segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os Becos Imundos de uma Senhorita Parisiense


Marie atravessou uma daquelas belas ruas de Paris. Olhou para os lados e percebeu que estava sozinha numa das ruas mais movimentadas da cidade-luz. "Que estranho", pensou. Perscrutou nas esquinas para ver se havia alguém. Sua busca não dera resultados. Irrompeu, de súbito, um mendigo, cuja mão enrugada pela sujeira bateu no ombro direito da senhorita. Ela, obviamente assustada e com asco provocado pela aparência grotesca do mendigo, perguntou:
- Ei, por que a cidade está tão vazia?
- Hoje é dia de as pessoas ficarem em casa - respondeu o mendigo.
- Mas por que elas estão em casa? Digo, não há nada de errado em ficar em casa, mas quando todo mundo está, é porque algo está errado...
- Não há nada de errado, elas apenas querem ficar em casa.
Marie decidiu abandonar o colóquio um tanto quanto infrutífero e decidiu ir para o seu apartamento. Passaram-se alguns dias, e a população continuava enclaurasurada... Marie então sentiu seu corpo estremecer, seu corpo desejava o mendigo que lhe abordara naquela fatídico dia. Foi então à procura dele, e apesar das vestes surradas, puídas, o mendigo tinha um rosto consideravelmente bonito, a contar pelos grandes olhos azuis como o lápis-lazúli.
- Você é o único que anda pelas ruas, e eu sinto necessidade de um homem colado em meu corpo - disse Marie, com uma face enrubescida porém sedutora.
O mendigo se posicionou.
-Há dez anos que não tenho contatos íntimos com uma fêmea, minha senhora, e prefiro que continue assim.
-Mas por quê? - perguntou Marie, espantada e humilhada por ter seu belo corpo recusado por um ser cujo traje puído não valia sua miserável existência.
-A senhorita me deseja por necessidade, e se ao menos fosse por compaixão eu entenderia. Aprendi a viver comendo lixo, e me acostumei. Acostumei-me também à abstinência sexual. Por favor, não venha arrancar-me o bem mais valioso que possuo...
- E o que é tão valioso para você?
- O meu limite de sobrevivência. Se eu te tocar uma vez, posso querer tocar mais vezes, e quando a senhorita não mais me quiser, eu sofrerei como sofre um velho decrépito e leproso
Marie se foi. Passou-se mais algum tempo e ela decidiu viver reclusa (Marie saía apenas para trabalhar) enquanto os moradores de Paris voltavam, gradualmente, a agitar a cidade. Ela aprendeu a viver com pouco, e quando decidiu sair do apartamento, mal trajada, com cabelos desgrenhados e uma aparência perto de ser deplorável, avistou o mendigo sob o bruxulear dos postes altos da cidade, e este lhe disse:
- Agora sim, posso lhe tocar.
Desde então, Marie começou a se encontrar com o mendigo nos becos imundos, passando inclusive a trocar as refinadas refeições que seu bom emprego sempre lhe proporcionara pelos banquetes que saíam herméticos das latas de lixo.

Um comentário:

  1. Que doido Jesus.
    Vale a pena sempre lembrar que todo ser humano pode se adaptar, por qualquer razão, a qualquer situação.

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