sábado, 2 de outubro de 2010

Corra, coelho, cave um buraco, esqueça o sol


Ele precisava de férias, e enfim, estava desfrutando-as. Foi à praia relembrar um pouco da infância. A última vez que se deleitou no mar foi aos onze anos, e catorze anos depois, retornou ao único lugar que lhe proporcionou (etéreas) alegrias na tenra idade. Prometeu a si mesmo esquecer o resto do passado, o que era um tanto difícil, mesmo diante das águas dançantes do mar e do fulgor do pôr-do-sol. Às seis horas da manhã ele já caminhava nas calçadas da cidade, e às dez, tomava banho de mar. O maldito vulcão de desgraças, que estava dormindo em sua mente por alguns dias, ameaçava entrar em erupção. A família desunida, os fracassos profissionais, as drogas, enfim. Resolveu viajar sozinho, por opção e porque também não tinha a quem convidar. Na realidade, ele adorava ficar sozinho, e não entendia o motivo de as pessoas confundirem paz com solidão. Não era um solitário, era apenas uma peça errante de um jogo de xadrez; uma peça que decidiu não fazer parte de um jogo onde os peões são postos à frente para proteger as peças mais abjetas, como bispos, rei, rainha . Ele era simplesmente o ser humano que queria construir uma nova vida. Construir, aliás, é o mais prudente a se fazer: é necessário derrubar a casa já decrépita e erigir outra. Reconstruir implica em conservar cicatrizes.
Sentado num quiosque, bebendo cerveja e ouvindo Pink Floyd através do fone do Mp4, avistou uma criança que aparentava ter seis anos de idade. Ela chorava, como se quisesse conseguir algo através das lágrimas. A mãe simplesmente a ignorava. Pediu mais uma cerveja dentre as várias que pediria, e pensou: “Sempre achei que os pais, com raríssimas exceções, nunca existiram; o que existem são apenas reprodutores.” A criança, ainda ignorada, afastou-se da mãe negligente, que ajeitava o corpo para se bronzear. A genitora, possuída pela vaidade e pelo desejo de ter a pele bronzeada, preferiu o sol a ter que agir como mãe.
Ao meio-dia, quando já estava completamente bêbado, decidiu pedir a última garrafa de cerveja. Ao passo que bebia, olhava a criança se afastando da mãe desnaturada. Ela enfiou os pezinhos inocentes na beira do mar. Ele, sabendo que as crianças, por natureza, fazem o que querem por falta de noção do perigo e por uma pérfida curiosidade, previu que ela, se não fosse tirada dali, avançaria e acabaria sendo levada pelo mar. Na verdade, ele poderia se levantar e tirá-la daquelas águas traiçoeiras, mas preferiu terminar de beber a cerveja. A letargia causada pelo álcool não é pior que a causada pela imprudência. A indolência dos adultos poderia ser um pré-requisito para castrá-los.
Ele chamou o dono do quiosque e vaticinou:
— Aquele rapazinho será tragado pelo mar.
— E aonde estão os pais dele?
— Eu acho que apenas a mãe dele está na praia.
— Eu irei tirá-lo de lá.
— Não precisa se preocupar, traga mais uma cerveja, porque o pequenino já se afogou — diferente de Narciso, temos aqui um ser que se afogou por causa da vaidade de outrem.
A forma fleumática com que anunciou a morte do menino assustou o dono do quiosque, que perguntou:
— Por que será que ninguém o tirou de lá antes?
— Porque são reprodutores! — algumas pessoas à sua volta, que escutaram a conversa, olharam-no inquisitoriamente; as mesmas pessoas que também não se levantaram para resgatar a criança. A sociedade se escarnece inconscientemente.
— E por que você está sorrindo, mesmo diante dessa tragédia?
— Que futuro teria uma criança trocada pelo sol? Que estrada seguiria uma ser trocado pela vaidade?
— Desculpe, amigo, mas não o compreendo.
— O que quero dizer é que o mar deu mais atenção a ele do que sua própria mãe. Às vezes são tangíveis a nós apenas as pessoas ou coisas que nos fazem mal. Ao menos, o pequenino não será atormentado por um passado funesto, como acontece comigo constantemente. O pequeno, ao invés de correr do mar, preferiu correr da negligência materna. É o que fazemos constantemente, corremos daquilo que não nos apetece. Eu não corri, por isso carrego um passado que me deixará livre apenas quando eu morrer. Quem sabe, se eu tivesse corrido...
De súbito, começou a cantar um trecho da música que estava ouvindo no Mp4: Run, rabbit run/ Dig that hole, forget the sun...

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