esse homem parecia querer abrir minha mente. Um vegetal com a missão de mostrar algo que eu nunca tive coragem de ver, muito menos fazer. Seria libertinagem pensar dessa maneira? Eu estava começando a andar pelo caminho dos excessos, para chegar ao palácio da sabedoria, da forma que William Blake pensava. Mas o que haveria de tão sábio em olhar fixamente para um ponto imaginário? Aparentemente não muito. Mas algo me dizia que eu começaria a enxergar uma lucidez naquele vegetal. Um distúrbio mental pode causar um efeito devastador no corpo, como as doenças psicossomáticas, por exemplo. Mas quando terminava de olhar o ponto imaginário, com o fim do pôr-do-sol, ele saía do “transe” e aparentava uma alegria muito forte. Logo depois, saía para caminhar, e quando voltava à noite, escrevia.
Não era nenhum escritor famoso, pois eu nunca o vira nas revistas, na televisão, enfim... O que será que ele tanto escrevia? Eu não sabia, e nem era da minha conta. Mas que imã mental poderia ser esse? Por que se importar com um vegetal? Para falar a verdade, eu me importava mais com aquele homem do que comigo mesmo. Qual seria o segredo que ele tanto escondia? Seu estilo de vida era tão peculiar quanto o meu. Eu simplesmente esperava a vida ser aquiescida. E por todo esse tempo eu nunca fiz algo relevante, que contribuísse com minha elevação espiritual. Sempre fui otimista. É como dizem por aí: “Um otimista é um pessimista mal informado”. Sempre caminhei descalço nos vidros despedaçados pela minha inocência.
Quando chovia ele não saía da casa, por causa da ausência do sol. Mas depois da chuva, era a vez do arco-íris. Ele olhava um ponto imaginário próximo do arco-íris. Quando o sol aparecia, ele desviava seu olhar para a estrela mais próxima da Terra. E lembro-me de um poema que ele declamou para as flores de seu belíssimo jardim, cheio de lirismos:

Belas são vocês, flores minhas
Feitas com o amor da mãe-terra
Amanhecem com o meu Sol (alvorada)
E morrem com o meu crepúsculo (morrer do Sol)

Bela também é a minha estrela
E apesar de tanto tempo
Eu gorjeio como da primeira vez
E sumariamente as acalento

Eu sou um historiador secular
Não faço comentários sobre os fatos
Eu simplesmente os vivo
E os descrevo nas paredes do meu quarto

Belas são vocês, flores minhas
Cuja semelhança com o ser humano é o Sol
Vocês precisam dele, mas possuem muita sorte
Não precisam ser humanas para provar do Sol

O maior pecado da humanidade é ser humana
Na condição de vis almas penadas
Da ganância e do pouco tempo que lhes resta
Eu dispenso a Humanidade, a anciã que não se cala

Eu carreguei os céus por muito tempo
E nunca mais vi minhas Plêiades em formas vistosas
Mas as tenho em meu jardim
São vocês, minhas flores tão formosas

