sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O que realmente importa


Um rico comerciante entrou num bar modesto. Tinha pressa, pouco importava, naquele momento, a reputação do local. Acomodou-se numa mesa e pediu cerveja, trazida rapidamente. Sorveu o primeiro gole. Em seguida, observou que, na mesa ao lado, havia um homem de cabelo desgrenhado e barba por fazer. Era um filósofo. O comerciante, fitando-lhe curiosamente, disse-lhe:
— Desculpe-me, mas vejo que você não anda tão preocupado com a vida. Vejo isso pela sua paciência e pelo seu modo de se vestir.
— E vejo que você se preocupa muito, não é mesmo? Vejo isso pelo seu modo de se vestir e pelo seu olhar um tanto capitalista — disse o filósofo, cofiando a barba e bebendo cerveja.
—Olhar capitalista? — estranhou o comerciante.
— Sim, um olhar perdido como o de um cego.
— Diga-me, por que você não tem preocupações? Você é rico?
— Não sou rico, não me preocupo porque não há nada com o que me preocupar.
— Como assim?
— A vida é tão breve que não tenho de me preocupar, não tenho tempo para ser triste ou alegre — para o comerciante, essa resposta teve o mesmo impacto de um soco no estômago.
— Então você vive por viver?
— Sim, enquanto você, creio eu, vive para morrer.
O comerciante assentiu com a cabeça e, civilmente, fez um convite ao filósofo:
— Sente-se aqui, vou lhe pagar algumas cervejas.
— Eu aceito, mas da próxima vez, eu pago. Eu tenho muito dinheiro.
— Mas você acabou de me dizer que não é rico.
— E não sou: para juntar o dinheiro que tenho hoje, perdi muito tempo me matando de trabalhar quando eu era engenheiro, perdi a riqueza de viver plenamente. Posteriormente, decidi estudar filosofia. Enxergaste que não sou rico por ter me matado de tanto trabalhar? — o filósofo sorriu mostrando os dentes amarelos: ele havia parado de fumar, mas ainda carregava os estigmas deixados pelo cigarro.
O comerciante apoiou o cotovelo na mesa e o queixo entre o polegar e o dedo indicador. Pôs-se a pensar profundamente, apertando os olhos. Há momentos na vida em que a verdade irrompe tão bruscamente quanto a morte de uma borboleta; momentos em que lágrimas fazem os olhos pulsarem, tremerem até tornarem líquidas as angústias do ser humano. Prender o choro pode gerar uma dor que lateja na fronte. No deserto repleto de sentimentos agonizantes da mente há sempre um oásis. Esconder um prazer entre culpas torna a vida ainda mais insuportável; é como recusar água quando se está morrendo de sede. Com os olhos úmidos de súbitas lágrimas que persistiam em se esconder, o comerciante disse:
— Se a riqueza da vida está nela, ou seja, está no fato de a gente viver plenamente, então creio que você está bebendo com um morto.
O que seria viver plenamente? Viver ultrapassa o âmbito de simplesmente respirar, de ter um coração batendo, enfim, de estar vivo. O filósofo poderia, profusamente, dar vários conceitos sobre a vida — conceitos que sempre geram perguntas sem respostas —, mas preferiu apenas parafrasear Oscar Wilde: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.” Em seguida, completou:
— Não se preocupe, nada é para sempre. O importante é que a cerveja está gelada...

2 comentários:

  1. e como tem mortos andando por aí né mesmo?

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  2. Muito interessante ... Me apaixonei pela ideia desse texto desde a primeira vez que o Flávio me mostrou.

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