Apesar de achá-lo “diferente”, foi uma das coisas mais bonitas que eu escutara. Ele era um poeta! Simplesmente fez meu queixo cair. Antes eu sentia indiferença, mas passei a sentir um pouco de inveja. Quanta criatividade. E quanta loucura. Eu até tinha certa veia poética, mas comparado àquele camarada eu tinha de aprender a ler e escrever novamente. As palavras direcionadas às flores me fizeram refletir sobre a aparente felicidade daquele homem. Seria esse o segredo da felicidade? Viver de maneira simples, sem a influência do consumismo moderno? Um de meus grandes ídolos, Mahatma Ghandi, alentava-me admiração; a mesma que eu começava a sentir em meu estranho vizinho. A minha mente estava em grande odisséia. Eu não pensava em nada a não ser seguir a “doutrina” do Homem-Vegetal. Era isso, precisava meditar, transformar-me num vegetal, e absorver os raios solares como uma planta. Infelizmente, o ambiente de minha casa nunca foi, digamos... Pacífico. Era difícil me concentrar.
Minha família nunca teve cérebro. Eram todos afoitos, corriam atrás de um materialismo do qual eles não podiam arcar. Complicado viver assim. Eu sempre fui o mais inteligente, no sentido de não sucumbir às armadilhas da vida. Por outro lado, deixei de aproveitar certas ocasiões. Que festa que nada, em época de natal eu aproveitava as férias escolares para desenhar, ler, enfim... E eles também me chamavam de estranho. E com essa lembrança foi que eu comecei a me perguntar: “Quem sou eu para julgar uma pessoa que se parece tanto comigo?”. Eu começava a deixar de observar o vegetal. Gradualmente retomava minha vida. Mas durante o processo não consegui parar de pensar nele. Comecei a sentir um elo entre nós. Era algo que prendia ou simplesmente ligava.
Esse elo tornou-se aparente num dia que em minha vontade de conhecê-lo melhor — frente a frente — transpareceu repentinamente. Lá estava eu, numa bela manhã, voltando da padaria, quando vi o portão da casa dele aberto. As chamas de minha curiosidade acenderam numa fração de segundos, tanto que os cientistas teriam de rever o césio-133, e medir o tempo de outra forma. “Entrar ou não entrar, eis a questão”... Entrei. Shakespeare, você bem que tentou, não foi dessa vez. E como numa resposta imediata à minha entrada, meu corpo sentiu-se leve. Que paz de espírito... Os cânticos dos pássaros e a beleza das flores era algo tão... Arcádico. Fugere Urbem foi a frase que surgiu em minha mente. A exaltação à natureza naquele lugar era quase uma seita. À primeira vista, ele não estava no jardim. Deu-me vontade de sentar naquele banco. Minhas pernas involuntariamente estavam caminhando para lá, mas quando cheguei à metade do jardim, voltei. Não era de minha índole invadir a privacidade alheia, e se o fizesse, tornar-me-ia mais humano ao praticar um ato que pudesse gerar conseqüências não muito agradáveis.
No dia seguinte, um belo sábado de sol, acordei com o som de um violão. O “vegetal” estava tocando uma bela música erudita. Composição dele talvez, pois eu nunca havia escutado aquelas melodias e harmonias. Ele tocava de forma feérica. Seus acordes pareciam querer alcançar os ouvidos dos deuses. Um detalhe que não cheira a novidade: ele estava tocando com o olhar fixo num ponto imaginário próximo do sol. O “vegetal” estava inspirado. Eu não poderia mais achá-lo estranho. Muito pelo contrário: eu estava começando a achar estranho todo e qualquer Homo Sapiens Sapiens que não apreciasse a arte daquela maneira. Haja vista que os seres humanos são capazes de fazer arte, não sei por que não fazem. Talvez muitos não sabem, mas para fazer arte não é preciso nascer com o dom, o único dom que existe é a persistência de querer dominá-la por completo.
Morram, seres ignóbeis! Comprem seus cigarros ao invés de um livro, comprem suas vaidades ao invés de uma réplica de uma obra impressionista! Há muito tempo eu não pensava dessa maneira, mas o homem vegetal despertou em mim a vontade de viver de forma mais espiritual; menos urbana, capitalista. Para viver como um vegetal, bastaria sê-lo. Era tão simples. E além do mais, eu estava inspirado. Deixei de estranhá-lo e passei a admirá-lo. Eu estava começando a despertar uma espécie de sexto sentido. Idem, um terceiro olho abria entre as minhas sobrancelhas. A velha tradição hinduísta tomava conta de mim. Eu precisava conhecê-lo pessoalmente. Mas antes precisava criar coragem. Como era de praxe, eu não tinha essa coragem. A minha timidez acoplada a minha desconfiança gerava certo bloqueio mental. Não estou me contradizendo, a minha mente sempre teve a audácia e a coragem suficientes para pensar em coisas que as pessoas tinham medo ou preconceito. O problema era expor tais pensamentos.
Eis que num belo dia de sol — geralmente os sábados são bem ensolarados, e foi justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
justamente num sábado que o fato que contarei a seguir ocorreu — eu acordei com a luz solar em minha face. Que manhã linda! Olhei para o jardim de meu vizinho. Aquilo era um pequeno paraíso — e ainda é. Ele não estava lá, talvez ainda estivesse dormindo. Para minha surpresa, o portão da casa dele estava aberto. Eu precisava sentir o frescor daquele jardim novamente. Pela vontade de minhas pernas, eu já estaria lá, mas... Eu simplesmente não estava agüentando mais. O ambiente de minha casa era pesado, e eu precisava daquela leveza que senti quando adentrei àquele jardim. Não resisti: saí do meu quarto, desci as escadas e fui direto para a rua. Posicionei-me ante ao portão da casa do vegetal. Levantei a cabeça e fui. Era como se estivesse entrando num portal onde me levasse a um mundo mágico. Eu estava prestes a me sentir como Alice no País das Maravilhas. O portão estava encostado. Abri-o silenciosamente. E finalmente...
Entrei. Que ar puro! Quantas flores! Os pássaros não estavam engaiolados e voavam livremente. Que sensação de liberdade maravilhosa. Olhei atentamente para os lados para não ser pego de surpresa. O banco em que ele sentava para admirar os pontos fixos e imaginários estava ali, na minha frente. Eu caminhei... Estava para sentar...
— Você ainda não tem o direito de sentar aí! Espere um pouco, precisamos conversar!
Ele tinha falado comigo. Era uma voz altiva, ao contrário da minha, que era sem vida. Uma de suas mãos segurava um copo grande, completamente cheio de café. Ele deu um gole, que valia por dez goles meus. Eu também precisava falar algo...
— Desculpe-me, é que eu sempre admirei esse jardim.
— Eu sei! Você não observa somente o jardim, mas a mim também.
— Como sabe?
— Eu simplesmente sei.
Ele estava à vontade, já eu... O que eu poderia argumentar naquele momento? Quais seriam minhas premissas para justificar meus atos?
— Você está chateado? — perguntei.
— Não. Sua curiosidade é normal para um humano consciente.
— Me desculpe mais uma vez, mas é que... Pode parecer estranho, mas de uns tempos para cá eu comecei a sentir um elo entre nós.
— Eu sei.
— Como assim, sabe?
— Outrora você foi como eu.
— Como você?
— Sim, mas não se recorda... Eu posso lhe explicar...
Eu estava com um pressentimento de que iria iniciar um diálogo com um maluco... E conversar com um maluco não é muito... São. Aproveitei a ocasião:
— Podemos conversar nesse banco então?
— Não, quando for o momento certo você sentará nele. Vamos nos acomodar ao chão por ora. Vamos para debaixo daquela árvore!
Nós fomos em direção à árvore. Sentamos numa bela parte gramada do jardim. Mas nem a beleza do local me tirava o receio de conversar com ele. Eu entrei ali sem permissão, e precisava arcar com as conseqüências.
— Muito bem, está pronto, meu observador? — perguntou com firmeza, num tom sério.
— Sim.
— Antes de explicar nossas semelhanças, vou responder as suas dúvidas em relação à minha pessoa. Comece!
“Agora não tem como fugir”, pensei antes de iniciar um questionário:
— Quando me mudei para cá, nos conhecemos logo nos primeiros instantes de minha chegada, lembra? — perguntei.
— Lembro.
—Você inclusive me ajudou na mudança, lembra?
— Claramente.
— Eu lhe falei meu nome...
— Falou.
— E no dia seguinte você já não sabia quem eu era e perguntou há quanto tempo eu morava aqui, sendo que era apenas meu segundo dia na casa.
— Oh, Sim. Agora sou eu quem pede desculpas. É por causa das minhas lembranças...
Que cara esquisito. Eu estava com uma sensação de que iria ouvir coisas sem nexo algum. Ele continuava:
— Caro observador, quando vim parar aqui, perdi um pouco de minha memória...
— E onde você morava?
— Na mítica Atlântida... Eu era rei de lá...
Eu já desconfiava de uma resposta dessas. Advindo de um louco então... Mas já que estava ali, indaguei:
— Pelo que sei a existência desse lugar não é tida como real — como se eu estivesse levando o diálogo a sério.
— Você já morou lá, não lembra?
— Não me venha com sofismas, por favor...
— É pura verdade. Você sabe quem eu sou?
— Um maluco?
— Eu sou seu irmão... Eu sou Atlas!
Loucura total. Eu estava quase indo embora. O ser que eu começava a admirar era apenas mais um a quem faltava parafusos na cabeça...
— Ok, “irmão” — em tom de ironia —, continue.
— Quando eu ataquei o Olimpo para alcançar o poder supremo, juntamente com outros de minha natureza...
— Que natureza?
— Eu era da geração dos seres que herdaram a fúria da natureza. Um monstro selvagem, por assim dizer... Um titã!
— Prossiga!
— Bem, Zeus acabou por derrotar-nos. E como castigo, lançou todos os outros em Tártaro...
— Tártaro?
— Sim, a região mais profunda do Hades. Alguns estão lá até hoje, e outros...
— E por que estamos aqui? — como se eu acreditasse em suas palavras...
— Para mim, ele me reservou um castigo especial: sustentar o globo terrestre sobre meus ombros. Mas eu fui imprudente. Como Atlântida era um lindo continente, eu o arranquei do globo e tentei fugir para reinar sobre ele novamente... Em vão! Zeus me achou e me castigou da pior maneira possível...
— Como?
— Transformou-me num humano.
Eu não sabia se ria ou se chorava. Só faltava ele me dizer que uma águia gigante comia meu fígado todos os dias...
— E qual foi o meu castigo, “titã”?
— Para você foi contemplar uma vida entediante e superficial. Você também se transformou em humano. Como eu estava dizendo, alguns estão em Hades até hoje, enquanto outros estão espalhados por aí, cada qual sofrendo com uma mazela humana. Eu fiquei com o vício, você com uma vida monótona e sem perspectiva.
— Você ficou com o vício... Talvez isso explique seu “fetiche” por café — argumentei de forma mais irônica.
Ele me olhou com descrença.
— Você não acredita em mim, não é? — perguntou.
— Você até adivinhou que minha vida é superficial... Isso é algo inegável, mas...
— Mas o quê? Você próprio falou que sente um elo entre nós...
— Retiro o que disse, talvez seja coisa da minha cabeça...
— Você acha que sou louco?
— Claro que não, uma pessoa que fala com as flores do jardim e ainda põe nome nelas!
— Não se assuste com isso, é que passei pela geração hippie e... Bem, você já ouviu Lucy in the Sky of Diamonds?
— Você se inspirou nessa música para nomear três flores...
— Sim, você observou bem. Como eu disse, eu estive em Woodstock, e como sou escravo do vício, essa, tão-só, foi uma época bem propícia para que eu conhecesse algumas...
— Drogas?
— Prefiro chamar de “instrumentos para a percepção”.
Eu senti que o diálogo estava tomando ares de revelação... Questionei:
— Quantos anos você tem?
— Não sei ao certo... Muitos séculos...
— Sei...
— Você não acredita em minhas palavras!
— Claro que acredito — falei isso para não contrariá-lo, pois nunca podemos discordar de um louco.
— Logo você, um rebento das emoções humanas. Eu lhe direi, meu caro observador: se está desconfiando de minha sanidade mental, devia pensar que não veio parar aqui por acaso. O que somos nós senão veementes carapaças de uma punição divina?
— Você tem um ego grande demais; esse é seu problema. Acha que é um titã porque não age como uma pessoa normal.
— Claro que eu sou uma pessoa normal...
— Prove!
— Sou um pedaço de carne e um amontoado de ossos ambulantes cuja existência não passa de complexas simplicidades. Eu amo, eu odeio, eu tenho fome, frio e sede; sou suscetível a milhares e milhares de doenças...
— Você é um misantropo...
— E sua vida é tão monótona que passa o dia a me observar!
— Isso foi uma provocação?
— Não... Foi uma verdade. Além do mais, você age como se fosse uma vestal. Sinto que precisa conhecer Baco o mais breve possível.
Não entendia o que ele queria dizer com aquilo. Ele se expressava de forma conotativa. Era difícil compreender sua linguagem. Eu não queria estender o diálogo, e lhe disse:
— Acho que vou para casa...
— Não vá agora, precisa sentir o crepúsculo antes de partir.
— Por favor, chega de loucuras por hoje. Sem mais delongas, partir-me-ei daqui...
— Você está com raiva?
— Não!
— Parece que sim.
— Não, não e não! Cale-se, esquizóide!
— Você está furioso. Ainda guarda vestígios da natureza titânica. Eu também tenho acessos de cólera de vez em quando, mas sem deixar de ser ridiculamente humano.
— O que quer de mim, afinal de contas?
— Vê aquelas sete flores douradas juntas?
— O que me interessa nessas flores?
— São suas sobrinhas; as minhas Plêiades. Zeus transformou minhas filhas em flores para que eu regasse a parte mais importante de meu passado. Ele pode ser impetuoso, mas não chega a ser cruel.
— Chega, irmão.
— De que me chamou?
— De nada. Digo... Irmão?
— Sim, eu sou seu irmão, e você sabe quem você é!
Um gaguejar oblongo instalou-se em minha fala:
— Prooo... Proooo... Promeee... Proo... Promet... Promet... Prometeu. Eu sou Prometeu! Lembrei-me... Eu sou teu irmão, Atlas; eu sou Prometeu!
— Isso, dá-me um abraço velho irmão.
— Antes diga como encontrar Zeus!
— Não sei ao certo.
— Agora eu sei como é laborioso ser um humano. Maldito Zeus! Maldito, maldito! Poderia me deixar naquele lugar infesto ao invés de me deixar apodrecer nesse invólucro. Olhe para essa pele que, que se rasga com facilidade. Olhe para esses braços, sem tonicidade alguma. E esse sangue imundo... Prefiro estar em Tártaro e não aqui. Desejo também nunca mais encontrar aquela maldita águia. E você, irmão, o que deseja: carregar os céus sobre os ombros ou ser um humano?
— Com toda a certeza, eu lhe respondo...
— Responda, bravo irmão.
— Prefiro carregar os céus sobre os ombros a ser um humano.
Aquele foi um momento histórico. O que antes não passava de um diálogo nonsense transformou-se num momento épico. Não somente pela frase de Atlas, mas também pelo repentino aparecer de Zeus. Uma epopéia num pequeno jardim... E o todo-poderoso pronunciou-se:
— Muito bem, caros titãs, escutem-me! Outrora eu os castiguei de forma que não mais ousassem me desafiar. Atlas carregava o mundo nas costas, mas não sei como, consegui fugir com Atlântida, e Prometeu, aos berros, implorou outro castigo para livrar-se da faminta águia que degustava seu fígado ininterruptamente. Não me restou alternativa a não ser dar-lhes o castigo mais cruel que existe: transformar-los em frágeis humanos. Outros também foram transformados em criaturas humanamente inferiores como vocês. Estão sofrendo como todo ser consciente. Cada um deles herdou uma fraqueza humana, algo que os incomodasse para sempre. Você, Atlas, sempre olhando para cima, a fim de que eu o avistasse do Olimpo e o retornasse para seu antigo castigo. Isso explica o porquê de lhe chamarem de “vegetal” neste lugar de seres desumanamente humanos. Estou errado?
Naquele momento, Zeus mostrou as respostas que eu tanto procurava. Era por isso que ele tanto olhava para um ponto imaginário próximo do sol, para que Zeus tivesse piedade e desse a ele a oportunidade de não mais ser um humano, nem que para isso ele tivesse de carregar a Terra nas costas novamente. Atlas falou com Zeus, não somente com a boca, mas também com os olhos:
— Zeus, para mim a humanidade é um impropério, de forma que eu realmente prefiro retornar ao castigo anterior. Eu cansei de tudo o que é humano, e principalmente do vício que me acompanha. Envergonha-me fazer parte de uma espécie como essa!
— Atlas — impôs-se Zeus —, olhe para Prometeu, que roubou o segredo do fogo para a humanidade. Seu fígado tornou-se um alimento primacial para a águia que destinei a ele. Mas quando ele implorou por outro castigo, tornei-o um humano sem chama alguma para viver, compreende? Uma vida fria, vazia e sem perspectiva. Ele levou o fogo para os homens, e não somente o fogo físico, aquele que queima a pele, mas também o fogo espiritual, aquele que aquece a alma, que dá vontade de viver. Tirei dele o fogo do espírito.
Eu questionei o detentor do meu destino:
— Zeus, o que fará comigo e com Atlas?
— Para Atlas, retorná-lo-ei ao seu castigo anterior. E você, Prometeu... Você pede para não rever a águia e ainda pede para sair dos parâmetros humanos e ir para Tártaro. Você não mais terá seu fígado dilacerado e degustado, pois não irei lhe aplicar o que apliquei antes, mas continuará aqui, nesse lugar habitado por mortais.
— Mas por que, Zeus?
— Porque não existe diferença entre Tártaro e a Terra! Você continuará sendo um humano. Vamos Atlas, vamos embora!
Espere um pouco, Zeus — volveu Atlas. — Antes, preciso me despedir de meu irmão. Prometeu, nessa vida terrena sempre fui um grande escritor. Ao olhar para certo ponto imaginário, tive inspiração para escrever. Como vivenciei fatos seculares, sempre carreguei uma barganha enorme de conhecimento. Como voltarei a sustentar a Terra, deixo a você esta casa, e principalmente este jardim. Ao sentar naquele banco, olhe para o sol, como sempre olhei...
— E depois?
— Escreva, caro irmão, simplesmente escreva... Adeus!
Eles se foram. As Plêiades também. E desde aquele dia tornei-me um “vegetal”, olhando fixamente para um ponto imaginário próximo do sol. Tornei-me também um grande escritor. Tenho duas casas agora: a dos meus pais, onde vivo como um ser humano, e a que ganhei de Atlas, onde vivo como escritor — e como vegetal, onde consigo me aquecer com o fogo do espírito, mesmo que raramente. Meu irmão mais novo passa o dia a me observar do segundo andar da casa — a casa de meus pais. Seria ele Menécio ou Epimeteu?

“O diabo é um otimista, se acha que pode tornar as pessoas piores do que já são.”
(Karl Kraus)

“Prefiro carregar os céus sobre os ombros a ser um humano.”
(Atlas)

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